[Análise] Game of Thrones: Daenerys Targaryen e a incessante procura pelo lar

Depois da divulgação do primeiro trailer da oitava temporada de Game of Thrones, eu pensei em fazer uma análise dele aqui no blog. Porém Game of Thrones é uma série tão badalada que logicamente choveram análises sobre esse trailer na internet. Então ao invés de analisar frame por frame do que foi mostrado no trailer lançado pela HBO no último dia 05, pretendo me concentrar apenas em uma parte dele, mas especificamente, em uma fala dita por Bran durante ele. Caso você não tenha visto nenhuma análise ou mesmo se tem a curiosidade de conhecer boas análises, você pode assisti-las clicando aqui e aqui. Foram as melhores análises do trailer que assisti na internet e por isso recomendo.

A referida frase dita por Bran Stark durante o trailer foi a seguinte:  Everything you did brought you where you are now, where you belong… Home. Que em bom português é: Tudo o que você fez trouxe você até aqui. Até o seu lugar… Sua casa.

Quando eu assisti ao trailer pela primeira vez, eu imediatamente associei esta frase a Daenerys Targaryen, porém, a maioria esmagadora das análises do trailer a associaram a Jon Snow. Veja bem, meu propósito com esta análise não é desconsiderar nenhuma das interpretações que a relacionam a Jon Snow, até porquê, não nego que de fato ela possa se referir a ele. Meu ponto é explicar porque meu primeiro pensamento foi Daenerys ao invés de Jon.  Toda essa questão abriu uma caixa de pandora sobre a jornada de Daenerys na minha cabeça, por isso para externalizá-la, resolvi escrever algo sobre ela.

Tudo o que você fez trouxe você aqui…

Sabemos que logo na primeira temporada de Game of Thrones ou no primeiro volume de mesmo nome de As Crônicas de Gelo e Fogo, uma série de personagens, notoriamente da Casa Stark, se separaram logo nos primeiros episódios ou páginas e passaram a viver incríveis jornadas pessoais por Westeros e mesmo para além deste continente.

Contudo, do outro lado do Mar Estreito, uma menina tímida e furtiva iniciou suas longas aventuras por todo o continente de Essos, renascendo e se fortalecendo juntamente com seus dragões para enfim atravessar esse mesmo mar e voltar a Westeros, local onde ela havia nascido há alguns anos atrás. Como bem sabemos, essa garota é Daenerys Stormborn, da Casa Targaryen.

A jornada de Daenerys no entanto, começou quando ela ainda era uma pequena partícula no ventre de sua mãe e precisou se esconder com ela em Pedra do Dragão. Quando nasceu, entre a maior tempestade que Westeros conhecera e a morte de sua mãe no parto, Daenerys foi levada ainda bebê como uma exilada para Essos, onde ela viveu a maior parte de sua vida entre uma cidade e outra. Durante toda sua longa caminhada, Daenerys viveu incontáveis viagens, vivendo uma infância empobrecida e sem raízes pois Viserys, seu irmão mais velho, nunca permitia que eles ficassem muito tempo no mesmo lugar.

Desde então, Daenerys foi vendida a  Khal  Drogo, pois com o exército de Drogo, Viserys esperava conseguir recuperar o Trono de Ferro que por quase 300 anos pertenceu a Casa Targaryen. Superadas as dificuldades iniciais causadas pelo duro estilo de vida dothraki, Daenerys aos poucos começou a se acostumar a esse povo, chamado-os de seu, aprendendo seu idioma, cultura e se desenvolvendo sexualmente até que ela enfim engravida de Khal Drogo. Quando enfim aceitou o modo de vida dothraki , essa menina que nunca teve nada e nem ninguém além de seu irmão egoísta e meio maluco, passou a acreditar do fundo de seu coração que ela finalmente havia encontrado tanto um lar quanto uma família. Um lugar para ficar e descansar. Porém, um corte no peito causados pela própria imprudência e ousadia de Khal Drogo, arrancou de repente todas as esperanças de ter uma família e pertencer a algum lugar que Daenerys poderia ter.

