[Análise] A Canção de Gelo e Fogo: A profecia de Azor Ahai e o Príncipe que foi Prometido (part II)

Aviso de Spoilers dos livros da série As crônicas de gelo e fogo

INTRODUÇÃO

Enfim chegamos em nossa segunda e última parte da série de análises sobre a profecia de Azor Ahai e do Príncipe que foi Prometido, simplesmente dois dos maiores enigmas da série de livros  de George R.R Martin, As Crônicas de Gelo e Fogo, no original A Song of Ice and Fire (A canção de gelo e fogo).

Na primeira parte (clique aqui), discuti os principais elementos referentes a profecia de Azor Ahai e conclui, com base nos livros, que Azor Ahai e o Príncipe que foi Prometido se tratam na verdade da mesma figura profética. Sendo Azor Ahai a forma com a qual a misteriosa figura aparece nos livros de Asshai e o Príncipe que foi Prometido a forma com a qual os Targaryen, uma casa de origem Valiriana, identificaram o herói que traria os dragões de volta a vida.

Apresentei também a profecia (ou sonho) dado a Jaeharys II pela Fantasma de Coração Alto, que disse a ele que o príncipe nasceria de sua linhagem, o que nos deixa com pouquíssimas possibilidades de personagens que poderiam concretizar a profecia do Príncipe que foi Prometido. Até o momento na história, apenas os seguintes personagens descendem da linhagem de Jaehaerys II: seus filhos, Aerys II e sua irmã/esposa Rhaella Targaryen; seu neto Rhaegar e seus filhos, Rhaenys e Aegon; seus netos Viserys e Daenerys Targaryen,  Tyrion Lannister (Se A+J=T), seu bisneto Jon Snow (Se R+L=J) e Rhaego. Porém, apenas Daenerys, Jon, Tyrion e supostamente Aegon, se encontram vivos atualmente na história.

Tendo tais candidatos em mente, é necessário relembrarmos quais são as principais condições para o reaparecimento de Azor Ahai no mundo:

  • O término de um longo verão;
  • Uma estrela vermelha que sangra;
  • A reunião de forças das trevas, o bafo frio da escuridão;
  • Renascimento em meio a fumaça e sal;
  • Despertar dragões de pedra;
  • Retirada das chamas de uma espada chamada Luminífera.

Apontamentos sobre o Príncipe que foi prometido:

  • É a mesma figura messiânica que Azor Ahai;
  • Nascerá da linhagem Targaryen, segundo a Fantasma de Coração Alto;
  • É um Príncipe ou uma Princesa, segundo meistre Aemon
  • Sal, fumaça e uma estrela sangrando estão relacionados ao seu renascimento;
  • O retorno dos dragões está relacionada com a sua vinda, segundo meistre Aemon;

Outras menções feitas a Azor Ahai e ao Príncipe que foi prometido ao longos dos livros:

  • Azor Ahai refará o mundo e triunfará sobre a escuridão, segundo Benerro;
  • A Canção de Gelo e Fogo, pertence ao Príncipe que foi Prometido, segundo Rhaegar Targaryen;
  • O Príncipe que foi Prometido está relacionado com “três cabeças do dragão”, segundo Rhaegar e Aemon Targaryen;
  • O herói renascerá no mar, segundo Melisandre.

A partir de então, meu objetivo será o de analisar numa primeira parte,  quais dos personagens, dentre Jon, Daenerys, Tyrion e Aegon; melhor se enquadram no que já sabemos sobre a profecia de Azor Ahai e do Príncipe que foi Prometido. Numa segunda parte, me comprometo a falar sobre outras profecias como ” o garanhão que monta o mundo”, “as três cabeças de dragão” e a “canção de gelo e fogo”, que podem estar direta ou indiretamente relacionado com a profecia do Azor Ahai.

I – OS PRINCIPAIS CANDIDATOS A CUMPRIREM A PROFECIA

Aegon/Jovem Griff

Esse personagem é com certeza algo que George Martin aparentemente desejava inserir em sua narrativa desde o inicio, mas conseguiu fazer isso apenas tardiamente, no quinto livro da série, A Dança dos Dragões. Nos POVs de Tyrion e em suas aventuras pelo rio Roine, descobrimos que Jovem Griff acredita na verdade ser o filho de Rhaegar Targaryen e Elia Martell, que até então o leitor acreditava ter sido assassinado no Saque de Porto Real depois que Rhaegar morreu no Tridente e sua família fora destrona com a morte de seu pai pelas mãos de Jaime Lannister.

Sendo filho de Rhaegar, Aegon seria a criança que na visão de Dany na Casa dos Imortais, Rhaegar acreditou ser O Príncipe que foi Prometido, chegando mesmo a confessar esta crença ao próprio meistre Aemon.

– Aegon – ele disse para uma mulher que amamentava um recém-nascido numa grande cama de madeira. – Que nome seria melhor para um rei?

– Fará uma canção para ele? – a mulher perguntou.

– Ele já tem uma canção. É o príncipe que foi prometido, e é sua a canção de gelo e fogo  – ergueu o olhar quando disse aquilo, e seus olhos encontraram os de  Dany, e pareceu que a via parada ali em pé através da porta. (MARTIN, George RR Daenerys IV. A Fúria dos Reis. São Paulo: Leya, 2011, cap. 48. Tradução de Jorge Candeias.)

Jovem Griff e Griff

– Nunca ninguém procurou uma garota,  –  dissera,  – Fora um príncipe a ser prometido, não uma princesa. Rhaegar, pensava eu… a fumaça era do incêndio que devorou Solarestival no dia de seu nascimento, o sal vinha das lágrimas derramadas por aqueles que morreram. Ele partilhou minha crença quando era novo, mas mais tarde persuadiu-se de que seria o filho a cumprir a profecia, pois um cometa foi visto no céu de Porto Real na noite em que Aegon foi concebido, e Rhaegar tinha certeza de que a estrela sangrando era um cometa.  (MARTIN, George R. R. Samwell IV. O Festim dos Corvos. São Paulo: Leya, 2012, cap. 35. Tradução de Jorge Candeias.)

Contudo, existe uma forte teoria que atribui a Aegon uma falsa identidade. Ao invés de um herdeiro Targaryen, fAegon seria na verdade um descendente Blackfyre. Os Blackfyre foram uma casa nobre descendente de um ramo da casa Targaryen, criada por um filho bastardo e depois legitimado do rei Aegon IV, o Indigno. Por anos essa casa lutou contra os Targaryen pelo direito ao Trono de Ferro, num conflito armado que ficou conhecido nos Sete Reinos como A Rebelião Blackfyre.

Falso ou não, a questão é que apesar da visão de Rhaegar, Jovem Griff ainda não demonstrou cumprir nenhum dos elementos primordiais que se ligam a profecia do Azor Ahai e do Príncipe que foi prometido, embora ele possa estar destinado a cumprir um outro papel.

Tyrion Lannister

Pensar em Tyrion como Azor Ahai só funciona se você fizer um esforço herculano e levar em consideração que Tyrion pode ser na verdade um bastardo de Aerys II com Joanna Lannister. Existe dentro da história alguns elementos que “dão folego” a essa teoria como as cores dos olhos de Tyrion, verde e preto, seus cabelos finos quase brancos diferente dos cachos dourados dos Lannister de Castely Rock e seu amor/sonhos com dragões. A teoria ganhou considerável respeito após o lançamento de O Mundo de Gelo e Fogo.

Porém, existem poucos elementos que ligam Tyrion a profecia de Azor Ahai até então. Diferentemente de Aegon/Jovem Griff, acompanhamos esse personagem desde o inicio e tirando certos paralelos com Jon e Dany (mãe morta no parto, párias dentro da sociedade, teve pessoas que amavam morrendo em seus braços, chegaram em posições de poder etc) não vimos nada ainda substancial ligando a Tyrion ao cometa vermelho que ficou no céu durante todo A Fúria dos Reis e tão pouco sabemos as circunstâncias exatas de seu nascimento.

Jon Snow

Jon com certeza é um dos grandes candidatos a cumprir a profecia de Azor Ahai, mas para isso você precisa considerar que ele é o filho escondido de Rhaegar Targaryen e Lyanna Stark. O que vejo entre muitas pessoas no fandom, é que Jon é o personagem mais cotado para cumprir esse tipo de papel. Jon é honrado, nobre, altruísta e está diretamente relacionado à luta contra os Outros por ter todo o seu arco desenvolvido aos pés da muralha de gelo. Com todas essas  qualidades atraentes de um bom menino, fica fácil atribuir a identidade de Azor Ahai a Jon, ele representa o clássico arquétipo do herói. Então, vejo muita gente por aí dizendo que Jon é Azor Ahai porque Jon é filho de Rhaegar e Rhaegar disse que seu filho era o Príncipe que foi Prometido e que era dele a Canção de Gelo (Lyanna) e Fogo (Rhaegar).

Entretanto, ainda não sabemos se Jon é mesmo filho de Rhaegar,(isso só foi mostrado na série da HBO), como ainda não sabemos se Tyrion é filho de Aerys II. E quanto a visão na Casa dos Imortais, ela se refere a Aegon, não a Jon. Se Rhaegar acreditava que as três cabeças de dragão deveriam ser seus filhos, com o pouco das evidencias que temos, Jon então deveria ser uma das cabeças e não a cabeça principal, esta seria Aegon. Vale lembrar que quando Rhaegar morreu, Aegon ainda estava vivo e seja lá o que aconteceu entre Rhaegar e Lyanna, se ele acreditava que seus filhos estavam destinados a algum tipo de compromisso mágico, ele incluía Rhaenys e Aegon e não apenas Jon. Esses detalhes que geralmente são desconsiderados nas análises dos fãs mais fervorosos desse personagem, revelam uma base textual relativamente frágil para o papel de Jon como Azor Ahai. Contudo, a  teoria de Jon como um suposto escolhido cósmico ganhou considerável folego depois de uma de suas passagens em A Dança dos Dragões.

Naquela noite, sonhou com selvagens berrando da floresta, avançando com o choro dos berrantes de guerra e o rufar de tambores. Bum BUM bum BUM bum BUM, veio o som, como mil corações em uma única batida. Alguns tinham lanças, alguns tinham arcos e alguns carregavam machados. Outros andavam em carruagens feitas de ossos, puxadas por grupos de cães tão grandes quanto pôneis. Gigantes arrastavam-se pesadamente entre eles, doze metros de altura, com marretas do tamanho de carvalhos. – Permaneçam firmes – Jon Snow exortou. – Vamos mandá-los embora. – Estava no topo da Muralha, sozinho. – Fogo – gritou –, joguem fogo neles –, mas não havia ninguém para prestar atenção.

Todos se foram. Eles me abandonaram.

Flechas incendiárias assobiaram para cima, arrastando línguas de fogo. Irmãos espantalhos caíram, seus mantos negros em chamas. Snow, uma águia gritou, enquanto inimigos escalavam o gelo como aranhas. Jon estava com uma armadura de gelo negro, mas sua lâmina queimava vermelha em seu punho. Conforme os mortos chegavam ao topo da Muralha, ele os enviava para baixo, para morrer novamente. Matou um ancião e um garoto imberbe, um gigante, um homem magro com dentes afiados, uma garota com grossos cabelos vermelhos. Tarde demais, reconheceu Ygritte. Ela se foi tão rápido quanto aparecera.

