[Análise] A Canção de Gelo e Fogo: a profecia de Azor Ahai e o Príncipe que foi Prometido (part I)

Aviso de Spoilers dos livros da série As crônicas de gelo e fogo

INTRODUÇÃO

Com certeza a profecia do Azor Ahai e do Príncipe que foi Prometido são duas das coisas que mais tiram o sono dos fãs mais aficionados pela série de livros, no Brasil As Crônicas de Gelo e Fogo e no original A Song of Ice and Fire (A Canção de Gelo e Fogo). A identidade do herói misterioso é com certeza um dos temas centrais da história escrita por George Martin e assunto para exaustivos debates entre os fãs. Por seu grau de importância e por uma certa confusão que existe em torno dessa figura mistica, hoje inicio uma análise que será dividida em duas partes, onde me proponho a discutir e discorrer sobre os principais elementos que cercam Azor Ahai nos livros.

Nessa primeira parte, pretendo analisar o máximo de informações possíveis em relação ao que já foi dito sobre Azor Ahai nos cinco livros da série publicado até o momento e refletir de que forma essa antiga profecia e a profecia do Príncipe que Foi Prometido podem estar relacionadas. Na segunda parte (clique aqui para ler), publicada aqui no blog em outro momento, me debruçarei sobre os candidatos mais prováveis a cumprirem o papel do “herói” profetizado por ambas as profecias.

I – POR DENTRO DA PROFECIA DE AZOR AHAI E DO PRÍNCIPE QUE FOI PROMETIDO

A primeira vez que tivemos conhecimento em relação a profecia de Azor Ahai, estávamos no segundo livro das crônicas, A Fúria dos Reis. A conhecemos através de Melisandre de Asshai, uma misteriosa sacerdotisa do Senhor da Luz (R’hllor), o deus da fé vermelha. A revelação chega até nós através de Pedra do Dragão, a antiga fortaleza da Casa Targaryen, destronada 15 anos antes devido ao movimento armado conhecido como a  Rebelião de Robert.

Com o destronamento da casa e os seus últimos herdeiros fugidos para Essos, o continente do outro lado do Mar Estreito, Stannis Baratheon, irmão mais novo do então mais novo rei, Robert Baratheon, se estabeleceu na antiga fortaleza com sua família.  Entretanto, após a morte de seu irmão e rei, Stannis  declara sua pretensão ao Trono de Ferro, conduzido pela revelação de Ned Stark de que os filhos da rainha Cersei, não eram os verdadeiros herdeiros do Trono de Ferro.

Contudo, Stannis não é conhecido por ser uma pessoa simpática e querida nos Sete Reinos, mas sim por sua personalidade forte e férrea. Desta forma, mesmo sendo o herdeiro de Robert, Stannis não consegue o apoio dos vassalos de Ponta Tempestade, a ancestral sede da Casa Baratheon. Ao invés de se declararem por Stannis, os vassalos de Ponta Tempestade em sua grande maioria entram na disputa pelo trono através do irmão mais novo de Robert e Stannis, Renly Baratheon. 

Sem o poderio de Ponta Tempestade e contando com os poucos vassalados jurados a Pedra do Dragão e alguns piratas, Stannis Baratheon se volta enfim para o deus vermelho de Melisandre, que conforme sugerido em A Fúria dos Reis, já estava com Selyse, esposa de Stannis, há um bom tempo. A partir de então, Stannis passa a ser apontado por Melissandre como  a pessoa que cumprirá a profecia de Azor Ahai e livrará o mundo de uma longa escuridão, conduzida pelo grande  O Outro, o maior maior inimigo de R’hollor.

Basicamente essa profecia diz que:

“– Nos livros antigos de Asshai está escrito que chegará um dia, após um longo Verão, em que as estrelas sangrarão e o bafo frio da escuridão cairá, pesado, sobre o mundo. Nessa hora de terror, um guerreiro retirará do fogo uma espada em chamas. E essa espada será a Luminífera, a Espada Vermelha dos Heróis, e aquele que a pegar será Azor Ahai renascido, e a escuridão fugirá perante ele – e levantou a voz, para que fosse ouvida pela tropa ali reunida. – Azor Ahai, o amado de R’hllor! O Guerreiro da Luz, o Filho do Fogo! Avance, a sua espada o espera! Avance, e tome-a em sua mão! (MARTIN, George R. R. Davos I. A Fúria dos Reis. São Paulo: Leya, 2011, cap. 10. Tradução de Jorge Candeias.)