Daenerys ao lado de Drogo e seu filho Rhaego

O ferimento de Khal Drogo e o medo de perder tudo o que havia conquistado, levou Daenerys a aceitar as misteriosas artes sombrias da maegi Mirri Maz Duur e o resultado disso todos nós já conhecemos: Drogo foi devolvido sem ferimento, porém em estado vegetativo. Rhaego, o filho que ela tinha no ventre, foi sacrificado por Mirri Maz Duur durante seu ritual sombrio. Daenerys tirou a vida de Drogo, o queimou junto com Mirri Maz Duur e em troca chocou seus ovos de dragão, renascendo na história como a Mãe de Dragões.

Esses eventos catárticos ocorreram em meio ao Mar Dothraki, um imenso mar de grama, conhecido assim pelo movimento que a grama alta faz conforme o vento a toca. Do mar dothraki em diante, vimos Daenerys atravessar o terrível deserto vermelho, derrotar magos traiçoeiros na exuberante cidade de Qarth, atacar a Baía dos Escravos para quebrar as correntes dos cativos, voltar a Vas Dothraki, a cidade sagrada dos dothrakis, retornar a Baía dos escravos e enfim chegar ao sul de Westeros apenas para carregar seus dragões e exércitos para o norte do continente.

Embora todas as jornadas tenham sua especificidades e sejam importante para o desenvolvimento pessoal de cada personagem, acho que não é nenhum tipo de equivoco afirmar que a jornada de Daenerys talvez seja uma das maiores jornadas que acontecem simultaneamente nos livros e na série de TV. Durante toda a história, Daenerys se desloca entre grandes distâncias, entrando em contato com diferentes povos e culturas. Como se não bastasse, seu arco narrativo está recheado de momentos marcantes e significantes para toda a história tecida por George R.R Martin, como o retorno dos dragões ao mundo e com ele o fortalecimento da magia e a missão de Daenerys de quebrar as correntes das milhares de pessoas oprimidas pela escravidão. Claro que a questão de Daenerys com a escravidão e sua política de conquista vem com uma considerável dose de complexidade, incansavelmente já discutida, mas que não vem ao caso aqui.

Nos livros, Daenerys é uma das personagens mais bem construída e imersa nos tons de cinza que Martin tanto gosta de usar. Existe uma beleza única e também muita contradição dentro dessa personagem. Seu arco narrativo é ainda recheado por profecias e pelos maiores mistérios da história e evidências textuais apontam  Daenerys  como sendo até o momento a principal candidata a cumprir a profecia de Azor Ahai (aqui e aqui), o herói renascido entre sal e fumaça que desempenhará um importante papel na luta contra os Outros, na guerra pela Alvorada, o que tematicamente liga todo o arco de Daenerys ao conflito entre os vivos e os mortos que temos acompanhado ao Norte de Westeros.

Até o seu lugar… Sua casa.

A primeira vista, o Trono de Ferro é a grande força que move o arco de Daenerys, porém isso não é necessariamente uma verdade, apenas uma das muitas camadas que move sua jornada através dos continentes. Existem outras, mais profundas, desconhecidas ou nunca confessadas em voz alta pela personagem.

Caso se prove nos livros que Dany é Azor Ahai, seus dragões, os exércitos, as transformações e todas as pessoas que ela reúne em torno de si têm como principal objetivo a Longa Noite, porém este destino é algo que a personagem desconhece. Sobreposto ao Trono e uma suposta missão cósmica, está o que eu considero como o sentimento mais verdadeiro, íntimo e importante na vida de Daenerys: o simbolismo representado pela misteriosa casa de porta vermelha.

Daenerys e a casa de porta vermelha

Infelizmente, A Casa de Porta Vermelha, foi um elemento da construção de Daenerys que ficou de fora da série de televisão. Basicamente, essa porta remonta a uma casa aonde Daenerys viveu quando era muito pequena e que atualmente na história dos livros ela acredita que ficava em Bravos. Nos livros, ela conta que um dia ela e Viserys foram expulsos dessa misteriosa casa que tinha um limoeiro do lado de fora de seu quarto e que o pouco do dinheiro que eles tinham foi roubado pelos empregados dessa casa. Daenerys confessa que chorou no dia em que a porta vermelha se fechou atrás de si e desde então essa porta se tornou uma ideia fixa para a personagem.

Existem uma série de teorias sobre essa casa na internet. Sobre sua verdadeira localização e significado na vida de Daenerys. Infelizmente não cabe espaço para falar sobre essa linha do enredo da Dany, mas espero poder voltar a falar dela algum dia por aqui.