O mundo se dissolveu em uma névoa vermelha. Jon esfaqueava, fatiava e cortava. Atingiu Donal Noye e tirou as vísceras de Dick Surdo Follard. Qhorin Meia-Mão caiu de joelhos, tentando, em vão, estancar o fluxo de sangue do pescoço.

– Sou o Senhor de Winterfell – Jon gritou. Robb estava diante dele agora, o cabelo molhado com neve derretida. Garralonga cortou sua cabeça fora. (MARTIN, George R. R. Jon XII. A Dança dos Dragões. São Paulo: Leya, 2012, cap. 58. Tradução de Marcia Blasques.)

Essa passagem é com certeza muito interessante, Jon sonha que está no alto da Muralha, lutando contra os selvagens e também contra os Outros. Em seu sonho, ele usa uma armadura negra de gelo e empunha uma espada aparentemente flamejante que nos leva a crer ser a Luminífera. Porém, com exceção da armadura de gelo negro, tudo isso está completamente gravado no inconsciente de Jon: as aranhas que escalam (histórias da Velha Ama), a espada vermelha (A Luminífera de Stannis) e o conflito contra os selvagens. Jon foi um dos principais opositores dos selvagens. Ele os traiu e voltou para a Muralha para protegê-la contra eles. Mais tarde no entanto, ele entendeu que precisava dos selvagens pois os Outros eram um inimigo em comum de ambas as partes e uma ameaça maior a todos. Sem contar que quando Jon decide ajudar os selvagens para evitar um mal maior, ele de fato está sozinho em tal empreitada.

Ainda é possível captar na passagem  muitos elementos que em seu capítulo seguinte culminaram com sua morte: A Luminífera é citada na carta rosa enviada supostamente por Ramsay Bolton e confere “veracidade” a carta, é um dos elementos que faz com que Jon acredite nela. Jon  antes de morrer, também queria salvar os selvagens que estavam em Durolar para protegê-los dos caminhantes, tudo isso contra a vontade de TODOS na patrulha. Apenas ele e talvez próprios selvagens concordavam com a  missão. E ok que de certa forma Jon foi o responsável pela morte de Yngrid, mas ele não a matou diretamente e tão pouco ganhou nada com isso de forma que ela não poderia ser sua Nissa Nissa. Sem contar o fato de que Yngrid sempre foi uma espécie de lembrança para Jon de Arya e no fundo ele queria salvar a ambas.  Ele morre declarando que iria enfrentar Ramsay Bolton, mas não conta que sua maior intensão era a de salvar a  menina que ele acreditava ser Arya Stark.

Jon Snow e Fantasma enfrentam os Outros

Por fim, o mundo no sonho se dissolve numa névoa vermelha (sua morte) e então ele volta, fatiando e esfaqueando, matando os homens da Patrulha da Noite (talvez o destino da patotinha que o esfaqueou) e por fim ele corta a cabeça de Robb, quando grita que era o Senhor de Winterfell. Pra entender, é preciso dizer que isso era uma brincadeira dos irmãos: dizer que era algo ou alguém importante. Um dia Jon disse na brincadeira que era o “Senhor de Winterfell”  e  então Robb disse que não, que ele não podia sê-lo pois sua mãe havia lhe dito que Jon era um bastardo. Jon recebeu a resposta como um tapa na cara. E nunca mais se esqueceu dela. E não existe nada que ele deseje mais (talvez depois de saber quem é sua mãe), do que Winterfell. E cortar a cabeça do herdeiro de Winterfell num sonho é tipo… uau… ele a terá provavelmente.

Então pra mim, o sonho pode ser sim um sinal em direção ao cumprimento de uma profecia?Talvez. Mas por enquanto eu o vejo muito mais como uma dica do que poderemos esperar de Jon depois que ele supostamente retornar dos mortos. Um Jon mais escuro, menos altruísta, que não terá mais vergonha de dizer em voz alta o que deseja do fundo do seu coração lupino. O próprio George Martin já confessou que uma vez mortos e revividos, seus personagens perdem algo, uma parte de si mesmo.

Acredito que se você traz um personagem de volta, que se um personagem passou pela morte, essa é uma experiência transformadora. Mesmo lá atrás, na época do Wonder Man e tudo aquilo,  adorei o fato de que ele morreu, e apesar de ter gostado do personagem em anos posteriores, não fiquei muito animado quando ele voltou porque isso meio que desfez o poder da coisa. Por mais que  admire Tolkien, mais uma vez senti que Gandalf deveria ter continuado morto. Aquela foi uma sequência tão incrível na Sociedade do Anel, quando ele enfrenta o Balrog em Khazad-dûm e cai no abismo, e suas últimas palavras são “Fujam, seus tolos.”

Que poder aquilo teve, como aquilo me pegou. E então ele volta como Gandalf, o Branco, e, se ele teve alguma mudança, foi meio que para melhor. Eu nunca gostei de Gandalf, o Branco, tanto quanto de Gandalf, o Cinzento, e nunca gostei que ele tenha voltado. Acho que teria sido uma história ainda mais forte se Tolkien o tivesse deixado morto.

Meus personagens que voltam da morte estão em más condições. De certa forma, eles nem são mais os mesmos personagens. O corpo pode estar se movendo, mas algum aspecto do espírito foi modificado ou transformado, e eles perderam algo. Um dos personagens que voltou repetidamente da morte é Beric Dondarrion, o Senhor do Relâmpago. A cada vez que ele é revivido ele perde um pouco mais de si mesmo. Ele foi enviado em uma missão antes de sua primeira morte. Ele foi enviado em uma missão para fazer uma coisa, e, assim, é a isso que ele se agarra. Ele está se esquecendo de outras coisas, ele está se esquecendo de quem é, ou de onde viveu. Ele se esqueceu da mulher com quem deveria se casar. Sua carne está se soltando, mas essa única coisa, esse propósito que ele tinha é parte do que o está animando e o trazendo de volta à morte. Acho que se vê ecos disso nos outros personagens que voltaram da morte.” (SMITH,  Julia. George R. R. Martin, Author of “A Song of Ice and Fire” Series: Interview on The Sound of Young America. Bullseye with Jesse Thorn. Maximum Fun. Novembro de 2011. Tradução minha.)

O sonho parece um antes e depois de Jon Snow. Começando com seu compromisso com a Patrulha e terminando com ele matando seus companheiros e o herdeiro de Winterfell. Uma vez provada sua morte, Jon não terá mais deveres a cumprir com a Patrulha, isso significa que poderemos vê-lo finalmente deixando a Patrulha e assumindo o local de Robb em Winterfell. O último desejo de Jon era enfrentar Ramsay Bolton e recuperar a garota que ele acreditava ser Arya Stark. Esse sentimento possivelmente será algo que irá conduzir os passos de Jon Snow durante sua segunda vida.

E com certeza Jon é um dos meus personagens favoritos, mas até agora vejo que é preciso fazer um pouco de esforço para que as peças se encaixem e ele saía  dessa como Azor Ahai. Uma das teorias mais famosas, somada ao sonho descritos a cima, liga Jon a Azor Ahai através de seu esfaqueamento em A Dança dos Dragões:

Então Bowen Mash parou diante dele, lágrimas correndo pelo rosto.

– Pela Patrulha. – Acertou Jon na barriga. Quando tirou a mão, a adaga ficou onde ele a havia enterrado.

Jon caiu de joelhos. Pegou a adaga pelo cabo e arrancou. No ar frio da noite, a ferida soltava fumaças.

– Fantasma –  sussurrou. A dor tomou conta dele. Esperte neles a ponta aguçada. Quando a terceira adaga o atingiu entre as omoplatas, ele deu um grunhido e caiu com o rosto na neve. Nunca sentiu a quarta faca. Apenas o frio… (MARTIN, George RR, Jon XIII. A Dança dos Dragões. São Paulo: Leya, 2012, cap. 69. Tradução de Marcia Blasques.)

A estrela sangrando seria a estrela das vestes de sor Petreck da Montanha do Rei, morto pelo gigante Wun Wun momentos antes do assassinato de Jon. A fumaça viria de suas feridas e o sal das lágrimas de Bowen Mash  e Jon seria o próprio dragão de Pedra, pois seria um Targaryen escondido.

Tem que forçar. Ainda mais quando levamos em consideração que Sor Petreck  e sua estrela só foram inseridos na história como uma aposta de futebol que Martin fez com um velho amigo seu. Seria decepcionante se a estrela sangrando de Jon viesse de um evento assim. Nós vimos literalmente uma estrela vermelha sangrando no céu. Um evento mágico e único que repercutiu em todos os capítulos iniciais dos personagens durante  A Fúria dos Reis, mas que não exerceu nenhum papel significativo nos POVs de Jon, a não ser o apelido que ele e os homens da patrulha deram a ela: o Archote de Mormont. E segundo o próprio Rhaegar Targaryen, a estrela sangrando seria um cometa, conforme de fato vimos que foi. Vale dizer também que no trecho citado Jon está morrendo e não renascendo conforme sugere a profecia.

Existem outras teorias alternativas para Jon no entanto, de que a estrela sangrando seria a Amanhecer, a lendária espada de Sor Arthur Dayne, que segundo a história teria sido forjada a partir de uma pedra branca leitosa vinda do céu. Arthur Dayne era um dos cavaleiros da Guarda Real que estava na Torre da Alegria, em Dorne, e morreu supostamente defendendo com sua espada o local onde Jon supostamente teria nascido. Amanhecer é um grande tesouro da casa Dayne e diferente de outras espadas, ela não é herdada, mas dada somente aquele que faz por merecê-la e este fica conhecido como A Espada da Manhã. Tanto é assim que Arthur Dayne foi o último Espada da Manhã e até então  Amanhecer, que foi devolvida aos Dayne por Ned Stark, se encontra sem um dono até onde sabemos. (figura ao lado, Arthur Dayne e a espada Amanhecer)

Eu particularmente acho todas essas interpretações frágeis. As pessoas querem que Jon seja o cara que vai salvar o dia, embora a gente nem saiba se é isso mesmo que vai acontecer. Eu vejo muito potencial em Jon, ele com certeza é um personagem central para a história e será de grande valia na guerra pela Alvorada, um personagem que não pode ser subestimado e muito menos descartado. Porém preciso dizer que ele ainda não demonstrou de forma consistente e convincente NENHUMA das  condições necessárias para representar o papel de Azor Ahai. Ainda não.

No final de A Dança dos Dragões , vimos como ele foi traído e aparentemente morto pelos homens da Patrulha da Noite. Caso confirmado que ele de fato esteja morto, precisaremos saber em quais condições se dará o seu renascimento. Se houver algum tipo de segunda vida para Jon. Portanto, acho que o sonho descrito aqui,  é uma grande dica do que esperar de Jon na continuação da história. E a partir de um certo momento em A Dança dos Dragões,  toda vez que Melissandre tentava ver Stannis em suas chamas, a quem ela acredita ser Azor Ahai, ela via apenas neve, que como sabemos pode ser um sinal para Jon Snow.

