[Crítica] Nós

O diretor ganhador do Oscar de melhor roteiro com ‘Corra!’, Jordan Peele, retorna em seu segundo filme como diretor, abraça o terror, mas não esquece a comedia.

‘Nós’, escrito, produzido e dirigido por Jordan Peele, mostra uma grande evolução artística por parte de Peele, e mais uma vez toca em assuntos necessários. Em ‘Corra!’, Peele levantou questões raciais em plena era Trump, ao mostrar um casal inter-racial pelos olhos do namorado negro, dessa vez Peele toca em outra ferida, mas já esperávamos por isso.

O filme conta a estoria de uma garotinha que fica perdida em um parque de diversões, mas ao entrar em uma casa de espelhos, ela acaba encontrando sua versão negativa. Traumatizada, a garotinha nunca mais foi a mesma, mas trinta anos depois, agora mãe e esposa, durante uma viagem em família, seus demônios retornam para cobrar uma antiga divida.

O novo ponto tocado por Peele, é exatamente outra critica de Trump, o medo dos “invasores”. Peele tenta mostrar com a família protagonista, a face sombria dos Estados Unidos, a real diferença entre a maioria e a minoria, algo que não é necessário sair do Brasil para se entender. As criticas de Peele em sua boa parte são tão cirúrgicas, que o publico corriqueiro não vai entender, mas está presente. Ao colocar a família diante do espelho, e ao enfrentar sua versão negativa, podemos já tirar como lição que muitas vezes vemos nos outros os erros omitidos por nós mesmos. O que você veria ao se olh

ar no espelho? Ou melhor, o que você encontraria de pior ao se olhar no espelho? Segundo o próprio Peele: “Somos nosso pior inimigo”.

Logo no inicio do filme, eu consegui sentir uma grande diferença e uma evolução incrível de Peele como diretor, planos belíssimos, cores, brilhos, escuridão. Jordan consegue misturar o pop com um tom artístico que falta em outros filmes. Ao assistir ‘Nós’, eu senti um orgulho, que como cinéfilo, fazia muito tempo que eu não sentia ao assistir um filme em uma tela grande de cinema. O cinema de Jordan Peele é raro, e está em falta atualmente em Hollywood.

Todas as cenas de suspense são muito bem aproveitadas, os enquadramentos são aterradores, pois temos a visão alucinada das figuras sinistras presentes em tela. Inclusive, Lupita Nyong’o dá mais um show de atuação, principalmente por sua versão do mal, Red. E mesmo com pouco tempo de tela, Elisabeth Moss, da série ‘The Handmaids Tale’, está incrível. Uma atuação impecável.

O filme trabalha de uma forma perfeita os tons de terror com comedia, e no geral, esse tipo de filme tende a ficar cansativo ou chato, e principalmente, perde o medo e a sensação de perigo por parte dos personagens. Mas não foi isso que aconteceu aqui, Peele trabalha de um jeito onde as cenas engraçadas não cortam o efeito da tensão.

O roteiro mais uma vez é de qualidade, personagens bem escritos, ótimas cenas de terror, mas a conclusão é extremamente esperada, e pelo menos para mim, nada surpreendente. Até mesmo os velhos clichês do cinema de terror são modificados, de leve, mas Peele consegue algo novo em seu filme. E por outro lado, eu não consegui comprar sua ideia de distopia, e nem muito menos a origem das criaturas, a forma como elas vivem e como elas decidem começar sua revolução.

O cinema de Jordan Peele é único dentre os novos diretores, e extremamente necessário para uma Hollywood sem ideias, e um mundo cheio de preconceitos.

Nota: 9.0

 

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