Ou ainda:

– O velho meistre olhava para Stannis e via apenas um homem. Você vê um rei. Ambos se enganam. Ele é o escolhido do Senhor, o guerreiro do fogo. Vi-o à frente da luta contra a escuridão, vi-o nas chamas. As chamas não mentem, caso contrário você não estaria aqui. Isso também está escrito na profecia. Quando a estrela vermelha sangra e as trevas reúnem forças, Azor Ahai renascerá por entre fumaça e sal, para acordar dragões da pedra. A estrela sangrenta já chegou e partiu, e Pedra do Dragão é o local de fumaça e sal. Stannis Baratheon é Azor Ahai renascido! (MARTIN, George R. R. Davos III. A Tormenta de Espadas. São Paulo: Leya, 2011, cap. 25. Tradução de Jorge Candeias.)

No quinto livro, A Dança dos Dragões, durante a passagem de Tyrion pela cidade de Volantis, em Essos, maior centro de concentração dos adoradores da fé vermelha, ouvimos  novos comentários em relação a misteriosa profecia de Azor Ahai.

– Benerro enviou a palavra de Volantis. A vinda dela é o cumprimento de uma antiga profecia. Da fumaça e do sal ela nascerá, para fazer um mundo novo. Ela é Azor Ahai retornado… e o triunfo dela sobre a escuridão trará um verão sem fim… a morte dobrará os joelhos, e aqueles que morrerem lutando pela causa dela renascerão. (MARTIN, George R. R. Tyrion VI. A Dança dos Dragões. São Paulo: Leya, 2012, cap. 22. Tradução de Marcia Blasques.)

Ainda no segundo livro da série, A Fúria dos Reis, através de um dos capítulos de Daenerys, quando ela passa pela Casa dos Imortais e recebe uma série de visões e profecias após beber um alucinógeno, chamada Sombra da Tarde, pela primeira vez ouvimos falar do Príncipe que foi Prometido.

Seu primeiro pensamento, na vez seguinte em que parou, foi Viserys, mas um segundo olhar fez Dany mudar de ideia. O homem tinha os cabelos do irmão, mas era mais alto, e seus olhos eram de um tom escuro de índigo, e não lilases.

– Aegon – ele disse para uma mulher que amamentava um recém-nascido numa grande cama de madeira. – Que nome seria melhor para um rei?

– Fará uma canção para ele? – a mulher perguntou.

– Ele já tem uma canção. É o príncipe que foi prometido, e é sua a canção de gelo e fogo – ergueu o olhar quando disse aquilo, e seus olhos encontraram os de Dany, e pareceu que a via ali em pé através da porta. (MARTIN, George R. R. Daenerys IV. A Fúria dos Reis. São Paulo: Leya, 2011, cap. 48. Tradução de Jorge Candeias.)

Enquanto Azor Ahai foi citado num total de 18 vezes ao longo das Crônicas de Gelo e Fogo, o Príncipe foi Prometido aparece em um total de 7 citações e mesmo que ainda não podemos afirmar com certeza, as citações a seguir nos dão bons motivos para acreditar que Azor Ahai e o Príncipe que foi Prometido são na verdade a mesma figura profética.

A convicção na voz do rei assustou Davos profundamente.

– Um monte numa floresta… silhuetas na neve… eu não…

– Significa que a batalha começou – disse Melisandre. – A areia corre agora mais depressa pela ampulheta, e o tempo do homem sobre a terra está quase no fim. Temos de agir com ousadia, senão toda a esperança estará perdida. Westeros tem de se unir sob seu único rei verdadeiro, o príncipe que foi prometido, Senhor de Pedra do Dragão e escolhido de R’hllor.

– Então R’hllor faz estranhas escolhas. – O rei fez uma careta, como quem saboreia algo desagradável. – Por que eu e não meus irmãos? Renly e seu pêssego. Em meus sonhos, vejo o sumo escorrendo da boca dele, e o sangue da garganta. Se tivesse cumprido seu dever para com o irmão, teríamos esmagado Lorde Tywin. Uma vitória de que até Robert poderia se orgulhar. Robert… – Seus dentes rangeram, de um lado para o outro. – Ele também aparece em meus sonhos. Rindo. Bebendo. Vangloriando-se. Eram as coisas que ele fazia melhor. Isso, e lutar. Nunca o venci em nada. O Senhor da Luz devia ter feito de Robert o seu campeão. Por que eu? (MARTIN, George R. R. Davos IV. A Tormenta de Espadas. São Paulo: Leya, 2011, cap. 36. Tradução de Jorge Candeias.)

 Pedra do Dragão, o Mundo de Gelo e Fogo.

– Eu sei como ele se chama. Poupe-me de suas censuras. Não gosto mais disso do que você, mas o meu dever é para com o reino. O meu dever… – Voltou a virar-se para Melisandre. – Jura que não há outra maneira? Jure por sua vida, porque juro que morrerá devagarinho se mentir para mim.