Todavia, muitas das interpretações que colocam Jon como Azor Ahai e o Príncipe que foi Prometido, tem por base seu nascimento de uma suporta união entre Rhaegar (fogo) e Lyanna (gelo). Porém, bastar estar um pouco atento aos livros para perceber que Jon tem pouca intimidade com o elemento fogo. Seu arco narrativo,  conforme já mencionado, está muito mais voltado para o Norte, para Winterfell, para a Muralha e os deuses antigos dos primeiros homens. Então embora tudo seja muito incerto, é interessante pensar que ao invés de Azor Ahai, que tem uma mistica relação com o fogo, Jon esteja muito mais para uma espécie de eco do Último Herói, que tem um valor muito mais significativo e simbólico para o povo do Norte.

No Norte, falam sobre o último herói que buscou ajuda dos filhos da floresta, com seus companheiros o abandonando ou morrendo um a um enquanto enfrentavam gigantes vorazes, servos gelados e os próprios Outros. Sozinho, ele finalmente encontrou os filhos, apesar dos esforços dos caminhantes brancos, e todas as histórias comprovam que este foi um momento de virada. Graças aos filhos da floresta, os primeiros homens da Patrulha da Noite se uniram e foram capazes de lutar – e vencer – a Batalha da Aurora: a batalha final que acabou com o inverno sem fim e mandou os outros de volta ao norte congelado. MARTIN, George R. R.; GARCÍA JR.; Elio, ANTONSSON, Linda. A Longa Noite. O Mundo de Gelo e Fogo. São Paulo: Leya, 2015. Tradução de Marcia Blasques.)

Durante o Festim dos Corvos,  Samwell Tarly diz para Jon Snow  que encontrou relatos a respeito da Longa Noite que fala do Último Herói matando os Outros com uma espada de aço de dragão. Supostamente, essa é a fraqueza dos Outros. Jon se pergunta se “aço” de dragão” pode se referir a aço valiriano. Aqui uma observação: Algumas pessoas acreditam que em algum momento veremos a famosa espada Amanhecer e que Jon Snow será a pessoa responsável por empunhá-la.

O Último Herói enfrenta os Outros

O fato de Jon não cumprir satisfatoriamente a profecia de Azor Ahai/Príncipe que foi Prometido, se dá muito pela candidata a seguir que ao contrário dele, vem cumprindo cada linha da profecia, de forma orgânica, natural, cuidadosa e com uma quantidade considerável de evidências textuais desde o primeiro livro da série, A Guerra dos Tronos. Então pode entrar Mãe de Dragões.

Daenerys Targaryen

Enquanto existe controvérsias em relação a origem dos personagens anteriores, Daenerys é uma descendente indiscutível dos valirianos e da Casa Targaryen, mesmo se ela for filha de Rhaegar e não de Aerys II, conforme sugere algumas teorias, ela ainda seria uma descendente direta de Jaehaerys II.

Vamos começar então dizendo que Daenerys tem um dos sonhos com o final mais enigmático de toda a série, onde ela se ver lutando contra o que podemos entender como os Outros, mas não entende, porque diferente de Jon não faz a mínima ideia que eles existem e representam uma ameaça a todos:

Naquela noite sonhou que era Rhaegar, a caminho do Tridente. Mas ia montada num dragão, e não num cavalo. Quando viu a tropa rebelde do Usurpador do outro lado do rio, eles tinham armadura de gelo, mas ela banhou-os em fogo de dragão e eles derreteram-se como orvalho e transformaram o Tridente numa torrente. Uma pequena de si sabia que estava sonhando, mas a outra parte exultou. Era assim que estava destinado a ser. A outra maneira foi um pesadelo, e só agora acordei. (MARTIN, George RR, Daenerys III . A Tormenta de Espadas. São Paulo: Leya, 2011, cap. 27. Tradução de Jorge Candeias.)

O Tridente é um dos principais rios das Terras Fluviais e o local  onde Rhaegar morreu lutando contra Robert Baratheon, Daenerys só o conhece através das histórias contadas por Viserys. As Terras Fluviais ficam entre o Norte e o Sul de Westeros, de modo que historicamente é um lugar muito conhecido pelos incontáveis conflitos bélicos. Dado a história de guerra das Terras Fluviais e o sonho de Daenerys, talvez este seja o local do principal confronto entre Daenerys e os Outros, que em seu sonho aparecem como os rebeldes que lutaram por Robert, porém usando uma armadura de gelo.

A citação a seguir acontece durante o primeiro livro da série, A Guerra dos Tronos, quando ela fica desacordada por um tempo indeterminado, tendo sonhos febris.

– … não quer acordar o dragão…

A porta vermelha estava tão longe à sua frente, e Dany sentia a respiração gelada atrás de si, aproximando-se pesadamente. Se a apanhasse, teria uma morte que seria mais que a morte, uivando para sempre sozinha na escuridão. Pôs-se a correr.

[…]

-… quer acordar o dragão…

Fantasmas alinhavam-se ao longo do corredor, vestidos com as vestes desbotadas de reis. Nas mãos traziam espadas de fogo pálido. Tinham cabelos de prata, cabelos de ouro e cabelos brancos de platina, e seus olhos eram de opala e ametista, de turmalina e jade. “Mais depressa”, gritaram, “mais depressa, mais depressa”. Ela correu, com os pés derretendo a pedra onde a tocavam. “Mais depressa” gritavam os fantasmas como se fossem um só, e ela gritou e atirou-se em frente. Uma grande faca de dor rasgou-lhe as costas, e sentiu a pele abrir-se, cheirou fedor de sangue ardendo e viu a sombra de asas. E Daenerys Targaryen levantou voo. (MARTIN, George R. R. Daenerys IX. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010, cap. 68. Tradução de Jorge Candeias.)

A interpretação mais tradicional desta passagem é que os fantasmas são os antigos reis Targaryens que a incentivam a correr para que ela desperte os dragões que a casa tanto tentou trazer de volta. Porém algumas pessoas discordam, pois os reis Targaryens são frequentemente descritos com vestes luxuosas, diferente das vestes desbotadas, que dá uma sensação de envelhecidas, que os fantasmas estão usando. Além de tudo, eles usam uma espada de fogo pálido.  Por conta disso, alguns leitores mais atentos observam que a passagem não diz respeito aos reis Targaryens  em si (embora também poderia ser já que a Casa aparentemente conhecia a profecia e sabia que ela estava relacionada ao retorno dos dragões) ou mesmo dos antepassados valirianos de Dany, pois Valíria era uma república, mas sim a antigas reencarnações de Azor Ahai, que incentivam Dany a correr enquanto ela foge do que vem atrás… a respiração gelada que a levaria a morte. Na sequencia da passagem, Daenerys alcança a porta vermelha que para a personagem é uma lembrança feliz de sua infância. A única. Dentro da porta, ela encontra seu irmão, Rhaegar, e quando levanta seu elmo descobre que era ela mesma. Nas duas passagens envolvendo os sonhos de Daenerys citados aqui, ela sonha que é seu irmão, o que claramente é um assunto para outro dia.

Não obstante, o mais incrível dessa personagem é que ela literalmente cumpre de forma satisfatória a profecia de Azor Ahai, muito antes do leitor saber que havia uma profecia de um herói lendário para ser cumprida. É em seu último POV, em A Guerra dos Tronos, que pela primeira vez vemos a estrela sangrando e ela ficou no céu durante todo o livro seguinte. E depois de ver a estrela em A Guerra dos Tronos, Daenerys literalmente desperta dragões de pedra, que eram os ovos de dragão que Illyrio Magíster havia lhe dado de presente de casamento.

Magíster Illyrio murmurou uma ordem e quatro corpulentos escravos apressaram-se a avançar, trazendo entre eles uma grande arca de cedro com aplicações em bronze. Quando a abriu, encontrou pilhas dos mais finos veludos e damascos que as Cidades Livres podiam produzir… e, em cima de tudo, aninhados nos suaves panos, três enormes ovos. Dany ofegou. Eram as coisas mais belas que já vira, diferentes uns dos outros, com padrões de cores tão ricas que ela a princípio pensou que estivessem incrustados de joias, e tão grandes que precisava de ambas as mãos para pegar num. Ergueu um ovo delicadamente, à espera de encontrá-lo feito de algum tipo de fina porcelana ou delicado esmalte, ou até de vidro soprado, mas era muito mais pesado do que julgara, como se todo ele fosse rocha sólida. A superfície da casca estava coberta de minúsculas escamas, e quando rodou o ovo entre os dedos elas cintilaram como metal polido à luz do sol poente. Um ovo era de um verde profundo, com manchas de lustroso bronze que iam e vinham, dependendo do modo como Dany o virava. Outro era creme-claro listrado de dourado. O último era negro, tão negro como o mar da meia-noite, mas vivo, com ondulações e remoinhos escarlates.– O que são? – perguntou, com a voz baixa e maravilhada.

– Ovos de dragão, vindos das Terras das Sombras para lá de Asshai – disse Magíster Illyrio. – As eras os transformaram em pedra, mas ainda possuem uma beleza ardente e brilhante.” (MARTIN, George R. R. Daenerys II. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010, cap. 11. Tradução de Jorge Candeias.)

Jhogo a viu primeiro.

– Ali – disse ele numa voz abafada. Dany olhou e a viu, baixa, no leste. A primeira estrela era um cometa que ardia, vermelho. Vermelho de sangue; vermelho de fogo; a cauda do dragão. Não poderia ter pedido um sinal mais forte. (MARTIN, George R. R. Daenerys X. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010, cap. 72. Tradução de Jorge Candeias.)

O cometa está diretamente relacionado ao retorno dos dragões e ao lema da Casa Targaryen (Fogo e Sangue), segundo alguns personagens:

– Mas… E a coisa no céu? Dalla e Matrice estavam conversando perto do poço, e Dalla disse que ouviu a mulher vermelha dizer à mãe que aquilo é respiração de dragão. Se os dragões estão respirando, não quer dizer que estão ganhando vida?

A mulher vermelha, pensou amargamente Meistre Cressen. Já é ruim o bastante que tenha enchido a cabeça da mãe com as suas loucuras, terá de envenenar também os sonhos da filha? Teria uma conversa severa com Dalla, para que não ficasse espalhando essas histórias.

– A coisa no céu é um cometa, minha doce menina. Uma estrela com uma cauda, perdida nos céus. Desaparecerá em breve, para não voltar a ser vista enquanto estivermos vivos. Espere e verá. (MARTIN, George R. R. A Fúria dos Reis. São Paulo: Leya, 2011, prólogo.)

O cometa visto de Pedra do Dragão

– Os lobos uivam frequentemente à lua. Esses estão uivando para o cometa. Vê como é brilhante Bran?Talvez pensem que é a lua.

Quando Bran repetiu esta ideia a Osha, ela riu com gosto.

– Seus lobos têm mais juízo do que seu meistre – tinha dito a selvagem – Conhecem verdades que o homem cinzento esqueceu –  a maneira como ela dissera aquilo tinha feito Bran estremecer e, quando perguntou o que significava o cometa, ela respondeu: – Sangue e fogo, rapaz e nada de bom.