O que eu quero trazer para a minha reflexão em relação a essa misteriosa casa  é todo o seu sentido simbólico para o arco narrativo de Daenerys. Essa casa representa a única referência feliz que Daenerys possuí. O único momento que foi permitido a ela a ser criança. Ela é o local para onde ela sempre deseja fugir quando se encontra em situações difíceis ou que não consegue lidar. Ela é a única referência de lar e segurança para essa personagem. Ela é a única coisa que Daenerys deseja genuinamente e do fundo de seu coração simplesmente porque representa uma ideia de lar. Algo que sempre lhe foi negado.

Você já se perguntou alguma vez por que Daenerys luta tanto para recuperar o Trono de Ferro que pertencia a sua família?Não é apenas porque ela é a última de sua linhagem e fez do Trono o grande objetivo de sua vida. Daenerys almeja recuperar o Trono de Ferro porque ela acredita que ele significa casa. Porque o Trono de Ferro é a coisa mais próxima de sua família que ela poderia alcançar neste universo.

Quando começamos a acompanhar a exaustiva jornada de Daenerys por Essos, percebemos que ela fala sobre vingança contra aqueles que contribuíram para o trágico fim de sua casa, os cães do Usurpador, um apelido que Viserys deu para os Lannisters e os Starks. No entanto, a história conforme avança vai eliminando qualquer possibilidade de vingança pessoal por parte de Daenerys. Robert Baratheon morre e sua casa fica por um fio, o mesmo vale para as casas Stark, Lannister e Arryn, os principais nomes por detrás da Rebelião de Robert. Conforme nomes como Ned Stark e Tywin Lannister vão desaparecendo da história, ficamos nos perguntando o que resta para Daenerys se vingar. Nada. Simplesmente porque essa não é sua função na história. A ideia de vingança e o projeto de poder que envolve a recuperação do Trono de Ferro são ideias de Viserys, é  a voz dele ecoando através de Daenerys e não exatamente o que ela deseja. Na verdade, essa menina solitária e poderosa que anda pelo mundo com seus três dragões, deseja as coisas mais simples do mundo.

Ao longo de toda a sua jornada, vemos Daenerys andando pra baixo e pra cima sem nunca se fixar em um local, sem ter um lar ou se conectar de verdade a alguém. Constantemente em movimento. Isso é uma verdade tanto para a série quanto para os livros, porém com  a ausência do simbolismo representado pela casa de porta vermelha no roteiro, os showruuners David Benioff e D. B. Weiss trabalharam o apelo pelo lar no arco de Daenerys de forma mais evidente, mas que pode passar despercebido se você reduzir a tudo nessa série ao Trono de Ferro. Durante o quarto episódio da primeira temporada por exemplo, Daenerys pergunta a sor Jorah Mormont pelo o que ele rezava, ao que ele responde “Home” (lar).  Então Daenerys responde que rezava pelo lar também. Na sequência, ela chega a conclusão que Viserys era uma pessoa fraca e patética, e que portanto, nunca a levaria de volta para casa. É aqui o momento em que pela primeira vez assistimos essa personagem associando o Trono de Ferro a sua busca por um lugar aonde se encaixar.

 

Embora os livros estejam ainda bem longe de nos proporcionar este momento, durante a sétima temporada da série de TV vimos finalmente Daenerys retornando triunfante a sede ancestral de sua família, Pedra do Dragão, ao final do primeiro episódio da temporada, Dragonstone.

No entanto o vazio por não ter um lar, persistiu na vida da personagem durante a sétima temporada, pois no episodio seguinte, Stormborn, ao ouvir de Tyrion Lannister e Varys de que havia nascido em Pedra do Dragão durante uma das maiores tempestades que a ilha já conheceu, Daenerys admite que esperava se sentir em casa quando chegasse ali, mas que no entanto não se sentia assim.  Nos episódios posteriores, assistimos a Cersei e aos senhores tanto do Norte quanto do Sul a tratando como uma invasora estrangeira, tirando dela possibilidades de melhor se conectar ao continente. Isto a deixa com a missão de não apenas conquistador o trono, mas também de tentar buscar o apoio, respeito e marcar o seu lugar entre as pessoas de Westeros.