– O senhor é quem tem de se erguer perante o Outro. Aquele cuja vinda foi profetizada há cinco mil anos. O cometa vermelho foi o seu arauto. O senhor é o príncipe que foi prometido, e se cair, o mundo cairá junto. – Melisandre aproximou-se dele, de lábios entreabertos, com o rubi a latejar. – Dê-me este garoto – sussurrou – e eu darei o seu reino. (MARTIN, George R. R. Davos VI. A Tormenta de Espadas. São Paulo: Leya, 2011, cap. 63. Tradução de Jorge Candeias.)

Além de sermos informado que a profecia remontava cinco mil anos antes da história atual, na passagem citada, Melisandre utiliza o termo “Príncipe que foi prometido” como um equivalente a Azor Ahai para se dirigir a Stannis Baratheon, a quem ela acredita ser o herói escolhido.

Mais tarde, ainda em A Tormenta de Espadas, quando um meistre  Aemon, questiona Melisandre sobre a Guerra pela Alvorada, ou seja,a guerra entre vivos e mortos durante a Longa Noite, ele questiona também aonde estaria o Príncipe que foi Prometido de Melisandre, ao que novamente ela associa a Stannis Baratheon.

– Sim. – A mulher levantou-se num turbilhão de seda escarlate, com os longos cabelos acobreados caindo em volta de seus ombros. – As espadas, sozinhas, não podem deter esta escuridão. Só a luz do Senhor consegue fazer isso. Não se iludam, bons sores e valentes irmãos, a guerra que viemos travar não é uma querela mesquinha a propósito de terras e honrarias. A nossa é uma guerra pela própria vida, e se falharmos o mundo morre conosco.

Sam viu que os oficiais não sabiam como entender aquilo. Bowen Marsh e Othell Yarwyck trocaram um olhar de dúvida, Janos Slynt estava furioso e Hobb Três-Dedos tinha a expressão de quem preferia estar cortando cenouras naquele momento. Mas todos pareceram surpreendidos ao ouvir Meistre Aemon murmurar:

– A guerra de que fala é a guerra pela alvorada, senhora. Mas onde está o príncipe que foi profetizado? (no original, prometido)

– Ele está na sua frente – declarou Melisandre –, embora não tenha olhos para ver. Stannis Baratheon é Azor Ahai regressado, o guerreiro do fogo. Nele, as profecias cumprem-se. O cometa vermelho ardeu no céu para anunciar a sua vinda, e ele traz a Luminífera, a espada vermelha dos heróis.

Sam viu que as palavras dela pareceram deixar o rei desesperadamente desconfortável. Stannis rangeu os dentes e disse:

– Chamaram, e eu vim, senhores. Agora têm de sobreviver comigo, ou morrer comigo. É melhor que se habituem a isso. – Fez um gesto brusco. – É tudo. Meistre, fique por um momento. E você também, Tarly. Os outros podem ir. (MARTIN, George R. R. Samwell V. A Tormenta de Espadas. São Paulo: Leya, 2011, cap. 78. Tradução de Jorge Candeias.)

Então, no quarto livro, O Festival dos Corvos, o próprio meistre Aemon, em seu leito de morte e num momento de total epifania, relaciona elementos já conhecidos pelo leitor sobre a profecia de Azor Ahai com o Príncipe que foi Prometido, uma figura já há muito era conhecida pela Casa Targaryen.

“Nunca ninguém procurou uma garota”, dissera, “Fora um príncipe a ser prometido, não uma princesa. Rhaegar, pensava eu… a fumaça era do incêndio que devorou Solarestival no dia de seu nascimento, o sal vinha das lágrimas derramadas por aqueles que morreram. Ele partilhou minha crença quando era novo, mas mais tarde persuadiu-se de que seria o filho a cumprir a profecia, pois um cometa foi visto no céu de Porto Real na noite em que Aegon foi concebido, e Rhaegar tinha certeza de que a estrela sangrando era um cometa. Que tolos fomos por nos julgarmos tão sábios! O erro teve origem na tradução. Os dragões não são nem machos nem fêmeas, Barth viu aí a verdade, mas ora uma coisa, ora outra, tão mutáveis como chamas. A língua nos induziu em erro durante mil anos. A escolhida é Daenerys, nascida entre sal e fumaça. Os dragões assim nos provam.” (MARTIN, George R. R. Samwell IV. O Festim dos Corvos. São Paulo: Leya, 2012, cap. 35. Tradução de Jorge Candeias.)

A última viagem de Aemon Targaryen, um bordo do Pássaro Negro. Arte: Kay Huang © Jogos de Vôo Fantasia.