Bran tinha perguntado ao Septão Cheyle, sobre o cometa, enquanto organizava alguns rolos salvos do incêndio da biblioteca:

É a espada que mata a estação – o septão respondera, e pouco depois chegava o corvo branco de Vilavelha, trazendo a notícia do Outono, portanto ele tinha razão.

Mas a Velha Ama achava que não, e ela vivera mais tempo do que qualquer um dos outros.

Dragões – ela disse, erguendo a cabeça e fungando. Estava quase cega e não conseguia ver o cometa, mas se dizia capaz de cheirá-lo. – São dragões, menino. (MARTIN, George RR, Bran. A Fúria dos Reis. São Paulo: Leya, 2011, cap. 4. Tradução de Jorge Candeias)

– Nas ruas é chamado de Mensageiro Vermelho – Varys continuou – Dizem que chegou como um arauto perante um rei, a fim de prevenir do sangue e fogo que estão por vir. (MARTIN, George RR, Tyrion I. A Fúria dos Reis. São Paulo: Leya, 2011, cap. 3. Tradução de Jorge Candeias.)

– Aquilo ali não é carmesim – Sor Bryden respondeu. – Nem vermelho Tully, o vermelho lamacento do rio. Aquilo ali em cima é sangue, filha, espalhado pelo céu. (MARTIN, George RR, Catelyn I. A Fúria dos Reis. São Paulo: Leya, 2011, cap. 7. Tradução de Jorge Candeias.Catelyn)

Os dothrakis chamaram o cometa de shierak qiya, a Estrela que Sangra. Os velhos resmungavam que era um prenúncio do mal, mas Daenerys Targaryen vira-o pela primeira vez na noite em que cremara Khal Drogo, quando então seus dragões despertaram. É o arauto da minha chegada, dizia a si mesma enquanto fixava os olhos no céu da noite com o coração maravilhado. Os deuses enviaram-no para me indicar o caminho. (MARTIN, George RR Daenerys I A Fúria dos Reis. São Paulo: Leya, 2011, cap. 12. Tradução de Jorge Candeias)

Dany acaba seguindo o cometa através do deserto vermelho e seu destino a levou a esplendida cidade de Qarth, onde ela viveu sua experiencia única na Casa dos Imortais e conheceu a misteriosa Quaithe, a umbromante de máscara lascada que age como uma espécie de guia de Daenerys, sempre com alertas e profecias misteriosas para ela.

Cidade de Qarth vista por Daenerys

– O cometa trouxe-me a Qarth por um motivo. Tive esperança de encontrar aqui o meu exército, mas parece que não será assim. Pergunto a mim mesma o que resta –  tenho medo, compreendeu, mas devo ser corajosa. – Quando chegar a manhã, iremos encontrar Pyat Pree. (MARTIN, George RR Daenerys II. A Fúria dos Reis. São Paulo: Leya, 2011, cap. 23. Tradução de Jorge Candeias)

[…] – Escute-me, Daenerys Targaryen. As velas nos vidros estão queimando. Logo virá a égua descorada e depois dela, os outros. A lula gigante e a chama escura, o leão e o grifo, o filho do sol e o dragão de pantomimeiro. Não acredite em nenhum deles. Lembre-se dos Imortais. Cuidado com o senescal perfumado.

– Reznak?Por que eu deveria temê-lo? –  Dany se levantou da piscina. A água escorria por suas pernas e os braços estavam arrepiados no ar frio da noite. – Se tem algum aviso para me dar, fale claramente. O que você quer de mim, Quaithe?

Quaithe

– Mostrar-lhe o caminho.

– Eu lembro o caminho. Vou para o norte para ir ao sul, leste para ir para ao oeste, para trás para seguir adiante. E para tocar a luz, tenho de passar sob a sombra. – Ela espremeu a água do cabelo prateado. – Estou meio enjoada dos enigmas. Em Qarth eu era uma pedinte, mas aqui sou a rainha. Eu ordeno…

Daenerys. Lembre-se dos Imortais. Lembre-se de quem você é. ( MARTIN, George RR, Daenerys II. A Dança dos dragões. São Paulo: Leya, 2011,  cap. 11. Tradução de Marcia Blasques)

Daenerys ainda nasceu em Pedra do Dragão, a ilha vulcânica na qual Melisandre acredita ser o local de fumaça e sal e por isso acredita que Staanis é o escolhido. Porém quem nasceu em Pedra do Dragão foi Dany e não Stannis. Dany nasceu durante uma das tempestades mais violentas que Westeros já conheceu e antes de se tornar uma rainha, ela carregava o título de Princesa de Pedra do Dragão, um título que era dado entre os Targaryens que eram herdeiros do Trono de Ferro. E Dany era herdeira de Viserys.

Dentro da mansão, o ar estava pesado com cheiro de especiarias, noz-de-fogo, limão doce e canela. Foram levados através do átrio, onde um mosaico de vidro colorido retratava a destruição de Valíria. Óleo ardia em lanternas negras de ferro dispostas ao longo das paredes. Sob uma arcada composta por folhas de pedra interligadas, um eunuco anunciou a chegada:

– Viserys da Casa Targaryen, o Terceiro de seu Nome – gritou uma voz doce e aguda – , Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Rei dos Sete Reinos e Protetor do Território. Sua irmã, Daenerys, Filha da Tormenta, Princesa de Pedra do Dragão. Seu honorável anfitrião, Illyrio Mopatis, Magíster da Cidade Livre de Pentos. (MARTIN, George R. R. Daenerys I. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010, cap. 3. Tradução de Jorge Candeias)

Seu renascimento ocorre em meio ao Mar Dothraki, onde ela dá a luz a Rhaego e passa dias desacordada tendo sonhos febris, acordando três vezes,cada vez mais forte e segura. Por fim ela ascende a pira de Drogo e os dragões de pedra ganham vida. O Mar Dothraki é um imenso mar de grama, chamado assim devido ao movimento que a alta grama faz conforme o vento a toca. Neste caso, o mar seria entendido de forma metafórica, como foi de certa forma a “morte” de Daenerys durante os sonhos febris depois que ela teve Rhaego e sua entrada nas chamas para chocar os ovos de dragões. Ainda há o fato da fumaça da fogueira e as lágrimas dos dothrakis que assistiam desesperados a sua entrada nas chamas, se você preferir. Contudo, quando sai das chamas com os dragões, Daenerys literalmente renasce na história como a Mãe de Dragões.

A pira de Khal Drogo

Seu renascimento se dá ao final de um longo verão, o mais longo já registrado  e curiosamente ficamos a par disso no prologo de A Fúria dos Reis, onde pela primeira vez conhecemos Pedra do Dragão.

– a mãe diz que o corvo branco quer dizer que já não é verão.

– É verdade, senhora. Os corvos brancos só voam da Cidadela.

[…]

– São maiores do que os outros corvos, mais inteligentes, e criados apenas para transportar as mensagens mais importantes. Este veio nos dizer que o Conclave se reuniu, avaliou os relatórios e as medições feitas pelos meistres de todo o reino e declarou que este longo verão finalmente terminou. Durou dez anos, duas rotações e dezesseis dias, o mais longo verão já registrado. (A Fúria dos Reis, Prólogo)

A lenda da Luminífera contada pelo corsário  Salladhor Saan implica sacrifício humano através da figura de Nissa Nissa:

– [..] Conhece a lenda sobre a forja de Luminífera?Vou contá-la. Era um tempo em que a escuridão caíra pesada sobre o mundo. Para enfrentá-la, o herói tinha de ter uma lâmina de herói, ah, como nenhuma que já tivesse existido. E assim, durante trinta dias e trinta noites, Azor Ahai trabalhou sem dormir no templo, forjando uma lâmina nas fogueiras sagradas. Aquecer, martelar e dobrar, aquecer, martelar e dobrar, ah sim, até a espada ficar pronta. Mas quando a mergulhou na água para temperar o aço, ela se partiu em pedaços. Como era um herói, não era de seu feitio desistir e ir atrás de excelentes uvas como estas, por isso recomeçou. Da segunda vez, levou cinquenta dias e cinquenta noites, e essa espada parecia ainda melhor do que a primeira. Azor Ahai capturou um leão, para temperar a lâmina mergulhando-a no coração vermelho da fera. Mas mais uma vez o aço se estilhaçou e se dividiu. Grande foi sua aflição e grande foi seu desgosto, pois sabia o que tinha que fazer. Trabalhou na terceira lâmina durante cem dias e cem noites e, enquanto ela brilhava, incandescente, nas fogueiras sagradas, chamou a mulher. “Nissa Nissa”, disse-lhe, pois era esse o seu nome, “Desnude o peito, e fique sabendo que a amo mais do que a qualquer outra coisa no mundo”. Ela obedeceu, não faço ideia do porquê, e Azor Ahai enfiou a espada fumegante no seu coração vivo. Diz-se que o grito de angústia e êxtase que ela soltou abriu uma fenda na lua, mas seu sangue, sua alma, sua força e sua vontade penetraram no aço. Esta é a lenda sobre a forja da Luminífera, a Espada Vermelha dos Heróis. (MARTIN, George R. R. Davos I. A Fúria dos Reis.. São Paulo: Leya, 2010, cap. 10. Tradução de Jorge Candeias)

De certa forma, Daenerys sacrifica três vidas para chocar os seus ovos de dragões. Ela acredita que os dragões nasceram da vida de Drogo (que ela matou diretamente numa clara menção a Nissa Nissa), Rhaego e a maegi, Mirri Marz Duur. Mas eu gosto de pensar que esse terceiro sacrifício veio de Viserys, seu irmão, já que ela poderia ter mais uma vez  implorado pela vida dele, porém permitiu que Khal Drogo o matasse. Curiosamente, os nomes dos próprios dragões remetem as três vidas que foram usadas para trazê-los de volta: Drogon, Rhaegal e Viserion. Até mesmo suas personalidades coincidem com os sacrifícios: Drogon é o mais perigoso dos dragões, seguido por Rhaegal e por Viserion, que dos três é o mais bonito e elegante e foi o primeiro ovo a chocar, como Viserys foi a primeira morte de Daenerys. Melisandre acredita que a magia de sangue se torna mais poderosa com o uso de sangue real e é exatamente isso que eu acredito que aconteceu. Viserys, Drogo e Rhaego tinham todos sangue real, Mirri Marz Duur aparentemente não. Fora que todos os três tinham um alto valor sentimental para Dany, como a Nissa Nissa de Azor Ahai. E só a morte pode pagar pela vida.

A parte do conto de Salladhor Saan , onde o grito de Nissa Nissa abriu uma fenda na lua, remete a um outro conto, contado por Doreah sobre o nascimento dos dragões onde segundo Doreah, os dragões teriam vindo da lua.

Molhados cabelos prateados caíram-lhe diante dos olhos quando Dany virou a cabeça, curiosa.

-Da Lua?

