[Resenha] A Idade Média Narrada por um Vampiro

Interessei-me por este livro ao encontrá-lo por um acaso em um evento literário no final do ano passado onde a editora Luva possuía estande, e após ler sua sinopse achei interessante de modo relevante quando em conversa o editor da obra disse-me que a autora era mestra na área de história, pois imaginei então que ela utilizaria seus estudos para compor bem um personagem vampiro vivendo na época a qual ela estudava.

Bom, ao longo desta resenha demonstrarei como estive certa em minhas deduções acerca de estar diante de uma obra vampiríca que dá à narrativa profundidade histórica como somente uma estudiosa poderia dar, se valendo da longevidade do personagem para abordar fatos reais de modo peculiar na visão subjetiva de alguém que os estaria presenciando de fato.

A “Idade Média Narrada por um Vampiro” abandona clichês já muito utilizados constantemente de forma banal e pueril na cultura pop, e revisita outros mais interessantes, presentes em referências mais antigas, para compor uma história original e ao mesmo tempo com viés clássico.

Contudo possui surpreendente eficácia em ir mais além. Importante ressaltar que para quem procura tramas vampíricas mescladas a romance adolescente não as encontrará neste livro… Mas sim os coliseus, catacumbas e castelos, onde existe a possibilidade de se encantar com uma aventura mais dinâmica em uma história bem mais inteligente sobre o tema, e que confere uma atmosfera focada no vampirismo clássico e ao mesmo tempo uma escrita que o traz de forma repaginada, com pitadas de humor que dão certa leveza à uma história que teria tudo para ter tanta tensão quanto sua capa aparenta.

Contudo tende a se manter bem mais no plano das ideias e da filosofia do que dos dramas normalmente associados à figura do vampiro em outras narrativas que exploram a ideia da eternidade associada à certa melancolia – aqui a vida eterna aparece mais atrelada à curiosidade do protagonista e descobertas feitas pelo mesmo acerca das coisas do mundo e de como ele funciona na época em que vive.

Assim vemos que própria sinopse é composta pela apresentação de seu excêntrico narrador-protagonista, que certamente de melancólico não tem nada:

“Boa noite caros senhores, boa noite caras senhoras. Permitam-me que eu me apresente. Chamo-me Demétrius e sou tão velho quanto me lembro de ser. Demétrius somente. Esqueci o resto do meu nome nas areias de um tempo muito antigo. Eu vi o Império Romano arrojar-se em sua queda e vi a sua destruição. Vi o grande imperador Carlos Magno tornar-se um senhor coroado por um manto de estrelas. Querem saber mais sobre mim? Ouçam a minha história! Eu irei lhes contar a verdadeira história da Idade Média… Coisas que só um vampiro poderia saber.”

…Um vampiro, ou a mente acadêmica que o criou… E a autora de fato inicia a história quando Demétrius, ainda humano, nutre a curiosidade pelos mistérios que rodam um antigo teatro grego abandonado nas proximidades da vila onde ele até então habita…

Então antes de mais nada aviso aos leitores que para ler este livro é necessário que nos preparemos para uma inusitada viagem à média – incluso o início desta, que no imaginário popular tende a ser confundido com a antiguidade…

Refiro-me à época em que os romanos traziam leões da África para espetáculos sangrentos em seu coliseu, quando os primeiros cristãos aparecerem, passando pelas noites ermas nas vilas atacadas pela peste negra e pelos dias em que santo Agostinho ainda caminhava pela terra.

Com uma narrativa que o que tem de sangrenta, tem ainda mais de divertida e notoriamente criativa, utilizando com competência e precisão os conhecimentos da autora e professora acadêmica Marcia Medeiros – adquiridos em seus estudos na área da História Cultural – e dando à história de nosso vampiro um ótimo panorama da era medieval em alguns de seus diferentes momentos históricos – alguns não tão explorados por outras mídias, o que faz a abordagem deste tema ser feita aqui de modo único a não soar como algo já visto antes.

Tais passagens da idade média aparecem vistas de modo peculiar e com uma notória dose de humor através dos olhos do simpático Demétrius e seu relato desde seus últimos momentos como humano e passando por sua vida vampírica, primeiramente ao lado de seu excêntrico criador – que possui um nome bem peculiar e de quem o protagonista herdará sua excentricidade – e posteriormente de outros protetores e desafetos que vai conquistando pelo caminho com o passar dos séculos de sua existência.

Aliás, permitam-me dizer que a diagramação e estética do livro são maravilhosas e bem contextualizadas dentro da temática. Um trabalho artístico realmente relevante tanto na capa, contracapa quanto nas ilustrações, diagramação e aparência das páginas – que nos fazem sentir como se lessemos de fato um “pergaminho antigo sujo de sangue envelhecido pelo tempo”…

Outra informação relevante que convém registrar, pois não me passou despercebido e não passará também a alguns leitores, foram as referências à clãs vampirícos do RPG, onde estes não são mencionados literalmente, mas me pareceram claros na descrição de alguns personagens, e certamente parecerão também aos olhos de quem mais os conhecer… Demétrius e seu criador vampiro, por exemplo, parecem pertencer a um destes clãs, de forma que para leitores que conhecerem “Vampiro: a Máscara” a referência salta loucamente aos olhos.

Em resumo a obra contempla temas como história e filosofia de maneira inteligente e descontraída, e pode ser além de uma grande fonte de conhecimento um livro memorável do ponto de vista estético e certamente leitura obrigatória para todos que apreciam vampirismo clássico ou pretendem se aprofundar no tema, correndo o risco de ser conquistados pelas aventuras e loucuras do “menino curioso” que se tornou vampiro graças à sua curiosidade, e por ela seguirá arranjando outras encrencas pela eternidade Europa à fora.


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