Egg abaixou a voz. – Algum dia os dragões irão voltar, meu irmão Daeron sonhou com isso, e o Rei Aerys leu na profecia. Talvez seja meu ovo que vai eclodir. Isso seria esplêndido. (MARTIN, George RR O Cavaleiro Misterioso. O Cavaleiro dos Sete Reinos. São Paulo: Leya, 2014.)

Segundo as passagens descritas a cima, podemos concluir com certa tranquilidade que Azor Ahai e o Príncipe Prometido se tratam na verdade da mesma figura proféticas. Em Asshai, tal figura é conhecida como Azor Ahai, enquanto para os Targaryen, uma família de origem valiriana, ela é conhecida como Príncipe que foi Prometido. Aparentemente o mito de tal figura messiânica aparece em várias culturas diferentes, assumindo diferentes nomes por onde quer que passe.  

Também está escrito que há anais em Asshai sobre tal escuridão, e sobre um herói que lutou contra ela com uma espada vermelha. Dizem que seus feitos se deram antes da ascensão de Valíria, nos tempos primordiais quando a Velha Ghis começava a formar seu império. Essa lenda se espalhou a oeste de Asshai, e os seguidores de R‘hllor afirmam que esse herói se chamava Azor Ahai, e profetizaram seu retorno. No Compêndio de Jade, Colloquo Votar relata uma lenda curiosa de Yi Ti, que afirma que o sol escondeu seu rosto da terra por toda a vida, envergonhado de algo que ninguém jamais descobriu, e que este desastre foi revertido graças aos feitos de uma mulher com uma cauda de macaco.

(MARTIN, George R. R.; GARCÍA JR.; Elio, ANTONSSON, Linda. A Longa Noite. O Mundo de Gelo e Fogo. São Paulo: Leya, 2015. Tradução de Marcia Blasques.)

Hyrkoon, o Herói ”, por Jordi González Escamilla para o Mundo de Gelo e Fogo

Nos anais de Mais a Leste, foi a Traição de Sangue, como sua usurpação foi chamada, que inaugurou a era de escuridão chamada Longa Noite. Desesperada com o mal que fora solto na terra, a Donzela-feita-de-Luz deu as costas para o mundo, e o Leão da Noite chegou com toda sua ira para punir as fraquezas dos homens.

Quanto tempo a escuridão durou nenhum homem pode dizer, mas todos concordam que foi só quando um grande guerreiro ‒ conhecido como Hyrkoon, o Herói, Azor Ahai, Yin Tar, Neferion e Eldric Caçador de Sombras ‒ surgiu para dar coragem à raça dos homens e liderar os virtuosos em batalha com sua espada brilhante Luminífera que a escuridão foi condenada à derrota, e a luz e o amor retornaram mais uma vez ao mundo.

(MARTIN, George R. R.; GARCÍA JR., Elio; ANTONSSON, Linda. Os Ossos e além: Yi Ti. O Mundo de Gelo e Fogo. São Paulo: Leya, 2015. Tradução de Marcia Blasques.)

A primeira vez que ouvimos falar sobre uma figura heroica durante a Longa Noite, foi em A Guerra dos Tronos, através das histórias da Velha Ama sobre o Último Herói. Embora não haja evidencias textuais apontando que Azor Ahai/Príncipe Prometido e o Último Herói se tratam do mesma figura, podemos especular se este não foi o nome que tal “salvador” assumiu através das lendas disseminadas pelos primeiros homens ou se é o caso de vários heróis surgindo ao mesmo tempo em variadas culturas do mundo para combater a Longa Noite.

– Ah minha doce criança do verão … que sabe de medo? Medo pertence ao inverno, meu pequeno senhor, quando as neves se acumulam até três metros de profundidade e o vento gelado uiva do norte. O medo pertence à Longa Noite, quando o sol esconde o rosto durante anos e as crianças nascem, vivem e morrem sempre na escuridão, enquanto os lobos gigantes se tornam magros e famintos, e os Caminhantes Brancos se movem pelos bosques.

Os Outros … Há milhares e milhares de anos, caiu um inverno que era mais frio, duro e infinito que qualquer outro na memória do homem. Chegou uma noite que durou uma geração, e tanto tremeram e morreram os reis em seus castelos como os criadores de porcos em suas cabanas. As mulheres preferiram asfixiar os filhos a vê-los passar fome, e choraram, e sentiram as lágrimas congelarem em seu rosto. Nessa escuridão, os Outros vieram pela primeira vez. (…) Eram coisas frias, mortas, que odiavam o ferro, o fogo, o toque do sol e todas as criaturas com sangue quente nas veias. Arrasaram fortificações, cidades e reinos, derrubaram heróis e exércitos às centenas, montando seus pálidos cavalos mortos e liderando hostes de assassinados. Nem todas as espadas dos homens juntas logravam deter seu avanço, e até donzelas e bebês de peito neles não encontravam piedade. Perseguiam as donzelas através de florestas congeladas e alimentavam seus servos mortos com a carne de crianças.