-Ele me disse que a Lua era um ovo Khaleesi – respondeu a jovem lynesa – Antes havia duas luas no céu, mas uma delas se aproximou demais do Sol e rachou com o calor. Mil milhares de dragões jorraram de dentro dela e beberam o fogo do Sol. É por isso que os dragões exalam chamas. Um dia essa Lua também beijará o Sol, e então rachará e os dragões regressarão. (MARTIN, George R. R. Daenerys IV. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010, cap. 36. Tradução de Jorge Candeias).

Simbolicamente, Daenerys está relacionada a Lua. Drogo a chamava de “Lua da minha vida” e ela o chamava de “meu-sol-e-estrelas”. Daenerys é a segunda lua, que se aproximou demais do Sol (Drogo) e rachou para trazer os dragões de volta ao mundo. Durante o nascimento dos dragões, Dany descreve sons de rochas se rachando e enchendo o mundo como algo muito grande se partindo, mas que só ela podia escutar.

Ouviu um crac, o som de pedra que se quebra. A plataforma de árvores, arbustos e mato começou a deslocar-se e a colapsar sobre si mesma. Pedaços de madeira ardendo deslizaram até junto dela, e Dany foi salpicada por cinzas e fagulhas. E algo mais caiu, saltando e rolando, parando a seus pés, um pedaço de rocha curva, de cor clara e com veios de ouro, quebrada e fumegante. O rugido enchia o mundo, mas de um modo tênue, Dany ouviu através da catarata de fogo gritos das mulheres e choros de crianças, incrédulas.

Só a morte pode pagar pela vida.

E então ouviu um segundo crac, tão sonoro e cortante como um trovão, e a fumaça agitou-se e rodopiou em torno dela e a pira oscilou, com toras explodindo quando o fogo atingiu os seus corações secretos. Ouviu os gritos dos cavalos assustados e as vozes dos dothrakis e gritos de medo e terror, e Sor Jorah chamando por seu nome e praguejando. Não, quis gritar, não, meu bom cavaleiro, não tema por mim. O fogo é meu. Sou Daenerys, nascida da Tempestade, filha de dragões, noiva de dragões, mãe de dragões, não vê?Não VÊ?Com um vômito de chamas e fumaça que subiu nove metros de altura, a pira ruiu e caiu à sua volta. Sem medo, Dany deu um passo para a tempestade de fogo, chamando por seus filhos.

O terceiro crac foi tão sonoro e cortante como se o mundo se rasgasse. (MARTIN, George R. R. Daenerys X. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010, cap. 72. Tradução de Jorge Candeias)

Curiosamente, Doreah e Salladhor Saan são ambos lysenos, e a cidade livre de Lys é conhecida por seus escravos treinados nas artes dos sete suspiros (sexuais) e por ser um dos poucos lugares no mundo onde existe uma grande quantidade de pessoas com ascendência valiriana. Como colônia de Valíria, Lys era uma espécie de Caribe do Planetos, um local para onde os valirianos se refugiavam quando queriam relaxar e se divertir com os sete suspiros, o que explica a ampla ascendência valiriana do local. Essa observação é importante pois uma vez que a profecia do Azor Ahai é conhecida há 5.000 anos, existem indícios no Mundo de Gelo e Fogo, que os valirianos a conheciam e os valirianos são notavelmente lembrados por seu envolvimento com feitiçarias, de forma que tanto o conto de Salladhor quanto o conto de Doreah podem ter se espalhados a partir de Valíria antes da Perdição.

O nascimento dos dragões

Os dragões são comparados com uma espada flamejante:

Quando fui ao Salão dos Mil Tronos e implorei por sua vida, disse que você não era mais que uma criança – continuou Xaros- , mas Egon Emeros, o Requintado, levantou-se e disse: “Ela é uma criança tola, louca, imprudente e muito perigosa para viver”. Quando seus dragões eram pequenos, eram uma maravilha. Crescidos, são morte e devastação, uma espada flamejante sobre o mundo. – Ele limpou as lágrimas. – Eu devia ter matado você em Qarth. (MARTIN, George R. R. Daenerys III. A Dança dos Dragões. São Paulo: Leya, 2010, cap. 16. Tradução de Marcia Blasques)

Caso Daenerys seja de fato Azor Ahai renascido, sua espada seria Drogon, o dragão que ela monta e provavelmente nascido da vida de Khal Drogo, sua Nissa Nissa.

[..] – Eu olhei o livro que meistre Aemon me deixou. O Compêndio de Jade. As páginas que falam de Azor Ahai. Luminífera era a espada dele. Temperada com o sangue de sua esposa, se é possível acreditar em Votar. Depois disso, Luminífera nunca foi fria ao toque, mas quente como Nissa Nissa havia sido quente. Em batalha, a lâmina queimava ardente em fogo. Uma vez Azor Ahai lutou com um monstro. Quando enfiou a espada pela barriga da criatura, o sangue do monstro começou a ferver. Fumaça e vapor saíram de sua boca, os olhos derreteram e escorreram pela sua face, e seu corpo explodiu em chamas. (MARTIN, George R. R. Jon III. A Dança dos Dragões. São Paulo: Leya, 2010, cap. 10. Tradução de Marcia Blasques)

O dragão negro abriu as asas e rugiu.

Uma lança de turbilhonantes chamas escuras atingiu em cheio o rosto de Kraznys. Seus olhos derreteram e escorreram pelas maçãs de seu rosto, e o óleo que tinha nos cabelos e barba incendiou-se com tanta violência que, por um instante, o senhor de escravos usou uma coroa flamejante duas vezes mais alta do que sua cabeça. O súbito fedor de carne carbonizada conseguiu sobrepor-se até mesmo ao seu perfume, e seu grito de dor pareceu afogar todos os outros sons. (MARTIN, George RR, Daenerys III . A Tormenta de Espadas. São Paulo: Leya, 2011, cap. 27. Tradução de Jorge Candeias.)

Kraznys era um mestre de escravos e a pessoa de quem Daenerys passou a perna para conseguir os Imaculados. Da perspectiva dela, ele era com certeza um monstro. E seus olhos derreteram como os olhos do monstro que Azor Ahai teria derrotado segundo o Compêndio de Jade, de Colloquo Votar.

Um dos argumentos mais usados contra Daenerys ser Azor Ahai é o fato dela não saber lutar com uma espada, o que é uma visão bastante rasa de toda a história escrita por George Martin, famoso por frustrar as nossas expectativas com coisas que não esperamos. A ideia de que Azor Ahai precisa ser um guerreiro no seu sentido clássico, pode bem ser uma artimanha do autor para conduzir o leitor e os próprios personagens a falsas conclusões. Rhaegar Targaryen por exemplo, que parece tão misteriosamente envolvido com a profecia do Príncipe que foi Prometido, acreditava que precisava ser um guerreiro, ainda que preferisse sua harpa ao som das espadas segundo Sor Barristan Selmy.

– Quando criança, o Príncipe de Pedra do Dragão era extraordinariamente dado á leitura. Começou a ler tão cedo que os homens diziam que a Rainha Rhaella devia ter engolido alguns livros e uma vela enquanto ele estava em seu ventre. Rhaegar não tinha nenhum interesse pelas brincadeiras das outras crianças. Os meistres ficavam assombrados com sua inteligência, mas os cavaleiros do pai trocavam gracejos amargos sobre Baelor, o Abençoado, ter renascido. Até que um dia o Príncipe Rhaegar encontrou algo em seus pergaminhos que o mudou. Ninguém sabe o que pode ter sido, só se sabe que o garoto apareceu no pátio uma manhã, no momento em que os cavaleiros vestiam as armaduras. Foi direto a Sor Willem Darry, o mestre de armas, e disse: “Vou precisar de espada e armadura. Parece que tenho que ser um guerreiro.” (MARTIN, George R. R. Daenerys I. A Tormenta de Espadas. São Paulo: Leya, 2011, cap. 8. Tradução de Jorge Candeias)

Mas meistre Aemon e supostamente Rhaegar, acreditavam por um erro de tradução, que o escolhido era um príncipe e não uma princesa. E a verdade, é que Daenerys não precisa pegar numa espada em seu sentido literal, assim como o local de sal e fumaça e a estrela sangrando não são na história interpretados em seu sentido estrito. A estrela sangrando na verdade era um cometa conforme demonstrado.

O guerreiro do ponto de vista de um westerosi, está muito relacionado ao sentido de coragem e ousadia e segundo alguns membros da Fé dos Sete, religião predominante ao sul de Westeros, o Guerreiro e a Mãe são dois lados da mesma moeda. Sabemos que Daenerys está altamente relacionada a figura da Mãe. Ela é a Mysa e também a Mãe de dragões.

No septo cantam pela misericórdia da Mãe, mas nas muralhas, é ao Guerreiro que oram, e todos em silêncio. Lembrou-se de como Septã Mordane costumava dizer-lhe que o Guerreiro e a Mãe eram apenas duas faces do mesmo grande deus. Mas se há apenas um, qual das duas preces será ouvida? (MARTIN, George R. R. Sansa V. A Fúria dos Reis. São Paulo: Leya, 2010, cap. 55. Tradução de Jorge Candeias)

E apesar das muitas façanhas de guerreiros notáveis como Jaime Lannister e Robert Baratheon, nenhum deles foi capaz de comer um coração de cavalo ensanguentado, entrar numa fogueira ou ainda domar um dragão furioso com nada menos do que um chicote nas mãos.

Nos fossos vermelhos fumegantes dos olhos de Drogon, Dany viu seu próprio reflexo. Como ela parecia pequena, fraca frágil e assustada. Não posso deixá-lo ver meu medo. Tateou pela areia, empurrando o cadáver do mestre da arena, e seus dedos roçaram no cabo do chicote. Tocá-lo a fez sentir-se corajosa. O couro estava morno, vivo. Drogon rugiu novamente, o som tão alto que ela quase derrubou o chicote. Os dentes estalaram junto dela.

Dany bateu nele,

– Não –  gritou, agitando o chicote com toda a força que tinha. O dragão lançou a cabeça para trás. – Não – ela gritou novamente. – NÃO!- As farpas arranharam o focinho do animal. Drogon se ergueu, suas asas cobrindo-a com sombras. Dany bateu com o chicote na barriga dele, uma vez após a outra, até que seu braço começou a doer. O longo pescoço de serpente do dragão parecia um arco. Com um shiiiiiiiiissssss, cuspiu fogo negro sobre ela. Dany correu embaixo das chamas, agitando o chicote e gritando – Não, não, não. Para BAIXO! – Seu rugido de resposta estava cheio de medo e fúria, cheio de dor. Suas asas bateram uma vez, duas…

… e se fecharam. O dragão deu um último silvo e deitou-se sobre a barriga. Sangue negro fluía da ferida feita pela lança, soltando fumaça onde pingava nas areias queimadas. Ele é fogo feito carne, ela pensou, e eu também. (MARTIN, George R. R. Daenerys IX. A Dança dos Dragões. São Paulo: Leya, 2010, cap. 52. Tradução de Marcia Blasques)

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Fire Made Flash, por Jake Murray. © Fantasy Flight Games

Quando acordou pela terceira vez, um dardo de luz dourada do sol jorrava pelo buraco de fumaça da tenda, e tinha os braços enrolados em volta de um ovo de dragão. Era o mais claro, com escamas da cor de creme de manteia, com veios e volutas de ouro e bronze, e Dany conseguia sentir seu calor. Sob as sedas de dormir, uma fina película de transpiração cobria-lhe a pele nua. Orvalho de dragão, pensou. Passou levemente os dedos sobre a superfície da casca, seguindo as volutas de ouro, e na profundidade da rocha sentiu que algo se torcia e esticava em resposta. Não se assustou. Todo o seu medo tinha desaparecido, ardera. (MARTIN, George R. R. Daenerys IX. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010, cap. 68. Tradução de Jorge Candeias)

Fora que, uma das coisas que faz As Crônicas de Gelo e Fogo, serem algo único dentro da literatura fantástica, é sua quebra constante de tropos e arquétipos. O herói profetizado sendo uma mulher, é uma quebra de paradigma tanto para os próprios personagens dentro da história,  imersos num mundo completamente machista e misógino onde as mulheres pouco são levadas em consideração, quanto uma quebra de padrão dentro da própria ficção, inundada de escolhidos masculinos dotados de habilidades bélicas consideráveis e nascidos para salvar o dia.

