A Distopia de George Orwell

O professor Rodrigo Salgado, mestre em História Comparada, aceitou meu convite para falar sobre George Orwell.

Salgado abre sua apresentação dizendo que as duas grandes obras do autor, Revolução dos Bichos e 1984, podem ser consideradas distopias e que, curiosamente, Orwell escreve este último já muito doente – pois ele era tuberculoso, – em 1948. E daí a inversão, de 48 para 84.

Para os que ainda não sabem o que é distopia, como você definiria o termo?

Thomas Morus escreveu o livro Utopia, cuja palavra vem do grego “Tópos”, que significa lugar. Então, a Utopia é o lugar imaginado, o não-lugar, onde tudo funciona perfeitamente. A distopia seria o contrário, o ruim, o lugar ruim, extremamente repressor, em que as elites começam a oprimir a esmagadora maioria da população. E é importante salientar que toda distopia tem um caráter ativista.

Sobre o autor George Orwell, qual seria o histórico dele?

George Orwell é o pseudônimo do autor. Na verdade, o nome dele Eric Arthur Blair. Ele não nasceu na Inglaterra, ele nasceu em Bengala, na Índia, que era uma colônia – o pai dele era servidor da coroa inglesa e, portanto, o pai dele era um agente do colonialismo inglês. Embora nascido na Índia, toda sua educação foi na Inglaterra e ele sempre se identificou como marxista. (…) Ele sempre foi ativista, ele fez parte das brigadas antifascistas, lutou contra os fascistas na Espanha, na Guerra Civil Espanhola. E tudo isso foi muito importante para a sua formação literária, inclusive para escrever tanto o Revolução dos Bichos, quanto o 1984.

Como você poderia resumir o 1984 tecendo um paralelo com a realidade em que nós vivemos hoje?

O mundo de 1984, que se passa na Oceania, é o mundo pós cataclisma mundial – vale lembrar que os Estados Unidos haviam acabado de mostrar a bomba atômica em 1945 e em 1949 a União Soviética passa a dominar também a tecnologia nuclear.

Quando George Orwell escreve 1984, mostrando esse mundo em que câmeras e sensores estão controlando todos nós – coisa que nós já vivemos hoje, com celulares, quando estamos andando na rua estamos sendo filmados. Nós perdemos completamente a privacidade.

Se você tivesse que eleger um Big Brother hoje, quem você diria que é esse líder totalitário?

A Alemanha Nazista seria a que mais se adequaria… Mas, para hoje, isso está “pipocando” pelo mundo inteiro. São tantos os governos autoritários, inclusive aqui no Brasil. E, em relação ao Brasil, temos que tomar cuidado, pois é um país que SEMPRE FOI AUTORITÁRIO. Parece ser uma novidade do Bolsonaro, mas não é. Basta pensarmos: a república foi proclamada num golpe militar – Marechal Deodoro da Fonseca tomou o poder e, depois de um ano de governo, ele fechou o Congresso. Depois ele foi substituído por Floriano Peixoto, cujo apelido era Marechal de Ferro – ele abre o congresso e depois fecha novamente (a Revolta da Degola). A República Oligárquica teve também o Artur Bernardes, que criou campos de concentração quando eclodiu os movimentos tenentistas aqui no Brasil. Depois, tivemos Getúlio Vargas com o Estado Novo, promovendo, de fato, um Estado que tinha tendências fascistas. Embora tenha havia um trabalhismo e um populismo (com ressalvas em relação ao termo), ele, de fato, implementou uma ditadura. E depois, no período de 1945 a 1964, houve uma tentativa de golpe para tentar impedir que Juscelino Kubitschek tomasse o poder. Foi preciso o Marechal Lott fazer o Contragolpe para que Juscelino Kubitschek governasse.

Então, no Brasil, existe uma certa tradição de golpes?

Exatamente. Em 1964 foi um golpe. Em 1968 foi outro golpe: o golpe dentro do golpe. Quando os militares linha-dura promoveram um golpe militar dentro da ditadura militar. Então, não é uma novidade do Bolsonaro que o Brasil tenha tendências autoritárias.

Uma das personagens trabalhava no Ministério da Verdade. O que seria esse Ministério?

Seria, basicamente, o Ministério da Mentira [risos]. Porque os governos autoritários precisam ter o controle da Memória. Isso é muito importante, porque se controla a História, se controla a Memória. E, de tanto repetir de 2 + 2 é igual a 5, isso acaba se tornando uma verdade, gerando uma alienação.

Quer saber mais da entrevista? Acesse-a no meu instagram

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