[Crítica] Um lugar silencioso

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Um Lugar Silencioso, no original A Quiet Place, é um filme de suspense dirigido pelo ator Jhon Krasinski e se passa num futuro pós apocalíptico, não muito distante, em que a Terra foi invadida por misteriosas criaturas que atacam implacavelmente a partir de um certo nível de ruído, de forma que ninguém, nem mesmo os próprios personagens compreendem corretamente de onde vieram e o que são exatamente as criaturas.

Em meio a este cenário, impregnado de tensão e dos mais variados sentimentos, somos tragados para dentro do cotidiano de uma família do centro-oeste dos Estados Unidos, composta pelo pai (Jhon Krasinski), pela mãe (Emile Blunt), por um filho (Noah Jupe) e pela filha (Millicent Simmonds), que tem deficiência auditiva. Culpa, aceitação e uma gravidez no meio do caminho, são alguns dos ingredientes que contribuem para tornar a experiencia desta família ( e a do espectador) ainda mais aflitiva.

Um lugar silencioso talvez seja aquele tipo de longa que cai naquela categoria de “ame e odeie” como Mãe e Interestelar. Isso porque é um filme que propositalmente deixa mais perguntas do que respostas.  O roteiro escrito por Bryan Woods e Scott Beck, é dúbio em sua própria essência, de forma que encerramos o filme sem sequer saber o nome dos principais personagens. Muitas coisas são sugestivas, tipo o que a mãe e o pai eram antes da chegada das criaturas.

Fica notável ainda, que os próprios personagens não entendem direito contra o quê estão lutando para sobreviver. Tudo o que sabem das criaturas é que são cegas, são atraídas por um certo nível de som, são extremamente rápidas, violentas e predadoras por excelência.

Ao partir dessa premissa, o longa proporciona uma abordagem no minimo interessante, já que um dos segredos para sobrevivência neste cenário caótico, é o próprio silêncio. Assim, acompanhamos um filme com diálogos escassos e que se apoia na expressão dos personagens, no som e na trilha sonora como base de sustentação.

No primeiro caso, é algo parecido com a atuação de Di Caprio em o Regresso, já que a escassez de diálogos exige mais da expressão facial dos personagens, como uma grande ressalva para boa atuação de Emile Blunt. A trilha sonora confere momentos tensos e sufocantes, então se você estiver envolvido com o que ver em tela, dá uma acelerada no coração e rola aquela tampada nos olhos com a coberta ou mãos. Porém, é o som o grande protagonista de um longa que se constrói em cima da ausência do som. O barulho da água correndo por um rio, de uma queda d’água, o som do vento, um bater de um coração em um estetoscópio, a canção que brota de um fone de ouvido. Tudo tão honesto e lindo. O som da vida. Do mundo que nos rodeia.

Vivemos num mundo cuja poluição sonora é tão recorrente, que por vezes não percebemos e tão pouco damos valor aos sons que verdadeiramente importam. A capacidade de falar ou nos comunicar através de um código de signos (língua) é o que nos diferencia das demais espécies e a quase ausência de sons humanos no longa nos faz divagar como seria um mundo sem nós. Sem todos os nossos barulhos engenhosamente fabricados como fica subentendido na cena em que um dos filhos do casal brinca dentro de um carro que não pode acelerar ou quando em um outro momento, um deles brinca com um foguete que não pode fazer barulho. É a plena ausência do que nós faz ser o que somos.

Em contrapartida, uma outra parte do somos permanece em tela: nossa perseverança  para sobreviver, nossa engenhosidade para construir, nossa criatividade para lhe dar com as situações adversas e a toda a nossa capacidade e coragem de proteger aqueles que amamos. A família é uma metáfora de tudo isso, um bolsão humano no meio de um milharal cercado por feras, mas ainda uma representação de tudo o que somos.

Estamos tão ligados ao som, que não é irreal pensar que poderíamos ser extintos pelo excesso dele. Nossa poluição sonora é tão grande, que se algo assim acontecesse, poderíamos de fato ser extintos em dias ou mesmo horas. O som passa por tudo o que fazemos. Mesmo quando não o escutamos. Nos comunicamos através dele, criamos e destruímos por intermédio do mesmo. Então a grande provocação lançada pelo filme é a seguinte: como combater o que se alimenta dele?

Por fim, não poderia deixar de falar do papel social que o longa trás com ele e a mensagem que carrega consigo. A língua de sinal, muito usado pela família que tem uma filha surda, é o que facilita a comunicação entre eles e consequentemente garante sua sobrevivência. Uma coisa que todos nós deveríamos aprender para a construção de uma sociedade mais igualitária. Aqui o som representa a vida e a morte. E não escutar não te torna menos precioso.

O que muitos consideraram “furos de roteiro, em alguns pontos eu avaliei como consequência de um roteiro ambíguo cuja a maior função é a de não nos dar respostas prévias. Por que andam descalços?Como possuem energia elétrica?São questões subjetivas cujas respostas poderiam ser da seguinte forma: precaução da família que perde um filho logo no inicio, energia solar ou um outro tipo de tecnologia que não existe na nossa realidade etc. São questões ocultas no roteiro, de propósito, da mesma forma que fica oculto o nome de cada membro da família abordada.

Ao  não optar pelos diálogos convencionais, o longa se abstêm de longos discursos didáticos ou mesmo de locução em off explicando os fatos e os porquês como se o espectador tivesse 5 anos de idade. Diversos objetos cenográficos desempenham esse papel, alguns mais evidentes (como os cartazes), outros mais sutis, exigindo a máxima atenção do espectador.

Em meio a um milharal, numa referencia a filmes clássicos como “Sinais”, a família é apenas um dos ramos que sobrou da humanidade, um farol de luzinhas vermelhas em meio a escuridão que caiu sobre nós.

Confira o trailer:

 

 

 

 


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