 Só os fortes irão entender!

Além de ser mulher, Dany nunca abriu mão de sua feminilidade e realmente não sabe manejar uma espada de ferro, algo que poderíamos esperar de um herói mais clichê. Soma-se a isso o fato de Daenerys não ter a mínima ideia sobre a profecia e a longa noite, além de seu problema particular com profecias e feitiçarias:

– Somos um povo antigo. Ancestrais são importantes para nós. Case-se com Hizdahr zo Loraq e tenha um filho dele, um filho cujo pai é a harpia e cuja mãe é o dragão. Nele, as profecias serão cumpridas, e seus inimigos derreterão como neve.

Ele será o garanhão que vai montar o mundo. Dany conhecia profecias. São feitas de palavras, e palavras são vento. Não haveria um filho para Loraq, nenhum herdeiro para unir dragão e harpia. Quando o sol nascer no oeste e se puser no leste, quando os mares secarem e as montanhas forem levadas pelo vento como folhas. Somente então o ventre dela despertaria uma vez mais…

(MARTIN, George R. R. Daenerys IV. A Dança dos Dragões. São Paulo: Leya, 2012, cap. 23. Tradução de Marcia Blasques.)

Tendo em vista a sua amarga experiencia com  profecias, é provável que inicialmente Daenerys mesmo rejeite o papel de salvadora, se concentrando em coisas menos altruístas como sua luta pelo Trono de Ferro. E ao contrário de Jon, até o momento de sua morte um exemplo de honra, nobreza e altruísmo,  Daenerys é uma personagem muito mais controversa e que pode estar prestes a queimar metade de Essos para atingir seus objetivos e para proteger aquilo que ela entende que é o certo, custe o que custar, doa em que doer.

E para o bem ou para mal, ela vem causando grande destruição por onde passa, trazendo transformações drásticas e refazendo o mundo conforme acredita Benerro, o Alto sacerdote do templo vermelho do Senhor da Luz, em Volantis. Sua luta contra a escravidão vem exercendo impactos profundos em Essos e lentamente repercute em Westeros. Você pode até pensar: se ela é tão destrutiva, então vai dá ruim no final. Depende. Toda mudança nasce de uma drástica transformação. Quando na Revolução Francesa a monarquia caiu guilhotinada pelo seu próprio povo, muitos contemporâneos  acreditavam que aquilo era o fim dos tempos, o mesmo vale para o fim da experiencia romana no Ocidente. Desfazer e refazer uma dada experiencia requer um alto custo a curto prazo. É um processo doloroso e amargo. É no longo prazo que colhemos os frutos maduros.

Por fim e acho que o mais importante, é o reconhecimento de meistre Aemon de que ele esteve errado todo esse tempo, seeu reconhecimento no leito de morte de que Dany é a escolhida e que seus dragões provam isso. Meistre Aemon é o tipo de personagem que Martin se esforça ao máximo para torná-lo a pessoa mais sábia dos Sete Reinos e de fato ele era. Ele passou toda a vida acreditando numa interpretação errada e só percebe isso em seu leito de morte. Será que este homem descrito como tão sábio está errando mais uma vez?

“Nunca ninguém procurou uma garota”, dissera, “Fora um príncipe a ser prometido, não uma princesa. Rhaegar, pensava eu… a fumaça era do incêndio que devorou Solarestival no dia de seu nascimento, o sal vinha das lágrimas derramadas por aqueles que morreram. Ele partilhou minha crença quando era novo, mas mais tarde persuadiu-se de que seria o filho a cumprir a profecia, pois um cometa foi visto no céu de Porto Real na noite em que Aegon foi concebido, e Rhaegar tinha certeza de que a estrela sangrando era um cometa. Que tolos fomos por nos julgarmos tão sábios! O erro teve origem na tradução. Os dragões não são nem machos nem fêmeas, Barth viu aí a verdade, mas ora uma coisa, ora outra, tão mutáveis como chamas. A língua nos induziu em erro durante mil anos. A escolhida é Daenerys, nascida entre sal e fumaça. Os dragões assim nos provam.” (MARTIN, George R. R. Samwell IV. O Festim dos Corvos. São Paulo: Leya, 2012, cap. 35. Tradução de Jorge Candeias.)

-Terá de ser você. Conte-os. A profecia…  A senhora Melisandre leu mal os sinais. Stannis …  Stannis tem um pouco de sangue de dragão, é verdade. Os irmãos também tinham. Rhaelle, uma filhinha do Ovo, foi através dela que arranjou… Uma mãe do pai deles… Costumava chamar-me Tio Meistre quando era pequena. Lembrei-me disso, por isso me permitir ter esperança… talvez quisesse… Acima de todos Melisandre, creio eu. A espada é uma falha, ela precisa saber disso … Luz sem calor … Um brilho vazio … A espada é a errada, e a luz falsa pode nos levar para uma escuridão mais profunda …. (MARTIN, George RR Samwell IV). Festim dos Corvos. São Paulo: Leya, 2012, cap. 35. Tradução de Jorge Candeias.)

Atualmente na história, poderosos feiticeiros se encontram a caminho de Daenerys. Benerro enviou Moqorro e na Cidadela Sam contou a história de meistre Aemon para o arquimestre Marwyn que ao ouvir sobre a profecia e as preocupações de Aemon colocou-se imediatamente a caminho de Meereen, atrás daquela que meistre Aemon acreditava ser Azor Ahai/Príncipe que foi Prometido.

II – O GARANHÃO QUE MONTA O MUNDO, AS TRÊS CABEÇAS DE DRAGÃO E A CANÇÃO DE GELO E FOGO

As Três Cabeças do Dragão, A Canção de Gelo e Fogo e em menor escala, porém não menos importante, o Garanhão que monta o mundo, são três dos mistérios que mais fundem a cabeça dos fãs nos fóruns e podem estar relacionados a profecia de Azor Ahai e do Príncipe que foi prometido.

O Garanhão que Monta o Mundo

Aparentemente, essa é uma profecia que parece isolada e esquecida dentro da história. A conhecemos pela primeira vez em A Guerra dos Tronos, quando ela é profetizada para Rhaego, o filho de Daenerys e Khal Drogo.

– Que significa isso? –  ela perguntou.  – O que é esse garanhão?Todo mundo estava gritando isso, mas eu não compreendo.

O garanhão é o Khal dos Khals prometido numa antiga profecia, menina. Ele vai unir os dothrakis num único Khalasar e cavalgar até o fim do mundo, ou pelo menos, é essa a promessa. Todos serão sua manada. (MARTIN, George R. R. Daenerys V. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010, cap. 46. Tradução de Jorge Candeias)

Contudo, Rhaego foi morto ainda na barriga de Daenerys pela maegi Mirri Maz Duur e até então a própria Daenerys acredita que a profecia fora uma grande bobagem.

– Somos um povo antigo. Ancestrais são importantes para nós. Case-se com Hizdahr zo Loraq e tenha um filho dele, um filho cujo pai é a harpia e cuja mãe é o dragão. Nele, as profecias serão cumpridas, e seus inimigos derreterão como neve.

Ele será o garanhão que vai montar o mundo. Dany conhecia profecias. São feitas de palavras, e palavras são vento. (MARTIN, George R. R. Daenerys IV. A Dança dos Dragões. São Paulo: Leya, 2012, cap. 23. Tradução de Marcia Blasques.)

Apesar da aparente falha da profecia, ela pode está relacionada a Daenerys e não ao filho que ela carregava, fazendo dela e não de Rhaego o Garanhão que Monta o Mundo.

Por fim, a feiticeira abriu o olho e ergueu os braços.

– Vi seu rosto e ouvi o troar de seus cascos – proclamou numa voz fina e vacilante.

– O troar de seus cascos! – responderam os outros em coro.

– Cavalga veloz como o vento, e atrás dele seu khalasar cobre a terra com homens sem número, com arakhs brilhando nas mãos como folhas de um gramado afiado. Será feroz como a tempestade, esse príncipe. Os inimigos tremerão perante ele, e suas esposas chorarão lágrimas de sangue e rasgarão a carne de desgosto. Os sinos de seus cabelos cantarão a sua chegada, e os homens de leite nas tendas de pedra temerão o seu nome –  a velha tremeu e olhou para Dany quase como se tivesse medo –  O príncipe cavalga, e será ele o garanhão que monta o mundo. (MARTIN, George R. R. Daenerys V. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010, cap. 46. Tradução de Jorge Candeias)

Assim como Rhaegar e meistre Aemon podem ter se enganado em relação ao gênero do Príncipe que foi Prometido, devido a um erro de tradução e aos valores machistas e patriarcais no qual estavam inseridos, o mesmo pode estar ocorrendo por gerações entre os dothrakis, conhecidos pela cultura machista e pela clássica misoginia. Claramente eles nunca poderiam esperar que seu garanhão profetizado pudesse ser uma delicada mulher forasteira. Seria mais uma quebra de tropos e arquétipos por parte de George Martin se Daenerys Stormborn fosse O Garanhão que Monta o Mundo.

Na citação a cima temos ainda uma menção aos homens de leite, que é como são conhecidos as pessoas de Qarth. Foi em Qarth em que Daenerys passou pela Casa dos Imortais e ao final Drogon a destruiu. A casa era na verdade uma torre de pedra que ruiu entre fogo e poeira. E ainda que não se possa afirmar com toda a certeza do mundo, o trecho à seguir passa a sensação de que as velhas do dosh Khaleen estavam impressionadas ou pelo menos em dúvida em relação a Daenerys.

