Esses dias tive uma discussão com um amigo extremista sobre a questão da fome mundial. Ele falou sobre os ideais dele, sobre mudar a sociedade, matar as pessoas que concentram grandes riquezas. Falou sobre o absurdo de delimitação de terras e sobre a natureza ser de todos e não ter necessidade de pessoas morrerem de fome pois o desperdício de alimentos daria pra alimentar toda a população que morre de fome no planeta.

Tivemos um longo (longo mesmo) debate sobre sociedade, história, política, dinheiro, poder. Esse meu amigo o tempo todo falava sobre mudança da sociedade, sobre o mundo se unir para isso, citando que enquanto conversávamos várias pessoas morriam de fome. Ele tinha aquela ideal de que nós poderíamos mudar o mundo. Mas não podemos, nem se essa minha postagem pudesse chegar a todos no mundo inteiro, nós não poderíamos salvar a humanidade e mudar a sociedade.

A maldade é inerente ao ser humano

Nem se a gente tirasse todos os grandes do poder, nem se distribuíssemos toda a renda, nem se construirmos a sociedade que julgamos ser perfeita. Mesmo assim, em algum ponto da história futura, ainda teríamos pessoas morrendo de fome e de outras mazelas. Isso porque a maldade é inerente do ser humano. Sempre terá alguém, que mesmo dentro de uma sociedade perfeita, ainda irá querer acumular bens e riquezas, ainda irá querer ter mais que os outros. Seja por ganancia ou por maldade. A verdade é que nunca viveremos em uma sociedade perfeita, pois a imperfeição do ser humano acaba nos levando para outro lado.

Segundo a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa é possível notar traços de psicopatia em bebês e os pequenos atos de maldade que crianças psicopatas cometem, o que mostra que ter uma sociedade perfeita e justa não será o suficiente para acabar com toda a maldade do mundo, já que a mesma acaba sendo inerente de alguns seres humanos. Por maior que seja a vontade de criar uma sociedade justa, isso no fundo nunca será possível.

Os números da Fome

Mas a questão não é falar sobre a humanidade e sobre a sociedade e sim sobre a fome. Essa conversa toda foi apenas para te distrair e dizer que enquanto você lia esse trecho, cerca de 30 pessoas morreram de fome no mundo.

Pode parecer exagero, mas não é, já que esse dado foi retirado dos relatórios da ONU. Segundo o relatório mais de 21.000 pessoas morrem de fome diariamente no planeta, o que daria cerca de 1 morte a cada 4 segundos.

E é aí que está o problema, muitos falam sobre a fome, falam sobre acabar com ela através de uma sociedade ideal, idealizam acabar com os grandes acumuladores de renda, tirar eles do luxo e dos confortos para assim alimentar toda a população, mas isso sempre fica na fala e enquanto falam sobre isso mais pessoas morrem de fome.

Enfim, a hipocrisia

Eu já escutei conversas desses revolucionários sobre matar e tirar dinheiro dos ricos salvando assim a humanidade, acontecendo em uma Starbucks, enquanto essas pessoas bebiam um Frapuccino Venti de R$20,00, pesquisando dados em seus Iphones de R$3.000,00 usando tênis da Nike de mais de R$300,00.

O que é extremamente irônico, já que só o Frapuccino degustado naquele dia era o suficiente para pagar um almoço no Restaurante Popular para 10 pessoas, ou um café da manhã para 40 pessoas. O Frapuccino escolhido por essa pessoa não era um item de necessidade, era um luxo que ela se deu. Da mesma forma que seu Iphone e seu tênis da Nike. Como querem falar de conscientizar ou pegar o dinheiro dos mais ricos para alimentar a população sem dar o exemplo? Sem abrir mão da própria riqueza, que pode ser pouco para eles, mas com certeza é muito para muita gente.