Quando vi Daenerys não se conectando a Pedra do Dragão, eu me senti tão angustiada por ela e fiquei me perguntando o que mais restava para essa personagem no enredo. Sabemos que ela continua focada em conquistar o trono de seus antepassados, mas desconfio que ele não será o suficiente para preencher o vazio que existe na alma de Daenerys. Simplesmente porque lares e casas são compostos por pessoas ao invés de tronos e castelos.

Daenerys chegando a Pedra do Dragão durante o primeiro episódio da sétima temporada, Dragonstone.

Aqui temos duas variantes interessantes dessa questão: Jon Snow e Cersei Lannister.

Cada um do seu modo, mas ambos os personagens cresceram em ambientes que podemos considerar como um lar. Vimos que toda a treta entre Lannisters e Starks era para proteger o lar, as pessoas que o compunha. Jon Snow cresceu como um bastado, sem um nome, mas sempre esteve conectado a Casa Stark e ao Norte. Para esse personagem, sempre foi uma noção de pertencimento a algo, ainda que as convenções sociais o privassem de ter um nome.

Cersei por sua vez, sempre fez de tudo para manter seus filhos vivos e a sua maneira, vem lutando para manter sua própria casa viva. No entanto para essa personagem, o lar não mais existe. Seus filhos estão mortos. Seu pai e sua mãe. Jaime a abandonou e Tyrion não conta pra Cersei. E qual foi a única coisa que lhe restou?O Trono de Ferro. Mas claramente, o Trono de Ferro não é o suficiente para fechar a ferida que se abriu na alma de Cersei depois de tudo o que ela perdeu. Não supre o vazio e tão pouco sua solidão e isso fica evidente a cada excelente interpretação de Lena Headey desde que ela se tornou rainha dos Sete Reinos, a primeira de seu nome.

Historicamente nos livros, o Trono de Ferro não preenche buracos na alma, foi assim com todos os reis vazios que se sentaram sobre ele e a partir dele encontraram um triste fim, o grande exemplo disso na série de TV talvez seja Robert Baratheon e muito em breve…. a própria Cersei.

Cersei Lannister sentando no Trono de Ferro no episódio Winds of Winter, durante a sexta temporada.

Então temos aqui Jon Snow, esse menino que deixou o maior lar que conhecemos em Game of Thrones, Winterfell, por acreditar que como um bastardo não havia espaço para si entre o bosque sagrado e os jardins de vidro. A busca por um lugar no mundo levou Jon à Muralha e lá ele virou intendente, enfrentou os Whites Walker, viajou para além da Muralha, conheceu o povo livre, virou Senhor Comandante, foi assassinado, reviveu, voltou para Winterfell e se tornou o Rei do Norte. Entretanto, ao contrário de Daenerys, Jon cresceu ao lado da melhor família que se poderia ter em Westeros. Cresceu com um pai que lhe ensinou coisas e irmãos que lhe serviam de companhia. Sempre fez tudo para proteger o povo do Norte e incontáveis vezes reafirmou seus laços com a região.

Conhecendo melhor do que ninguém a ameaça representada pelo Rei da Noite e os caminhantes, na sétima temporada Jon se colocou no caminho de Daenerys para conseguir ajuda para proteger todo o reino dos vivos. Pela primeira vez, vimos a colisão de dois mundos ao mesmo tempo distintos e similares entre si, o de Jon Snow e o  de Daenerys Targaryen.

A sétima temporada foi extremamente corrida, com um roteiro fraco e de soluções fáceis para os complexos problemas apresentados pelo enredo. Por isso, para muita gente, Jon e Daenerys simplesmente não funcionou. Porém quero dizer que independente da reação do público a concretização do famigerado “jonerys” ao longo dessa temporada, a partir dela vimos esses dois ficando cada vez mais próximos um do outro, até que no polêmico episódio Beyond The Wall, Jon Snow  finalmente se deparou com a verdadeira natureza de Daenerys. Defeitos a parte, assim como podemos dizer que Jon Snow é uma pessoa corajosa e altruísta, Daenerys é igualmente corajosa e altruísta. Ao longo de sua jornada ela foi a pessoa que constantemente se sacrificou para salvar aqueles que ela  desejava proteger, pois por trás dos muitos títulos, das tranças elaboradas, das roupas bonitas, da ferocidade de suas ações e da pose de conquistadora, bate um coraçãozinho mole e solitário, que tem nos dragões e num irmão maluco suas únicas referencia de família.