Esses foram os tempos antes da chegada dos Ândalos, e muito antes de as mulheres terem fugido das cidades do Roine através do Mar Estreito, e os cem reinos desses tempos eram os reinos dos Primeiros Homens, que tinham tomado essas terras dos Filhos da Floresta. Mas aqui e ali, nos bosques mais densos, os filhos ainda viviam em suas cidades de madeira e colinas ocas, e os rostos das árvores mantinham-se vigilantes. E assim, enquanto o frio e a morte enchiam a terra, o Último Herói decidiu procurar os Filhos da Floresta, na esperança de que sua antiga magia pudesse reconquistar aquilo que os exércitos dos homens tinham perdido. Partiu para as terras mortas com uma espada, um cavalo, um cão e uma dúzia de companheiros. Procurou durante anos, até perder a esperança de chegar algum dia a encontrar os filhos da floresta em suas cidades secretas. Um por um os amigos morreram, e também o cavalo, e por fim até o cão, e sua espada congelou tanto que a lâmina se quebrou quando tentou usá-la. E os outros cheiraram nele o sangue quente e seguiram-lhe o rastro em silêncio, perseguindo-o com matilhas de aranhas brancas, grandes como cães… (MARTIN, George R. R.  Bran  IV . A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010, cap. 24. Tradução de Jorge Candeias.)

O Último Herói

No Norte, falam sobre o último herói que buscou ajuda dos filhos da floresta, com seus companheiros o abandonando ou morrendo um a um enquanto enfrentavam gigantes vorazes, servos gelados e os próprios Outros. Sozinho, ele finalmente encontrou os filhos, apesar dos esforços dos caminhantes brancos, e todas as histórias comprovam que este foi um momento de virada. Graças aos filhos da floresta, os primeiros homens da Patrulha da Noite se uniram e foram capazes de lutar – e vencer – a Batalha da Aurora: a batalha final que acabou com o inverno sem fim e mandou os outros de volta ao norte congelado. MARTIN, George R. R.; GARCÍA JR.; Elio, ANTONSSON, Linda. A Longa Noite. O Mundo de Gelo e Fogo. São Paulo: Leya, 2015. Tradução de Marcia Blasques.)

Todavia, uma outra citação que merece nossa atenção em relação ao Príncipe que foi Prometido, ocorre  entre Sor Barristan Selmy e Daenerys Targaryen durante o quinto livro da série, A Dança dos Dragões, onde descobrimos o seguinte:

– Vi o casamento de seu pai e sua mãe também. Me perdoe, mas não havia carinho ali, e o reino pagou caro por isso, minha rainha.

– Por que se casaram se não amavam um ao outro?

– Seu avô ordenou. Uma bruxa do bosque dissera para ele que o príncipe prometido nasceria da linhagem deles.

– Uma bruxa do bosque? – Dany estava atônita.

– Ela chegou à corte com Jenny de Pedrantiga. Uma coisa atrofiada, grotesca de se ver. Uma anã, a maioria das pessoas diria, apesar de cara à Senhora Jenny, que sempre afirmou que a mulher era uma das filhas da floresta.

– O que aconteceu com ela?

– Solar de Verão. – As palavras estavam cheias de condenação.

Dany suspirou.

– Deixe-me agora. Estou muito cansada. (MARTIN, George R. R. Daenerys V. A Dança dos Dragões. São Paulo: Leya, 2012, cap. 30.)

Segundo Sor Barristan, uma bruxa da floresta havia dito que o Príncipe que foi Prometido nasceria da linhagem de Jaehaerys II, avô de Daenerys, e que por isso ele obrigou os seus filhos Aerys e Rhaella, a se casarem, mesmo contra a vontade de ambos. E isso revela o quão importante era essa profecia para a casa Targaryen. Contudo, em  A Tormenta de Espadas, descobrimos que a estranha anã descrita por Sor Barristan, na qual ele acreditava ter perecido na tragédia de Solarestival (Solar de Verão), está aparentemente bem viva e ressurge na história como a Fantasma de Coração Alto . E como sabemos isso?Através dos capítulos de Arya Stark em sua passagem como prisioneira do bando de fora da leis conhecido como A Irmandade Sem Bandeira. 