Ao mesmo tempo que falavam sobre a má distribuição de renda, sobre muito dinheiro na mão de poucas pessoas, eles ostentavam celulares e tênis caro, financiando ainda mais esse acumulo de renda em poucas mãos. A Apple fatura US$ 1 bilhão por dia e a Nike teve um lucro líquido de US$1,3 bilhões em apenas 1 trimestre. Uma das pessoas que conheço e defende de forma mais extrema acabar com os mais ricos, até mesmo matá-los se for necessário, para alimentar a população, é a mesma pessoa que tem uma pequena coleção de tênis da Nike. Contribuindo para que Phill Knight, cofundador e atual presidente da Nike, seja a 25° pessoa mais rica do mundo. Só para vocês terem uma ideia do que é isso, Phill Knight tem um patrimônio estimado em US$ 49,9 bilhões.

Ideias precisam ser ações

Não adianta querer revolucionar o mundo, mudar uma sociedade e ter sonhos utópicos. A cada conversa que temos, a cada sonho de uma sociedade justa, uma pessoa vai dormir com fome, uma pessoa morre de fome. Enquanto ideias forem só ideias, enquanto as conversas são sobre uma sociedade futurista que nunca vai chegar, o mundo continua sendo mundo. Sonhos desaparecem pela espera de um prato de comida.

Nesse momento, precisamos planejar menos e agir mais, pois enquanto eu escrevia essa frase mais duas pessoas morreram de fome no mundo.

Como diria Mahatma Gandhi, seja a mudança que você quer ver no mundo. Por maiores que sejam suas ações e seu alcance, você não viverá para ver acabar a fome ou salvar o mundo. Mas pode mudar o mundo de uma pessoa. Ao invés de criar planos inviáveis para acabar com a fome no sudeste Africano, você pode simplesmente abrir mão de comprar o Iphone da última geração, ou mais um tênis de marca para sua coleção e alimentar algumas pessoas. Quem sabe até mesmo famílias, próximas a você em um Restaurante Popular. Já que o Brasil mesmo possui quase 20 milhões de pessoas que dormem sem saber se vão ter o que comer no dia seguinte.

Todos somos hipócritas

Eu sei que parece hipocrisia da minha parte falar tanto sobre deixar de falar da fome e fazer algo enquanto eu estou aqui digitando esse texto, mas eu sou hipócrita, eu não acho que minhas atitudes vão mudar o mundo. Também não vou falar aqui sobre as campanhas que fiz e participei de doação, pois o intuito desse texto não é me vangloriar pelos meus feitos e sim apresentar a realidade.

Mas se eu fizer pelo menos 10% das pessoas que vão ler esse texto, pagar um prato de comida para quem tem fome, já teria valido a pena. Existem várias formas de você ajudar pessoas assim. Caso você seja do RJ, por exemplo, existe na Lapa uma iniciativa das Irmãs Missionárias de Calcutá que alimentam moradores em situação de rua. Se você não pode ajudar financeiramente, pode fazer como uma das voluntárias que conheci lá. Uma senhora que passava o final de semana ajudando os feirantes próximos da casa dela em troca dos alimentos que não tivesse sido vendido na feira. Tudo o que ela arrecadava na feira era doado para essa as Irmãs Missionárias.

Muitas pessoas morreram de fome enquanto eu escrevia esse texto e muitas outras também morreram enquanto você lia esse texto. Infelizmente não podemos fazer nada por elas, mas podemos fazer para quem ainda tem fome. Como aquele morador em situação de rua na esquina da nossa casa, podemos fazer por aquela família que mora no final da rua e que perdeu o emprego, podemos fazer a diferença para as pessoas ao nosso redor e talvez assim influenciar outras pessoas. Salvando uma vida por dia, já será uma baita diferença no mundo daquela pessoa.

Quem tem fome, tem pressa e não pode esperar a gente discutir o melhor plano para acabar com os milionários.

Mione Le Fay é carioca, formada em Jornalismo. Escritora, professora de informática, apresentadora e produtora de eventos. Apaixonada por livros e fotografias, encontra nesses nessas duas artes uma forma de mostrar tudo o que existe em seu mundo.

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