Durante a mesma temporada, no episódio The Dragon and Wolf,  Jon e Dany finalmente conversam sobre família e um Jon bem intencionado percebeu o vazio que existe dentro de Daenerys. O mesmo vazio que desejei explanar com este texto. Embora não demonstre, Daenerys se ressente por não ter uma família e mais ainda por acreditar que não pode gerar filhos, o que na cabeça dela a torna a última de sua linhagem.

(Daenerys)  – Este lugar foi o inicio do fim para a minha família. Zaldrīzes buzdari iksos daor, Um dragão não é um escravo…

Eles eram aterrorizantes. Extraordinários…

Eles enchiam as pessoas de admiração e espanto e nós os prendíamos aqui…

Eles definharam… Encolheram…

E nós encolhemos também. Não éramos extraordinários sem eles.

Éramos como os outros.

(Jon Snow) – Você não é como os outros… E sua família ainda não acabou. Você ainda está aqui.

(Daenerys) – Eu não posso ter filhos.

(Jon Snow) – Quem disse isso?

(Daenerys) –  A bruxa que matou o meu marido.

(Jon Snow) – Você já pensou que ela talvez não fosse confiável?

(Game of Thrones, episódio The Dragon and Wolf, sétima temporada).

Jon e Daenerys em Fosso do Dragão no episódio The Dragon and Wolf

Ao final deste episódio, novamente vemos essa menina levantando acampamento com seus dragões e exércitos para prosseguir em sua exaustiva missão de sempre tentar salvar o dia. Porém, Pedra do Dragão  foi mais uma tentativa de lar que Daenerys precisou abandonar. Porém dessa vez, ela se colocou em direção a maior referência de lar que Westeros possui: Winterfell.

Por isso que quando eu ouvi a frase de Bran, eu a associei imediatamente a Daenerys e não a Jon. Pra quem não percebeu, a sétima temporada teve um apelo muito pessoal para Daenerys. Depois de muito tempo imersa num jogo político que quase a transformou num robô, assistimos sua vulnerabilidade retornar, a ouvimos falando sobre família e filhos, sobre não se sentir em um lar  e finalmente se conectando a alguém: Jon Snow. Como todos sabemos, Jon Snow é o único parente vivo que Daenerys possui, o que faz dele  e não do Trono de Ferro a coisa mais próxima do que ela sempre procurou: um família. Um lugar para chamar de seu.

Peço desculpa aos malvados de plantão, mas Jon e Daenerys não irão se estranhar pelo direito ao Trono de Ferro. Nem na série e nem nos livros. Até porque o Trono de Ferro nunca foi o objetivo, apenas a ironia de toda essa história. A verdade de Daenerys é que ela sempre buscou um lugar ou alguém a quem se conectar dentro de sua própria família. Ela cresceu acreditando que casaria com Viserys e sempre divagou que poderia ter se casado com Rhaegar se tivesse nascido antes. O filho de Rhaegar com Elia Martell, Aegon, também sempre foi uma opção de casamento para Daenerys, porém ela acredita que ele morreu ainda quando bebê no Saque de Porto Real, no fatídico dia em que sua família perdeu o Trono de Ferro.

Cinco Aegons haviam governado os Sete Reinos de Westeros. Teria havido um sexto, mas os cães do Usurpador assassinaram o filho de seu irmão quando ele ainda era um bebê de peito. Se ele tivesse vivido, eu poderia ter me casado com ele. (Daenerys, A Dança dos Dragões, pág 38)

Em A Dança dos Dragões, conhecemos o personagem Jovem Griff, que acredita ser o filho de Rhaegar e Elia Martell, Aegon, que todos acreditavam estar morto. Na série no entanto, esse personagem nunca foi mencionado e Jon Snow parece ter sofrido uma espécie de fusão com ele, já que na sétima temporada descobrimos que seu nome verdadeiro é Aegon Targaryen.