Junto às brasas da fogueira, viu Tom, Limo e Barba-Verde conversando com uma mulherzinha minúscula, uns trinta centímetro mais baixa do que Arya e mais velha do que a Velha Ama, toda corcunda e enrugada, apoiada em uma bengala nodosa e negra. Seus cabelos brancos quase chegavam ao chão de tão longos e esvoaçavam em volta de sua cabeça como uma nuvem quando o vento soprava. A pele era ainda mais branca, da cor do leite, e pareceu a Arya que seus olhos eram vermelhos, embora fosse difícil ter certeza do meio dos arbustos.  (MARTIN, George R. R.  Arya VIII . A Tormenta de Espadas. São Paulo: Leya, 2011, cap. 43. Tradução de Jorge Candeias.)

Fantasma de Coração Alto. Fonte:  Aplicativos Amino

A anã estudou-a com seus sombrios olhos vermelhos.

– Estou vendo você. – sussurrou –  Estou vendo você, criança lobo. Criança de sangue. Achava que era o lorde que cheirava a morte… – Começou a soluçar, fazendo estremecer o seu pequeno corpo –  É cruel por vir ao meu monte, cruel. Empanturrei-me de pesar em Solarestival (Solar de Verão), não preciso do seu. Desapareça daqui, coração negro. Desapareça.

[…]

– Quero agora o meu pagamento. Quero a canção que me prometeram.

E então Limo despertou Tom Sete-Cordas de debaixo de suas peles, e trouxe-o bocejando até junto da fogueira com a harpa na mão.

– A mesma canção de sempre? – perguntou.

Ah sim, a canção da minha Jenny. Existe mais alguma?

E ele assim cantou, e a anã fechou os olhos e começou a balançar o corpo lentamente de um lado para o outro, murmurando palavras e chorando. Thoros pegou firmemente na mão de Arya.

– Deixe-a saborear a canção em paz. É tudo que lhe resta. (MARTIN, George R. R.  Arya VIII . A Tormenta de Espadas. São Paulo: Leya, 2011, cap. 43. Tradução de Jorge Candeias.)

A Jenny da canção pedida pela Fantasma, é provavelmente a Jenny de Pedras Velhas (Pedrantiga) que chegou na corte ao lado da anã e casou com Duncan Targaryen, que abriu mão do seu direito ao Trono de Ferro por ela.

Embora Sor Barristan mencione que a Fantasma era uma filha da floresta, o mais provável é que ela seja uma vidente verde, com sonhos verdes que são sempre certeiros e nunca mentem. Videntes verdes costumam ter os olhos vermelhos ou verdes musgo como os de Jojen Reed. Além disso, Jojen Reed é um cranognomo, um povo conhecido por sua baixa estatura e cuja lenda conta que eles descendem dos filhos da floresta, o que explicaria o seu tamanho. Talvez a Fantasma seja na verdade uma cranognomo, além de ser albina como outro vidente verde, Bryden River, mais conhecido como O corvo de Sangue, ou se você preferir, o Corvo de Três Olhos de Bran.

II – REQUISITOS NECESSÁRIOS PARA O CUMPRIMENTO DAS PROFECIAS DE AZOR AHAI E DO PRÍNCIPE QUE FOI PROMETIDO

A seguir, listei algumas das condições mais primordiais que parecem estar relacionadas com o renascimento de Azor Ahai:

  • O término de um longo verão;
  • Uma estrela vermelha que sangra;
  • A reunião de forças das trevas, o bafo frio da escuridão, a longa noite;
  • Renascimento em meio a fumaça e sal;
  • Despertar dragões de pedra;
  • Retirada das chamas de uma espada chamada Luminífera.

Príncipe que foi prometido:

  • É uma mesma figura messiânica que Azor Ahai;
  • Nascerá da linhagem Targaryen, segundo a Fantasma de Coração Alto;
  • É um Príncipe ou uma Princesa, segundo meistre Aemon
  • Sal, fumaça e uma estrela sangrenta estão relacionados ao seu renascimento;
  • O retorno dos dragões está relacionada com a sua vinda, segundo meistre Aemon;

Outras menções feitas a Azor Ahai e ao Príncipe que foi prometido ao longos dos livros:

  • Azor Ahai refará o mundo e triunfará sobre a escuridão, segundo Benerro;
  • A Canção de Gelo e Fogo, pertence ao Príncipe que foi Prometido, segundo Rhaegar Targaryen;
  • O Príncipe que foi Prometido está relacionado com “três cabeças do dragão”, segundo Rhaegar e Aemon Targaryen;
  • O herói renascerá no mar, segundo Melisandre.

          “O Príncipe que foi Prometido”, ilustração de Marco Caradona para o jogo de cartas das Crônicas de Gelo e Fogo. © Fantasy Flight Games.