O sangue do garanhão havia secado em suas mãos e em torno da boca. Dany fez uma taça com os dedos e ergueu as águas sagradas acima da cabeça, purificando a si e ao filho que trazia no ventre enquanto o khal e os outros olhavam. Ouviu as velhas do dosh Khaleen murmurarem umas com as outras enquanto a observavam, e sentiu curiosidade de saber o que estariam dizendo. (MARTIN, George R. R. Daenerys V. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010, cap. 46. Tradução de Jorge Candeias)

Umas das muitas visões que Dany tem na Casa dos Imortais envolve as dosh Khaleen, que se curvam diante dela:

À sombra da Mãe das Montanhas, uma fileira de velhas nuas saiu de um grande lago e ajoelhou-se tremendo diante dela, com a cabeça cinzenta inclinada. (MARTIN, George R. R. Daenerys IV. A Fúria dos Reis. São Paulo: Leya, 2011, cap. 48. Tradução de Jorge Candeias)

Sabemos que em A Dança dos Dragões, o destino de Daenerys a leva de volta ao Mar Dothraki e a parte do Khalasar que era de Khal Drogo. Em Os Ventos de Inverno, é provável que veremos Dany de volta a Vas Dothraki. Sabemos também que ela passou cinco livros amargando e remoendo rancor contra os antigos companheiros de Drogo.

– Eroeh? – perguntou Dany lembrando-se da criança assustada que salvara fora da cidade dos Homens-Ovelhas.

– Mago, que agora é companheiro de sangue de Khal Jhaqo, capturou-a para si. – disse Jhogo. – Montou-a por cima  e por baixo e a deu a seu Khal, e Jhaqo a deu aos seus outros companheiros de sangue. Eram seis. Quando ficaram satisfeito, cortaram-lhe a garganta.

– Era o destino dela, khaleesi –  disse Aggo.

Se olhar pra trás, estou perdida.

– Foi um destino cruel –  disse Dany – , mas não tão cruel como será o de Mago. Prometo, pelos velhos deuses e pelos novos, pelo deus-ovelha e pelo deus-cavalo e por todos os deuses que vivem. Juro pela Mãe das Montanhas e o Ventre do Mundo. Antes de acabar com eles, Mago e Ko Jhaqo suplicarão pela clemência que mostraram a Eroeh. (MARTIN, George R. R. Daenerys IX. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010, cap. 68. Tradução de Jorge Candeias)

O Garanhão que monta o mundo

O último capítulo de Daenerys em A Dança dos Dragões, é simplesmente um dos capítulos mais fantásticos de todos os livros. Um milhão de coisas acontecem nesse capítulo, além dele ser uma espécie de repetição de seus dois últimos capítulos em A Guerra dos Tronos. Daenerys está de volta ao Mar Dothraki., lá ela provavelmente perde um novo filho, tem novos sonhos febris e precisa se reencontrar com sua identidade de Mãe de Dragões, forjada naquele mesmo local, quando ela deu luz a Rhaego e por fim quando saiu da fogueira com seus dragões. Neste mesmo capítulo convergem uma série de profecias:

  • A famigerada profecia de Mirri Maz Duur: Quando o Sol Nascer no leste e se pôr no oeste, quando os mares secarem e as montanhas forem sopradas pelo vento como folhas, quando seu ventre voltar a ganhar vida para dar à luz a um filho vivo, então ele (Drogo), retornará, e não antes.
  • E parte da profecia de Quaithe dita a Dany em A Fúria dos Reis: Para ir para o norte, você deve viajar para o Sul. Para alcançar o oeste, você deve ir para leste. Para ir adiante, você precisa ir para trás. Para tocar a luz, você precisa passar pela sombra.

– Para seguir em frente, tenho que voltar para trás – disse. Suas pernas nuas se apertaram no pescoço do dragão. Ela o chutou, e Drogon atirou-se no céu. Seu chicote se perdera, então usou as mãos e os pés para virá-lo para noroeste, o caminho que o batedor tomara. Drogon foi com suficientemente boa vontade, talvez sentira o medo do cavaleiro. (MARTIN, George R. R. Daenerys X. A Dança dos Dragões. São Paulo: Leya, 2012, cap. 71. Tradução de Marcia Blasques)

O batedor era um dothraki e ao final ela finalmente se encontrou com Khal Jhaqo. Então além das profecias citadas, que convergiram neste capítulo, Dany pode estar perto de cumprir a profecia do Garanhão que Monta o Mundo. Ela tem Drogon e um rancor suficientemente grande para acabar com a vida de Jhaqo. Uma vez em Vas Dothraki, ela e seu dragão poderão ser uma ameaça para todos os khals que lá estarão. Existe uma regra sagrada entre os dothrakis, a de não derramar sangue em Vas Dothraki. Mas Daenerys Targaryen pode matar com fogo de dragão.

Caso se confirme que Dany seja o Garanhão que Monta o Mundo, essa profecia poderá estar diretamente relacionada a profecia de Azor Ahai e do Príncipe que foi Prometido, vale um retorno a fala de Sor Jorah:

O garanhão é o Khal dos Khals prometido numa antiga profecia, menina. Ele vai unir os dothrakis num único Khalasar e cavalgar até o fim do mundo, ou pelo menos, é essa a promessa. Todos serão sua manada. (MARTIN, George R. R. Daenerys V. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010, cap. 46. Tradução de Jorge Candeias)

Com os dothrakis, Dany terá um amplo exército. Isso não apenas a ajudará em suas guerras como implicará em um grande golpe para o tráfico de escravos que ela vem combatendo na Baía dos Escravos. Isso porque os dothrakis são a principal fonte por terra de abastecimento de escravos. Eles fazem suas guerras, saqueiam e trocam seus prisioneiros de guerra (transformados em escravos) em grandes mercados de escravos como em Astapor, Yunkai e Meereen. Sendo ela o garanhão prometido dos dothrakis, eles a escutarão acima de  qualquer coisa. E isso é literalmente refazer o mundo, tanto para a cultura dothraki quanto para as vítimas de seus saques violentos. Estamos talvez prestes a ver uma Essos sem a cultura do saque e do estupro infligida pelos dothraki, e sem o comércio de escravos.

Dany sendo o Garanhão seria também o único motivo pelo o qual eles a seguiriam em manadas através da água venenosa em direção a Westeros. Os dothrakis odeiam a água do mar. Além da guerra pelo Trono de Ferro, Dany os levará para a guerra pela Alvorada e curiosamente, Westeros tem um lugar conhecido como o fim do mundo: A Muralha de gelo.

As Três Cabeças do Dragão

As Três Cabeças do Dragão é um dos elementos mais enigmáticos de toda a série de livros. A primeira vez que ouvimos sobre ela foi durante a passagem de Daenerys pela Casa dos Imortais, quando ela ver seu irmão mais velho, Rhaegar Targaryen:

– Aegon – ele disse para uma mulher que amamentava um recém-nascido numa grande cama de madeira. – Que nome seria melhor para um rei?

– Fará uma canção para ele? – uma mulher perguntou.

– Ele já tem uma canção. É o príncipe que foi prometido, e é sua a canção de gelo e fogo  – ergueu o olhar quando disse aquilo, e seus olhos encontraram os de Dany, e pareceu que a via ali em pé através da porta. – Terá de haver mais um – ele disse, embora Dany não soubesse dizer se estava falando para ela ou para a mulher na cama –  O Dragão tem três cabeças –  dirigiu-se ao banco da janela, pegou uma harpa e seus dedos correram com leveza sobre as cordas prateadas. Uma doce tristeza encheu o quarto enquanto o homem, esposa e bebê se desvaneciam como neblina da manhã, deixando para trás apenas a música a fim de apressá-la. (MARTIN, George RR Daenerys IV. A Fúria dos Reis. São Paulo: Leya, 2011, cap. 48. Tradução de Jorge Candeias.)

Sabemos que a mulher na cama com o bebê é a esposa de Rhaegar, Elia Martell e o bebê é Aegon, que até aonde foi mostrado,  Rhaegar acreditava ser o Príncipe que foi Prometido.

As três cabeças do dragão tem um alto significado para a Casa Targaryen, justamente por ser o estandarte de sua casa. As três cabeças do dragão no estandarte da casa representam Aegon, o Conquistador e suas duas irmãs/esposas, Rhaenys e Visenya.

Rhaenys e Aegon, eram os nomes dos dois filhos de Rhaegar com Elia Martell e aparentemente ele acreditava que precisava ter mais um filho. Visenya ou Jon Snow?

A partir dessa visão na Casa dos Imortais, Dany passa a acreditar que existem mais duas pessoas no mundo, que ao seu lado, montará os dragões que ela chocou.

“O Dragão tem três cabeças. Há no mundo dois homens em que posso confiar, se conseguir encontrá-los. Então já não estarei só. Seremos três contra o mundo, como Aegon e as irmãs.”(Daenerys, A Tormenta de Espadas, pág 732)

Por essa lógica, Dany seria a cabeça principal por ter sido ela a trazer os dragões de volta a vida, por ter sido ela a ter pagado o preço para despertar os dragões de pedra e por ela saber que precisa de mais dois cavaleiros. Neste sentido, ela seria como Aegon, o Conquistador, a principal cabeça das três.

As duas cabeças subsequentes são uma grande aposta, mas se você acreditar que Rhaegar teve o seu terceiro filho com Lyanna Stark, então Jon Snow é um dos grandes candidatos, para montar um dos dragões ou para ser uma das cabeças ao lado de Dany. Porém, cabe dizer, que por mais consagrada que pareça ser R+L= J, ela ainda é insatisfatória para muitas pessoas. Uma das alternativas mais famosas em relação a R+L=J é R+A= D, Rhaegar e Ashara Dayne igual a Daenerys. Assim, Dany seria a própria filha de Rhaegar, sua Visenya.

George Martin já chegou a revelar em entrevistas, que nem todas as cabeças serão necessariamente Targaryens, o que ainda é uma revelação vaga como quase tudo o que ele diz ou escreve. Porém, é inegável que em algum grau, a terceira cabeça deverá ter sangue Targaryen para montar e domar um dragão, se for este o caso. Então temos por um lado Tyrion Lannister, que pode ser um bastardo de Aerys II, e por outro, O Jovem Griff/Aegon que pode ser um filho de Rhaegar ou mesmo um descendente da casa Blackfyre.

 A Canção de Gelo e Fogo

Conforme estamos cientes, A Canção de Gelo e Fogo (A Song of Ice and Fire) é o nome dado a série de livros criados por George Martin: A Guerra dos Tronos, A Fúria dos Reis, A Tormenta de Espadas, O Festim dos Corvos e a Dança dos Dragões. Em seu universo de alta fantasia, Martin criou um mundo mágico, com estruturas próprias e cujo os elementos gelo e fogo permeiam toda a sua narrativa, seja na estrutura de seus livros, das divisões geográficas, culturais  e o psicológico de seus personagens.

Porém, durante o segundo livro, no mesmo trecho que Rhaegar fala sobre o Príncipe que foi Prometido, vemos também esse misterioso personagem associando a figura do Príncipe que foi Prometido com uma canção,  a Canção de Gelo e Fogo: “Ele já tem uma canção. É o príncipe que foi prometido, e é sua a canção de gelo e fogo  – ergueu o olhar quando disse aquilo, e seus olhos encontraram os de Dany, e pareceu que a via ali em pé através da porta”.