É possível que nos livros, por uma série de circunstâncias, Aegon e Daenerys lutem em campos diferentes pelo Trono de Ferro pois Aegon pode ser na verdade, um falso filho de Rhaegar e Elia, criado por Varys e Illyrio Mopatis para alcançar o Trono de Ferro.  Jon por sua vez, pode ser  o único filho de Rhaegar vivo atualmente na história, porém com Lyanna Stark. Provavelmente em algum momento da história,  seu arco será fundido ao de Daenerys, pois ambos serão peças fundamentais na Guerra pela Alvorada tal como mostrado pela série. Sim, também com possibilidade de romance. Existe um milhão de evidencias discutidas aqui que apontam para isso. Sorry.

Sabemos que Jon e Daenerys terão pouco tempo para lidar com a revelação de que Jon é filho legítimo de Rhaegar Targaryen e  o verdadeiro herdeiro do Trono de Ferro.

Porém, conforme o trailer, aparentemente essa revelação não será o suficiente para desfazer a união que surgiu entre Jon e Dany. Durante a sétima temporada, os showsrunners se esforçaram para provar a esses dois personagens que eles precisavam fazer as coisas juntas se quisessem sobreviver. Então together meio que virou uma palavra de segurança entre Dany e Jon. É a união de Gelo e Fogo segundo Melisandre e para mim muito mais do que uma necessária aliança militar e luta para sobrevivência. Jon e Daenerys se encontram na história como dois seres humanos incompletos que preenchem de certa forma o vazio de um e de outro. Daenerys tem a experiencia do nome e Jon a experiencia do lar. Quanto a isso, o próprio Kit Harington, que interpreta o personagem Jon Snow, revelou o seguinte em entrevista dada a Entertainment Weekly: “O fim do mundo poderia chegar em breve, mas pelo menos ele tem alguém para amar e sabe quem ele é. “(E.W, pág 33). A fala de Kit passa a sensação de que apesar das circunstâncias sombrias, Jon finalmente irá se sentir uma pessoa completa. Ele tem um nome, alguém para amar e o mais importante… ele finalmente irá descobrir quem é sua mãe.

Em uma das cenas reveladas pelo trailer, vemos Jon muito triste nas criptas de Winterfell, perante ao túmulo que provavelmente é de Ned Stark ou de Lyanna aparentemente já ciente de sua verdadeira identidade. Na mesma cena, Daenerys aparece para consolá-lo e em outro trecho os dois caminham lado a lado de encontro aos dragões, Drogon e Rhaegal.

A oitava temporada, por ser a última, promete ter uma série de paralelos com a primeira temporada. Esta cena das criptas por exemplo, remete ao momento na primeira temporada onde Ned Stark e Robert Baratheon vão até as criptas para visitar o túmulo de Lyanna Stark, a mamãe de Jon. Na cena, diante do ódio de Robert contra os Targaryens, Ned diz ao rei que todos os Targaryens se foram, no que Robert responde que nem todos, pois sabia que Daenerys e Viserys ainda estavam vivos em Essos. Mas ele nunca imaginou que havia um escondido bem debaixo de seu nariz real.

As criptas e o bosque sagrado são as coisas mais sagrados para os Starks em Winterfell. Ambos os locais foram testemunhas de inúmeros momentos íntimos envolvendo os membros desta casa. Então achei a presença de Daenerys nessas criptas muito simbólica, além do fato dela ser uma inversão da primeira cena entre Ned e Robert. A rebelião de Robert foi construída em cima de uma mentira. Os Targaryens não se foram. E agora eles estão bem ali.

E de fato, toda a jornada de Daenerys a levou até aquele momento, a Winterfell. Então seria simplesmente incrível ouvir de alguém tão poderoso como Bran que ela finalmente está em casa e que encontrou o seu lugar. Não por ser esse lugar Winterfell, mas por tudo pelo o que a ancestral sede da família Stark representa pro enredo: lar. Seria uma demonstração de que ela é bem vinda ali, naquele lugar, com aquelas pessoas e aquela família que compartilha de tantas histórias semelhantes as dela.

Quanto a isso, Emilia Clarke, atriz que interpreta a personagem, em entrevista a Harper’s Bazaar, revelou o seguinte sobre sua chegada a Winterfell e o seu encontro com os demais Starks:

É realmente surreal“, disse Emilia à revista. “Quero dizer, você também vive o que o personagem sente, porque é novo e é estranho, e você está entrando em um território de outra pessoa e você tem muitos atores que conhece muito bem, que foram como ‘esta é a nossa casa’. Então você entra e diz: ‘Eu sei disso apenas na televisão, nunca estive neste espaço antes na minha vida’“.

