Gamers estão culpando o socialismo por fazer as mulheres em Mortal Kombat “feias”

E, claro, culpando o feminismo também, pra variar. *rolleyes*

Gamers machistas estão de volta com suas besteiras habituais, desta vez enchendo o saco porque acham que as mulheres em Mortal Kombat 11 não são suficientemente gostosonas, e alguns deles, adivinhem, estão culpando o socialismo, o feminismo, o jornalismo, o marxismo e todos os ismos por isso – e essa não é a primeira vez que isso acontece.

Nós queríamos de verdade que isso fosse piada. Queríamos meeesmo.

É bem provável que a maioria das pessoas jogando o novo Mortal Kombat está se divertindo bastante, já que, por exemplo, o Metacritic deu ao jogo uma média de 83 pontos da crítica especializada. Nós testamos o jogo um pouco e gostamos do que vimos nessa fase inicial. No entanto, grande parte dos players pontuaram o jogo em apenas 3,1 – e o uso frequente dos termos “SJW” (guerreiro de justiça social) e “mulheres feias” nessas resenhas conta uma história diferente.

Em 18 de abril, quando esse inferno começou, William Usher, do blog One Angry Gamer, twittou: “Todo mundo está rindo das caras feias das mulheres em #MK11”, e reclamou do que ele entende por “roupas muito puritanas”. E continuou: “Esperem o #MK12 entrar totalmente em modo #BatalhaDeBurca com as personagens femininas”.

Outras pessoas que ficaram #xateadas com o redesign das personagens femininas em Mortal Kombat 11 concordaram e entraram na roda, incomodando a grande parte de pessoas minimamente decentes que jogam videogames porque simplesmente gostam de jogar, e não de bater punheta pras personagens do jogo.

Um usuário do Twitter, outro cavaleiro desse apocalipse, com o nick “FightingSJWCensorship” culpou o socialismo, os jornalistas de jogos e o feminismo da terceira onda (bem específico ele, né?) por provocar o aparecimento de “personagens femininos de merda como esses”. E o vazamento de chorume continuou.

Felizmente com algumas pessoas respondendo e fazendo piada. Apesar do número alto de likes e respostas assertivas de outros gamers inconformados – o que me faz questionar seriamente os rumos que a humanidade está tomando…

De qualquer maneira, uma pessoa racional que veja esses tweets pode simplesmente pensar que isso é uma reação exagerada… e ela estaria certa. Na verdade, é de fato uma reação quase infantil e desmedida; o que faz eles pensarem que as personagens realmente pulariam de fio-dental pra burca da noite pro dia? Sem nenhuma explicação lógica e plausível pra isso, ainda por cima? Porque olha, dizer que o próximo passo depois da redução de sexualização é a transformação das personagens em espécies de freiras simplesmente não faz absoluto sentido.

Até porque as personagens femininas de Mortal Kombat 11 ainda são muito atraentes e, sinceramente, mesmo que não fossem, são personagens de um jogo de luta, não atrizes pornô. O propósito delas não é fazer seus pintos subirem, é fazer vocês lutarem, criarem estratégias e batalharem. ¯\_(ツ)_/¯

Essa atitude arrogante de certos gamers de que as mulheres nos videogames DEVEM ser atraentes reflete na expectativa de que as mulheres nos jogos são apenas “chaveirinho de homem“, acessórios, ou seja, produtos criados apenas para satisfazer o público masculino heterossexual. O Baraka, por exemplo, pode ter uma cara horrenda com uma boca cheia de dentes e não causar nenhuma controvérsia, porque afinal de contas não é controverso um homem ser pouco atraente. Já a Sheeva, por sua vez (aquela personagem meio-humana meio-dragão), evoluir o design – tendo aquele queixo ligeiramente mais masculino (ou seria mais étnico?) e vestindo uma armadura beeeeeem mais realista e beeeem mais útil em batalha e não aquele projeto de fio dental – é aparentemente uma imagem TÃO PERTURBADORA que é passível de considerar como se fosse uma TRAIÇÃO aos “jogadores raiz”, os “jogadores de verdade” de Mortal Kombat.

sheeva antes e depois
Redesign da Sheeva de MK11.

