[RESENHA] As Quatro Estações – Stephen King [Parte 2]

Hoje continuamos as resenhas das novelas apresentadas na coletânea “As Quatro Estações” (Different Seasons), de Stephen King, lançada no Brasil pela Suma. As quatro novelas apresentadas no livro são bem diferentes entre si, então resolvemos fazer uma resenha para cada. Caso esteja lendo esta primeiro, não deixe de conferir também a primeira parte, sobre a primeira novela, “Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank”.

E “Shawkhank”, como dissemos, era um ponto de partida para um King que muita gente (infelizmente) desconhece: com uma narrativa mais dramática, tendo aquele senso de humor ácido que equilibrava o tom da história, nos lembrando que ainda estávamos diante de mais uma excelente narrativa do mestre. Já “Aluno Inteligente” é bem mais próximo do que esperaríamos dele. Mas como? Melhor começar de verdade a resenha para explicarmos melhor…

Mas antes, um rápido lembrete: a resenha pode conter leves spoilers, afinal, “As Quatro Estações” já está por aí há um bom tempo. Ainda assim, tentaremos não estragar a história. Promessa.

Aluno Inteligente – Uma história instável sobre almas podres

“Aluno Inteligente” se passa em 1974, e conta a história de Arthur Denker, um senhor idoso, aparentemente inofensivo, que tem sua vida revirada, quando invadida por Todd Bowden, o perfeito pré-adolescente americano, aparentemente inofensivo. O jovem Todd sabe quem Arthur realmente é: Kurt Dussander, um nazista, criminoso de guerra que nunca havia sido encontrado. O jovem Arthur estava obcecado pelo genocídio promovido pelos nazistas, desde que estudara sobre a Segunda Guerra Mundial, e então passa a chantagear Dussander para conta-lo diariamente histórias sobre estes tempos sombrios. O fascínio do jovem é sádico: ele quer saber detalhes sobre a carnificina dos cruéis procedimentos e será capaz de tudo para extrair informações que satisfaçam sua ânsia.

O que se estabelece a seguir é um relacionamento abusivo de via dupla. Temos um sádico jogo de poder, com suas reviravoltas. Se a princípio Todd é quem está no controle do jogo, noutros momentos Denker/Dussander é quem pode tomar controle. A chantagem de Todd custará caro para os dois personagens, que começam a deixar aflorar o lado mais podre de suas almas – talvez suas verdadeiras faces. É interessante o quanto a narrativa pode fazer o leitor se questionar o quanto Dussander é uma vítima, ou simplesmente alguém que, mesmo que forçadamente, apenas volta a ser ele mesmo.

A história segue os protagonistas por cerca de quatro anos, e talvez este seja o defeito da história: o que se passa nos primeiros meses da relação entre Todd e Dussander nos entrega uma trama interessante, de crueldades inacreditáveis. No entanto, conforme os anos vão se passando, a rede de mentiras progressivamente pesada que foi criada para manter esse relacionamento parasital entre estes dois homens, me parece cada vez mais surreal. E sim, estamos falando de ficção, mas até ela tem sua lógica – e quando esta é forçada demais e quebra, o leitor não vai comprar qualquer desfecho que venha a seguir. E este é o caso aqui.

“Aluno Inteligente” foi adaptado para a telona com o título “O Aprendiz” (“Art Pupil”), dirigido por Bryan Singer e estrelado por Ian McKeller e Brad Renfro. O longa completou recentemente vinte anos de lançamento.

A segunda metade da novela nos entrega situações forçadas demais, e a única coisa que sustenta nossa vontade de seguir lendo é entender até onde vai a forçação de barra a crueldade cada vez mais manifestada dos protagonistas. Corrupção e assassinatos sem elementos sobrenaturais é o que diferencia a história do que vemos normalmente de King, e até nos lembra no brilhante “Mr. Mercedes”.

Outros personagens bem presentes na história, além dos dois protagonistas, são os pais de Todd: o perfeito retrato de pais felizes que não fazem ideia do monstro que criaram como filho. Ao longo de anos, e Todd Bowden segue escondendo segredos cada vez mais perigosos de seus pais, que mal o percebem – que é o que acontece, afinal, na realidade de muitos por aí.

Ao final da leitura, “Aluno Inteligente” nos traz uma ideia interessante, bem executada até o momento em que começa a ser esticada demais. Enquanto nos traz o desenvolvimento de duas pessoas “aparentemente inofensivas” para serial killers, ainda promove uma interessante reflexão da relação entre aparências e essências… e sobre como podem ser podres e corruptos os pilares que sustentam o Sonho Americano.

 


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