Embora existe um intenso debate entre os leitores de As Crônicas de Gelo e Fogo, em relação a qual personagem poderia cumprir a profecia de Azor Ahai, a verdade é que quando levamos em consideração que Azor Ahai e o Príncipe que foi Prometido são na verdade a mesma figura profética, a profecia feita pela Fantasma de Coração Alto a Jaeharys Targaryen, de que o príncipe nasceria da linhagem dele, coloca um filtro significativo em nossas possibilidades. Até o momento, podemos considerar apenas os seguintes personagens como descendentes diretos de Jaehaerys II: os filhos de Jaehaerys, Aerys II e Rhaella;  seu neto  Rhaegar Targaryen e seus filhos, Rhaenys e Aegon Targaryen; seus netos  Daenerys e Viserys Targaryen; Jon Snow (se você considerar Reaghar + Lyanna = Jon Snow) ; Tyrion Lannister (se você considerar Aerys + Joanna = Tyrion Hill); seu bisneto nanimorto, Rhaego,  filho de Daenerys e Khal Drogo.

Rhaegar, Rhaenys, Viserys, Rhaego, Aerys II e sua irmã / esposa Rhaella Targaryen estão atualmente mortos na história. A morte de Aegon no Saque de Porto Real no entanto, ainda não pode ser inteiramente confirmada, uma vez que um novo personagem conhecido como Jovem Griff, reaparece na história se dizendo ser o filho sobrevivente de Rhaegar e Elia Martell . Isso nos deixa apenas com Daenerys, Jon, Jovem Griff e Tyrion como os candidatos mais prováveis ​​a desempenhar o papel de Azor Ahai.

III – DESMITIFICANDO A NOÇÃO DE STANNIS BARATHEON COMO AZOR AHAI

É através do arco de Stannis Baratheon que pela primeira ouvimos sobre a profecia de Azor Ahai, no qual ele aparece através da crença de Melisandre de Asshai como o herói renascido.  Porém, a medida em que a série avança e nos é dado novos elementos do quebra cabeça de Azor Ahai, vai ficando cada vez mais evidente que Melisandre está interpretando erroneamente a profecia. Abaixo reuni alguns dos pontos mais evidentes da narrativa, que rechaçam a ideia de Stannis como Azor Ahai:

a) Embora Stannis descenda de um ramo Targaryen pelo lado paterno, ele não é um descendente direto de Jaehaerys II, mas sim de sua irmã mais nova, Rhaelle Targaryen, que casou-se com Orys Baratheon.

b) Podemos começar dizendo que apesar de Robert Baratheon ter assumido o Trono de Ferro ao final da rebelião que destronou os Targaryens, Stannis nunca assumiu uma posição de príncipe, mas continuou como senhor, neste caso de Pedra do Dragão.Os Targaryens, mesmo aqueles que não estavam na linha de sucessão, comunalmente assumiam o título de príncipe, sendo o mais importante dele, o de Pedra do Dragão, geralmente assumido pelo futuro herdeiro do Trono de Ferro.

c) Melisandre acredita que Stannis é Azor Ahai por causa da Pedra do Dragão, que é localizada em uma ilha vulcânica e segundo ela é o lugar de fumaça e sal e o local onde Stannis despertaria o seu dragão de pedra, mas conforme aponta Jon Snow, Stannis não nasceu em Pedra do Dragão, ele é um Baratheon de nascimento, nascido em Ponta Tempestade como seus irmãos;

– Ele não está morto. Stannis é o escolhido do Senhor, destinado a liderar a luta contra a escuridão. Vi isso em minhas chamas, li nas antigas profecias. Quando a estrela vermelha sangrar e as trevas aumentarem, Azor Ahai renascerá entre fumaça  e sal para despertar os dragões de pedra. Pedra do Dragão é o lugar de fumaça e sal.

Jon já ouvira tudo isso antes.

-Stannis Baratheon era o Senhor de Pedra do Dragão, mas não nasceu ali. Nasceu em Ponta Tempestade, como seus irmãos. (MARTIN, George R. R. Jon  X. A Dança dos Dragões. São Paulo: Leya, 2012, cap. 49.)

d) Stannis se queima ao retirar a suposta  Luminífera das chamas e onde já se viu um herói se queimado pela sua própria espada?

O rei mergulhou no fogo de dentes cerrados, segurando o manto de couro à sua frente para manter as chamas afastadas. Dirigiu-se diretamente à Mãe, agarrou a espada com a mão enluvada e a libertou da madeira ardente com um único puxão forte. Então recuou, com a espada bem erguida e as chamas verde-jade a rodopiar em volta do aço cor de cerja. Guardas correram na sua direção a fim de sacudir as fagulhas que se prendiam à roupa do rei.

– Uma espada de fogo! – Gritou a Rainha Selyse. Sor Axell Florent e os outros homens da rainha acompanharam-na no grito. – Uma espada de fogo!Ela arde!Uma espada de fogo!