Abaixo mais chorume e mais piada:

 

O que quero dizer é o seguinte:

Essa sensação que esses caras têm de que eles “têm direito” sobre as coisas (entitlement, em inglês) é tão profundo que quando a expectativa de um certo nível de sensualidade não é atendida, acusações de censura e “pressão SJW” são feitas como se essa fosse a única explicação possível.

Exemplos disso: quando veio à tona que um mini-game romântico tinha sido removido do jogo Fire Emblem Fates para lançamento nos Estados Unidos – justamente por causa da história que fazia com que uma lésbica recebesse uma poção para fazê-la gostar de homens – os jogadores atacaram e assediaram fortemente a então porta-voz da Nintendo, Alison Rapp, falando sem parar sobre “censura” até que ela fosse demitida. Segundo: quando substituíram um biquíni revelador por uma roupa comum em uma personagem de 13 anos no jogo Xenoblade Chronicles X, os jogadores no 8chan (não dá pra falar do inferno sem que chans sejam citados) se uniram para inundar a Nintendo com cartas contra essa “censura” também. Em uma entrevista com a Kotaku, o diretor executivo da XCX disse o seguinte sobre as mudanças feitas no jogo: “Eu realmente não me importava muito, na verdade”. Mas nós nos importamos. E fazemos questão de afirmar:

Empresas que fazem ou retém direitos autorais de jogos que não estão atendendo as exigências de um público em particular (insensível e misógino, por assim dizer) não estão todas resolvendo desenvolver métodos de censura; elas simplesmente decidiram ter um marketing para audiências mais amplas. Muitas vezes, mais inclusivas. Afinal, quanto maior o público, maior o lucro.

Ironicamente, as mesmas pessoas que afirmaram estar lutando pela liberdade de expressão em videogames agora estão tentando punir a NetherRealm Studios por fazer um jogo que eles consideraram “ofensivo”. Sendo que o que eles consideraram “ofensivo” foi nada mais que a obrigação da empresa simplesmente reduzir o decote das personagens femininas, colocá-las em trajes mais característicos das próprias personagens e, em alguns casos, alterar levemente suas estruturas faciais. Em suma, tornaram as personagens mais reais, menos sexualizadas, menos objetificadas – e isso é “ofensivo”. Se personagens femininas nos games não tiverem hiperlordose lombar, coluna vertebral elástica ou ausência de órgãos internos, isso é “ofensivo”.

fikdik boys

Quando sites da Gamergate como o One Angry Gamer afirmam que as personagens femininas de Mortal Kombat 11 estão sendo “dessexualizadas” (o horror, o horror), eles argumentam que “a atratividade das mulheres é puramente definida pelo olhar masculino”. É o quê?

Reparem o redesign da Sheeva. Mortal Kombat 11 se livra de sua tradicional “roupa” e se concentra mais em sua forma física, com músculos definidos, a expressão tensa. Isso tudo, combinado com aquele moicano, lança umas vibes bem fortes do que os norte-americanos chamam de “dyke“, palavra (ofensiva) usada normalmente para se referir a lésbicas mais “caminhoneiras”, mais masculinizadas. Mas o tal do Usher do blog One Angry Gamer (que só não vou deixar linkado aqui porque quero poupar vossos olhos do câncer que isso proporcionaria) não percebe isso ou não se importa, porque tudo o que ele tem a argumentar da personagem é que “parece que ela acabou de cheirar um peido fedendo cheetos podres”. Maturidade, amigos, é uma dádiva. Ao que parece, se uma personagem feminina não é pessoalmente atraente para ele e outros homens… Bom, ela só pode ser uma monstruosidade “sem sexo”. E isso honestamente é uma merda sem tamanho de se dizer.

Uma personagem pode ser atraente sem ser projetada especificamente para os desejos sexuais de homens heterossexuais porque homens hétero não são o barômetro para definir quem é sexy ou não. Atratividade vem em muitas formas.

A Frost, por exemplo, tem um visual mais masculino e um corte de cabelo que também é associado com lésbicas. Os jogadores podem não aprovar o visual, mas isso não diminui o quão atraente ela é. Significa apenas que alguns jogadores do sexo masculino não gostam disso. Só.

Frost em MK11.
Frost em MK11.