Mas também devo admitir para o personagem que eu senti isso”, continuou a estrela. “O show está cheio de emoções. Eu senti isso por ela. Eu estava tipo: ‘Isso! Aqui estamos! Estamos dentro, estamos falando com Sansa, estamos muito mais perto. Foi ótimo, muito emocionante“.

Novamente eu reitero que não descarto a possibilidade da frase ter sido dita a Jon,. Eu até acho que foi mesmo. Winterfell e o Norte são o local ao qual ele pertence e toda sua trajetória desde o útero de Lyanna era para que ele estivesse ali. Naquele lugar. Porém aproveitei esse fio para explorar e refletir sobre esse grande vazio que existe na vida de Daenerys. Acho que tematicamente, falar sobre casa para alguém como Daenerys que sempre procurou por um lar e que nunca se sentiu em casa em lugar nenhum, seria muito mais adequado e traria uma gigantesca carga emocional para o roteiro. Além do mais, se a série levantou essa questão na sétima temporada com Pedra do Dragão, precisamos saber como e quando Daenerys irá enfim sentir que encontrou um lugar para ficar. Só restam seis episódios para eles responderem. Assim a gente espera.

Já estamos carecas de saber o quão forte e incrível é a ligação de Jon com o norte. Ele já reafirmou isso centenas de vezes e o auge disso foi  sem dúvidas sua aclamação na série como Rei do Norte, onde seu valor, sua dignidade e sangue Stark foram reconhecidos por todos os senhores do Norte durante a sexta temporada, no episódio Wind of Winter, independente de sua condição de bastardo e quando todos ignoravam o segredo por trás de sua verdadeira linhagem. Basicamente, sua aclamação foi como se sua bastardia fosse removida simbolicamente. Ao ser aclamado como rei, Jon foi reconhecido pelos nortenhos como um igual. Por isso que do meu ponto de vista, retificar que tanto o Norte quanto Winterfell são a casa de Jon seria algo no mínimo meio redundante. Simplesmente porque Jon sempre esteve no Norte, e em seu íntimo,  Winterfell sempre foi o seu lar, mesmo quando ele não tinha nenhum direito a ela.

No caso de uma revelação, o melhor conselho sobre suas origens, é o mesmo conselho que ele deu a Theon Greyjoy durante a sétima temporada, onde Jon diz a um Theon dividido entre os Starks e os Greyjoys, que ele não precisava deixar de ser nem uma coisa e nem outra, ele simplesmente poderia ser os dois, pois era isso o que ele era.

Costumamos dizer que Game of Thrones é uma série realista porque lá atrás, quando Martin decidiu criar uma certa série de livros chamada A Song of Ice and Fire, (A Canção de Gelo e Fogo), ele decidiu abordar o que havia no coração das pessoas. E adivinhem só: não existe apenas ódio, ambição, vingança, traição e violência em nossos corações. Existe também desejo e necessidades por amor, reconhecimento e pertencimento. Todos nós seres humanos, partilhamos de uma atração natural por um lar. Não existe nada mais acolhedor do que finalmente chegar em casa após um dia exaustivo. O tempo todo procuramos nos conectar a algo ou a alguém, criar raízes em algum lugar. Com esses personagens não é diferente.

Por causa disso gostaria de comentar que nada do que foi dito aqui torna Daenerys uma personagem menos interessante. Sua busca por um lar é apenas uma das muitas camadas dessa personagem, porém a que move todas as demais. E tudo isso só torna Daenerys alguém ainda mais fascinante e humana. Vale lembrar que o prêmio final nunca foi e nunca será o Trono de Ferro. Na verdade, ele sempre foi o grande problema e a ironia da história. Por causa dele, o reino se desuniu e o inverno enfim chegou. Com o final da maior ameaça que a humanidade já enfrentou, estou muito ansiosa para saber como a série tratará as questões envolvendo o Trono depois das fortes alianças que foram forjadas para derrubar o Rei da Noite e que permanecerão vivas para além dele.