Sabemos que Rhaegar  tocava uma harpa de prata, que ele amava mais do que as espadas (alma de bardo) e na própria passagem citada no tópico anterior, ele aparece com sua harpa, tocando uma canção que encheu o ar de tristeza. Sabemos também que existe uma enorme possibilidade de Rhaegar ter tido algum tipo de acesso aos sonhos certeiros da Fantasma de Coração Alto, isso porque Solarestival, uma antiga casa de verão dos Targaryen, era aparentemente um local que ele gostava de frequentar. Clique aqui para saber mais sobre Solarestival.

[..] -Mas não tenho certeza de que Rhaegar tivesse a capacidade de ser feliz.

– Faz com que pareça tão amargo – protestou Dany.

– Amargo, não, não, mas…havia uma melancolia no Príncipe Rhaegar, um sentido… – o velho voltou a hesitar.

-Diga –  pediu ela. – Um sentido…?

– …de tragédia. Ele nasceu em pesar, minha rainha, e essa sombra pairou sobre ele durante toda a vida.

Viserys só falara uma vez do nascimento de Rhaegar. A história talvez o entristecesse demais.

– Era a sombra de Solarestival que o assombrava, não era?

– Sim. E, no entanto. Solarestival era o lugar que o príncipe mais amava. Ia para lá de tempos em tempos, acompanhado apenas de sua harpa. Nem mesmo os cavaleiros da Guarda Real o serviam ali. Gostava de dormir no salão arruinado, sob a lua e as estrelas, e sempre que regressava trazia uma canção. Quando se ouvia que o príncipe tocar sua harpa com cordas de prata e cantar a respeito de penumbras, lágrimas e a morte de reis, era impossível não sentir que estava cantando sobre si e aqueles que amava. (MARTIN, George R. R. A Tormenta de Espadas. Daenerys, p. 445. São Paulo: Leya, 2011. Tradução de Jorge Candeias)

Através de Sor Barristan Selmy descobrimos que Jaehaerys casou seus dois filhos, Aerys e Rhaella, pais de Dany, porque ouviu de uma bruxa da floresta, de uma anã, que o Príncipe que foi prometido nasceria de sua linhagem. Até então, acreditava-se que a tal bruxa havia morrido no incêndio que devorou Solarestival, mas então, a encontramos nos capítulos de Arya em A Tormenta de Espadas.

– Sonhei com um lobo uivando na chuva, mas ninguém ouvia seu lamento –  a anã estava dizendo. – Sonhei com um tal clangor que julguei que minha cabeça fosse estourar, com tambores, flautas e gritos, mas o som mais triste era o de pequenas companhias. Sonhei com uma donzela num banquete com serpentes roxas nos cabelos e veneno pingando das presas delas. E mais tarde, voltei a sonhar com essa mesma donzela, matando um gigante selvagem num castelo feito de neve. – Virou vivamente a cabeça e sorriu através das sombras, diretamente para Arya. – Não pode se esconder de mim, filha. Chegue mais perto, agora.

Dedos frios desceram pelo pescoço de Arya. O medo corta mais profundamente do que as espadas, lembrou a si mesma. Levantou-se e aproximou-se cautelosamente da fogueira, pisando levemente nas pontas dos pés, pronta para fugir.

A anã estudou-a com seus sombrios olhos vermelhos.

– Estou vendo você. – sussurrou –  Estou vendo você, criança lobo. Criança de sangue. Achava que era o lorde que cheirava a morte… – Começou a soluçar, fazendo estremecer o seu pequeno corpo –  É cruel por vir ao meu monte, cruel. Empanturrei-me de pesar em Solarestival, não preciso do seu. Desapareça daqui, coração negro. Desapareça.

[…]

– Quero agora o meu pagamento. Quero a canção que me prometeram.

E então Limo despertou Tom Sete-Cordas de debaixo de suas peles, e trouxe-o bocejando até junto da fogueira com a harpa na mão.

– A mesma canção de sempre? – perguntou.

Ah sim, a canção da minha Jenny. Existe mais alguma?

E ele assim cantou, e a anã fechou os olhos e começou a balançar o corpo lentamente de um lado para o outro, murmurando palavras e chorando. Thoros pegou firmemente na mão de Arya.

– Deixe-a saborear a canção em paz. É tudo que lhe resta. (MARTIN, George R. R. Arya VIII. A Tormenta de Espadas. São Paulo: Leya, 2011, cap. 43. Tradução de Jorge Candeias)

Segundo o próprio Sor Barristan, a tal bruxa que diziam ser uma filha da floresta, chegou na corte de Aegon V acompanhada por Jenny de Pedra Velha, que acabou se casando com Duncan, o herdeiro do Trono de Ferro, mas que abriu mão de sua herança para casar-se com Jenny que era de baixo nascimento e considerada imprópria para um rainha. Então, a “canção da minha Jenny”, é com certeza uma canção sobre Jenny de Pedra Velha, que parece ser muito cara a Fantasma. E conhecemos uma única linha dessa canção, cantada sabe aonde e por quem?Por Tom Sete Cordas entre as ruínas de Pedra Velha.

Folhas caídas jaziam em grande número no chão, como soldados após algumas grande matança. Um homem vestido de traje verde remendado e desbotado estava sentado de pernas cruzadas num desgastado sepulcro de pedra, dedilhando as cordas de uma harpa. A música era suave e triste. Merrett conhecia a canção. No alto dos salões dos reis que partiram, Jenny dançava com seus fantasmas… (MARTIN, George R. R. A Tormenta de Espadas. São Paulo: Leya, 2011,  Epílogo. Tradução de Jorge Candeias)

Nos sonhos descritos pela Fantasma de Coração Alto, ela descreve dois eventos drásticos que ocorrem em  A Tormenta de Espadas – o casamento vermelho (onde morre Robb Stark) e o casamento roxo (onde morre Joffrey) – com um considerável nível de precisão. Pela cor de seus olhos (vermelhos), é possível que ela seja uma vidente verde ou que pelo menos tenha os sonhos verdes como o Jojen Reed e conforme o próprio Jojen nos diz, “os sonhos verdes não mentem” (A Fúria dos Reis, Bran V, cap. 35).

Então é possível especular que de algum modo, Rhaegar poderia ter tido acesso aos sonhos verdes da Fantasma e que seja ele o autor da misteriosa canção de Jenny de Pedra Velha. A canção tocada por Tom Sete Cordas é descrita como “suave e triste”. Suavidade e tristeza parecem algo recorrente nas canções tocadas por Rhaegar quando os personagens se recordam dele e sua harpa. E a  canção é a única coisa que restou a Fantasma de Coração Alto. Parece algo especial.

E talvez, apenas talvez, a canção de gelo e fogo do Príncipe que foi Prometido seja tudo o que temos acompanhando até então. Talvez ela seja todos os sonhos, que Rhaegar teve acesso via Fantasma do Coração Alto e memorizou em forma de canção. Talvez seja a “canção da minha Jenny”. Talvez seja a mesma canção que ele sempre aparece tocando, suave e triste. Em Westeros, é frequente que os cantores e bardos memorizem e imortalizem em suas harpas eventos importantes da história e principalmente, das batalhas, um exemplo são as Chuvas de Castamere, sobre os Reynes de Castemere que foram esmagados por Twyn Lannister.

A única coisa que Rhaegar levava para Solarestival era sua harpa. Ele ia sozinho e fazia questão disso. Provavelmente muito antes de casar-se com Elia Martell. Ele cantava sobre “penumbras, lágrimas e a morte de reis”. Sor Barristan achava que ele estivesse falando dele mesmo, do trágico destino da Casa Targaryen. Mas talvez Rhaegar estivesse cantando sobre tudo, todas as tragédias envolvendo os reis desde a queda da dinastia Targaryen. Toda a tragédia que caiu sobre Westeros desde de sua morte no Tridente. Falando da Guerra pela Alvorada. Os dragões e o os acontecimentos ao norte da Muralha, que Martin já confirmou serem os dois temas principais por de trás de seu título, lêr-se: Daenerys e Jon Snow, os principais candidatos ao papel de Azor Ahai/Príncipe que foi Prometido, e os principais representantes de Gelo e Fogo dentro do universo dos livros.

CONCLUSÃO

Nesta segunda parte de nossa série sobre Azor Ahai e o Príncipe que foi Prometido, tentei trazer evidencias textuais que apontam para a verdadeira identidade dessa enigmática figura profética dentro do universo dos livros.

Daenerys Tararyen até o momento é a personagem que mais apresenta indícios de cumprimento dessa profecia. Ela tirou a vida de Khal Drogo com suas próprias mãos, despertou dragões de pedras após ver o cometa vermelho no céu e renasceu entre sal e fumaça no Mar Dothraki ao fim de um longo verão. Além de montar um dragão, a coisa mais quente desse universo depois do sol e do magma, sua luta contra a escravidão vem causando drásticas transformações num sistema muito rígido de exploração, exercendo impacto tanto em Essos quanto em Westeros.

E enquanto Melisandre acredita que Stannis Baratheon é o herói renascido, meistre Aemon, tido como uma das pessoas mais sábias dos Sete Reinos, reconhece um erro de tradução em seu leito de morte e morre acreditando que a escolhida é Daenerys, pois os dragões não são nem machos e nem fêmeas, mas mutáveis como o fogo.

Caso Daenerys seja de fato a reencarnação de Azor Ahai, ela pode ainda reunir em torno de si outras profecias e mistérios dos livros, como a profecia do Garanhão que Monta o Mundo, as três cabeças de dragão, sendo ela a cabeça principal; além de ser parte significante da Canção de Gelo e Fogo que segundo Rhaegar, pertencia ao Príncipe que foi Prometido.

Uma vez estando no centro dessas profecias, Dany funcionaria ainda como uma espécie de quebra de tropos e arquétipos por parte de Martin, que gosta de romper com elementos clichês e reserva em seus livros um importante espaço paras as personagens femininas, no momento em ascensão em As Crônicas de Gelo e Fogo.

Porém, apesar das inúmeras evidencias que inundam os povs de Daenerys, é importante frisar que esta história ainda  está longe de acabar e que personagem como Tyrion Lannister, Jovem Griff e principalmente Jon Snow, pode nos surpreender ao final dos jogos.

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5 pensamentos sobre “[Análise] A Canção de Gelo e Fogo: A profecia de Azor Ahai e o Príncipe que foi Prometido (part II)

  1. Muito boa a análise, parabéns
    De acordo com o que você mostrou a Dany realmente parece mais próxima de cumprir a profecia
    O que você acha que vai acontecer na série em relação a isso?

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    • Oi Fernanda, obrigada por comentar!Eu acho que na série isso sinceramente não irá importar muito. A própria Melisandre meio que já esqueceu dessa história e conforme ela disse: uniu gelo e fogo. É isso. Jon e Dany tanto nos livros quanto na série terão um papel importante na luta contra a longa noite. É verdade que Jon e o Rei da Noite estão trocando ameaçadas mudas desde a quinta temporada, porém Jon não irá conseguir derrotá-lo sozinho, ele irá precisar de todos, principalmente do Bran e da Dany e talvez nem seja ele a pessoa a dar o golpe final, mas uma pessoa aleatória qualquer. Então na série acho que tá muito aberto e talvez não fique claro a existência de um “escolhido” como talvez fique nos livros.

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