Enfim, Mortal Kombat também não é exatamente o céu LGBT dos games. Na verdade, a NetherRealm Studios deixou de fora do MK11 o primeiro personagem assumidamente gay da série, Kung Jin, apesar de ter acabado de apresentá-lo em Mortal Kombat 10. Duas outras personagens importantes do MK – que aparentemente e coincidentemente estavam em um relacionamento lésbico -, Mileena e Tanya, estão desaparecidas do novo jogo também. E esse é um ponto necessário a ser mencionado. E a ser mantido em mente, principalmente pra fins de senso crítico.

Embora algumas das personagens do jogo “pareçam lésbicas” (seja lá o que isso signifique), ou não sejam tradicionalmente “femininas”, TODAS ainda são um tanto convencionalmente atraentes, levando em consideração padrões normativos de beleza.

Não, vamos falar a real aqui: não tem UMA protagonista feia nesse jogo (ok, a D’vorah é bizarra mas não é exatamente feia também, os traços do rosto e do corpo dela são bem definidos), então olhem bem:

mk11 personagens 1mk11 personagens 2

Sinceramente, ainda que algumas das personagens estejam usando máscaras nas imagens acima (dica: ficam ainda mais lindas sem elas), não te parecem que os caras reclamando dessas personagens estarem “feias” fazem um esforço hercúleo pra gostar de mulher? É só o que consigo concluir.

Eu, pessoalmente, fico feliz demais com as alterações nas personagens, de verdade. Ao menos pra mim, todos os redesigns ficaram incríveis e deram personalidade pra elas, além da maior abertura para identificação com elas. Eu poderia até fazer um post falando só disso. Mas o ponto aqui é: eu senti vontade de jogar. Por causa do novo visual das personagens, especificamente. E essa é EXATAMENTE a intenção da NetherRealm Studios.

Continuando: a Sonya Blade pode ter quadris mais “masculinos”, um busto menor e uma armadura militar mais realista que não exponha suas costas e costelas, mas ela certamente ainda é projetada para parecer atraente. Outra coisa: o jogo envelheceu, os personagens também. Sonya foi amadurecendo nos jogos e durante a nova linha do tempo de MK, ela é apresentada como esposa de Johnny Cage e mãe da Cassie Cage. Não dá pra esperar que ela sempre tenha aquela aparência de mocinha, não é?

sonya blade
Redesign da Sonya Blade de MK11.

E não é como se ela não tivesse outras skins que deixam seu corpo mais exposto ou com uma aparência mais sexy.

Sonya Blade no MK11
Sonya Blade no MK11.

E daí a gente entra em outro ponto:

Os homens do jogo, por outro lado, são feitos para parecer macabros, ferozes e poderosos: a fantasia suprema do poder masculino.

A resposta ao redesign das mulheres de Mortal Kombat 11 é emblemática do cabo-de-guerra cultural nos videogames sobre quem está sendo “atendido”. Um lado vê os “biquínis” de Mortal Kombat de antigamente como atendimento para homens heterossexuais (eu meixma), o outro vê as novas roupas como atendimento às feministas. Porém, eis um fato: enquanto uma minoria vocal de jogadores reacionários tenta alegar que essas mudanças “SJWs”, como as feitas no jogo Fire Emblem Fates, afugentam “jogadores raiz”, esse jogo na verdade teve a maior estréia nacional de qualquer jogo de Fire Emblem antes. Outro fato: enquanto alguns jogadores amargos chamam a Jade de feia, os fãs do subreddit de Mortal Kombat a acham linda, postando exatamente as mesmas imagens que os jogadores amargos criticam.

Em outras palavras:

É difícil acreditar que os jogos estão sendo arruinados por “SJWs”, simplesmente porque eles não estão. Mais pessoas estão jogando videogames do que nunca antes na história, e alguns jogadores só estão ficando putos por não ser mais apenas sobre eles.

Mas esses homens vão ter que entender, mais cedo ou mais tarde, que

NEM

TUDO

NA

VIDA

É

SOBRE

ELES.

Melhor fatality do jogo, btw.
Melhor fatality do jogo, btw.

Matéria retirada do site  Garotas Geeks acesse para ter mais informações

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