Evidente que sabemos que desde a quinta temporada, a série de TV começou a andar com as próprias pernas pois Martin ainda não terminou os livros. Não estou aqui para dizer que o acontece nos livros será tratado da mesma forma na série. Mas acho importante lembrar no que ela se baseia. A série partiu de um ponto x e esse ponto x tinha os livros como o lugar de partida.

Por fim, gostaria de destacar que embora sofra de ausência familiar, Daenerys não é menos forte por isso,  tão pouco menos empoderada e dona de si. Ela não abrirá mão de suas ambições e tão pouco precisa de um homem para fazê-la sentir-se segura.  O papel de Jon na vida de Daenerys vai muito além da possibilidade de esquentar os seus lençóis. A presença de Jon na vida de Daenerys e tudo o que ele representa significa dizer que ela enfim pode ter encontrado a família, o lar e o lugar que sempre procurou. Ela já andou demais, sofreu demais, meu final ideal para Daenerys é  um onde ela encontre um lugar para descansar e finalmente chamar de seu… Viva…e bem!

 

– Eu bati nele – disse Dany, com espanto na voz. Agora que o confronto terminara, parecia um estranho sonho que tivera. – Sor Jorah, pense… ele estará tão zangado quando regressar… – estremeceu. – Acordei o dragão, não acordei?

Sor Jorah resfolegou.

– É capaz de acordar os mortos, pequena? Seu irmão Rhaegar foi o último dragão e morreu no Tridente. Viserys é menos que a sombra de uma serpente.

Aquelas palavras bruscas sobressaltaram-na. Era como se tudo aquilo em que sempre acreditara fosse subitamente posto em causa.

– O senhor… lhe prestava vassalagem…

– É verdade, pequena – disse Sor Jorah. – E se seu irmão é a sombra de uma serpente, em que é que isso transforma os seus servos? – a voz dele soava amarga.

– Ele ainda é o verdadeiro rei. Ele é…

Jorah puxou as rédeas do cavalo e olhou para ela.

– Agora a verdade. Gostaria de ver Viserys sentado num trono? Dany refletiu sobre a ideia.

– Não seria um rei lá muito bom, não é?

– Já houve piores… mas não muitos – o cavaleiro esporeou o cavalo e retomou a viagem. Dany seguiu logo atrás dele.

–  Mas, mesmo  assim –  disse  –,  o  povo o  espera. Magíster  Illyrio diz que  o  povo borda estandartes do dragão e reza para que Viserys regresse através do mar estreito para libertá-lo.

– O povo reza por chuva, filhos saudáveis e um verão que nunca termine – disse-lhe Sor Jorah. – Não lhe interessa se os grandes senhores lutam suas guerras de tronos, desde que seja deixado em paz – encolheu os ombros. – E nunca é.

Dany seguiu em silêncio durante algum tempo, ordenando as palavras do companheiro como se fossem um quebra-cabeça. Pensar que o povo podia se importar tão pouco se seu soberano era um rei verdadeiro ou um usurpador ia contra tudo que Viserys lhe dissera. Mas quanto mais refletia sobre as palavras de Jorah, mais lhe soavam verdadeiras.

– E por quem reza o senhor, Sor Jorah? – perguntou.

– Pela pátria (o correto é lar) – disse ele, a voz carregada de saudade.

– Eu também rezo pela pátria (o correto é lar) – disse ela, acreditando no que dizia. Sor Jorah soltou uma gargalhada.

– Então olhe em volta, khaleesi.

Mas não foram as planícies que Dany viu então. Foi Porto Real e a grande Fortaleza Vermelha que Aegon, o Conquistador, tinha construído. Foi Pedra do Dragão, onde nascera. No olho de sua mente, esses lugares ardiam com mil luzes, um fogo em brasa em cada janela. No olho de sua mente, todas as portas eram vermelhas. (MARTIM, George R. R. A Guerra dos Tronos. Daenerys III, cap. 23. Editora Leya, 2010).

A oitava e última temporada de Game of Thrones estreia em 14 de abril.

 

Anúncios

Um pensamento sobre “[Análise] Game of Thrones: Daenerys Targaryen e a incessante procura pelo lar

  1. Pingback: [Análise] Oitava temporada de Game of Thrones: algumas previsões | No Meu Mundo

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s