Melisandre ergueu as mãos sobre a cabeça.

Contemplem!Um sinal foi prometido, e agora um sinal é visto!Contemplem a Luminífera!Azor Ahai regressou!Deem vivas ao Guerreiro da Luz!Deem vivas ao Filho do Fogo!

Uma onda irregular de gritos respondeu no momento em que a luva de Stannis começava a ficar incandescente. Praguejando, o rei enterrou a ponta da espada na terra úmida e apagou as chamas com pancadas na perna.  (MARTIN, George R. R. Davos I A Fúria dos Reis. São Paulo: Leya, 2011, cap. 10. Tradução de Jorge Candeias.)

e) Meistre Aemon percebe que a espada que Stannis possui não emana calor e quando descobre que os dragões foram revividos, chega a conclusão de que Stannis de fato não é o Príncipe que foi Prometido.

-Terá de ser você. Conte-os. A profecia…  A senhora Melisandre leu mal os sinais. Stannis …  Stannis tem um pouco de sangue de dragão, é verdade.  Os irmãos também tinham. Rhaelle, uma filhinha do Ovo, foi através dela que arranjou… Uma mãe do pai deles… Costumava chamar-me Tio Meistre quando era pequena. Lembrei-me disso, por isso me permitir ter esperança… talvez quisesse... Acima de todos Melisandre, creio eu. A espada é uma falha, ela precisa saber disso … Luz sem calor … Um brilho vazio … A espada é a errada, ea luz falsa pode nos levar para uma separação mais profunda …. (MARTIN, George RR Samwell IV). Festim dos Corvos. São Paulo: Leya, 2012, cap. 35. Tradução de Jorge Candeias.)

f) Stannis é provavelmente uma das três mentiras em que Daenerys ver durante sua passagem pela Casa dos Imortais e que provavelmente ela terá que “matar”. O curioso disso é que Stannis como uma suposta mentira aparece no mesmo livro em que o conhecemos como Azor Ahai através da crença de Melisandre;

Brilhando como o pôr do sol, uma espada vermelha foi erguida na mão de um rei de olhos azuis que não projetava sombra. Um dragão de pano oscilou em mastros por cima de uma multidão exultante. De uma torre fumegante, um grande animal de pedra levantou voo, exalando fogo de sombras… Mãe de dragões, matadora de mentiras… (MARTIN, George R. R. Daenerys III, A Fúria dos Reis. São Paulo: Leya, 2011, cap. 40. Tradução de Jorge Candeias.)

g) O papel de Stannis na história parece ser o de mostrar a natureza obscura e traiçoeira das profecias.  Ao desejar o Trono de Ferro a qualquer custo, por acreditar que ele lhe pertence por direito, Stannis já cometeu fratricídio e regicídio fazendo uso das escura feitiçaria de Melisandre.  Sua história soa muito mais como algo trágico e amargo do que heroico. Como diz meistre Aemon, “falsa luz pode levar a uma escuridão ainda mais profunda”. Particularmente, e aqui deixo minha opinião pessoal, acredito que no final Stannis poderá ironicamente se tornar tudo aquilo que Melisandre almeja combater. Ele já está no local certo, no Norte e embora o Rei da Noite nos livros não passe de uma lenda, existe uma dose considerável de prefigurações no texto que aproximam Stannis de tal figura obscura, começando pela presença de uma mulher bela e com olhos irreais (no caso Melisandre)  e o uso de feitiçaria. Melisandre que desejava levá-lo ao auge para cumprir seus próprios interesses, pode ser sua ruína ao final de tudo. 

CONCLUSÃO

Nesta primeira parte, procurei esmiuçar os vários elementos espalhados pelos livros que remontam a figura profética de Azor Ahai e o Príncipe que foi Prometido, mostrando como essas duas figuras podem ser na verdade apenas uma. Tanto meistre Aemon, quanto Melissandre de Asshai aparecem em algumas passagens associando as duas profecias, o que nos fornece bases sólidas para aproximá-las e relacioná-las.

Se considerarmos os sonhos verdes da Fantasma de Coração Alto, o Príncipe que foi Prometido terá origem na linhagem de Jaeharys II, o que nos deixa com poucas opções para pensarmos na figura do herói, sendo Daenerys, Jon Snow, Jovem Griff e Tyrion Lannister os personagens mais adequados para cumpri-las.

Na continuação dessa série, irei explicar a relação de cada um desses personagens com a profecia de Azor Ahai, e qual deles é o candidato mais provável para cumpri-la. Até lá! 🙂

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Um pensamento sobre “[Análise] A Canção de Gelo e Fogo: a profecia de Azor Ahai e o Príncipe que foi Prometido (part I)

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