[Analisando Clássicos do Suspense e Terror] – Lendas do “folclore contemporâneo”

Saudações sombrias, fãs do terror e suspense! Então, já ouviram aquelas histórias de caráter sinistro que circulam boca a boca? (Ou circulavam mais antes da era da internet, e bem antes das ”creepy pastas”…)

Histórias como “a mulher do espelho”, “a van que leva criança”, o “homem da seringa”, “o boneco amaldiçoado”, aquela pessoa famosa que teria “feito pacto com diabo” para ter sucesso, o “LP que tocado ao contrário possuía mensagens subliminares satânicas”, o “sequestro relâmpago para roubo de órgãos”, e talvez até mesmo o outrora famoso “chupa-cabras” (…) entre outras histórias que em algum momento algumas pessoas acreditavam (ou queriam acreditar) e a maioria das pessoas mais velhas fingia não acreditar, mas jamais se atreviam a olhar no espelho num quarto escuro, alertavam os mais novos para tomar cuidado com traficantes de órgãos, tinham um relato sobre algo estranho ocorrido com um conhecido de infância ou se impressionavam quando jornais sensacionalistas abordavam tais notícias…

Em resumo, falo aqui do terror popular “cafona” e ao mesmo tempo saudoso e criativo  que sempre parecia ter sido baseado em algum filme antigo, e tal como a Wikipedia define:  “são pequenas histórias de caráter fabuloso ou sensacionalista, amplamente divulgadas de forma oral, por e-mails ou pela imprensa e que constituem um tipo de folclore moderno, e frequentemente narradas como sendo fatos acontecidos a um “amigo de um amigo” ou de conhecimento público”.

No entanto, apesar de eu apresentar o tema tomando como base os mitos urbanos brasileiros, para inteirar melhor a temática de modo a identificarmos que estes mitos não circulam em um único país, no filme mencionado aqui estaremos falando do folclore contemporâneo estadunidense exclusivamente, porque é no qual o roteiro se baseia, embora algumas das nossas lendas modernas tenham por vezes se baseado em outras culturas, incluindo a própria  norte americana.

Bom, e se em algum momento tais histórias fossem de fato verdade? Se aparecesse alguém que resolvesse torná-las reais em nome de uma vingança pessoal…? É precisamente desta questão que o citado e criativo roteiro que analisarei é feito.

Então, creio que já tenham notado que o clássico de hoje é “Lenda Urbana” (“Urban Legend” no original), dirigido brilhantemente por  Jamie Blanks, e com maravilhosa produção de Gina Matthews e  ótimo roteiro de Sílvio Horta em 1998, em plena febre do gênero de filmes com morte juvenil fomentada por “Pânico” e ‘Eu sei o que vocês fizeram no verão passado” anos antes (e este último inclusive já analisado por mim recentemente neste especial)… Possuo o conhecimento de que sites internacionais falam daquela época cinematográfica como um momento de  “releitura descolada do gênero slasher” consolidado décadas antes, e particularmente utilizando no elenco atores e atrizes já conhecidos do público estadunidense em outros programas de TV dos EUA.

Posso dizer sobre Lenda Urbana que tanto eu quanto outros espectadores julgamos ter sido um dos melhores filmes entre os slashers da década de 90 e é certamente uma criativa utilização de mitos soturnos contemporâneos muito bem representados em um filme onde a temática é exatamente mostrá-los acontecendo, através da brilhante ideia do roteiro ao colocá-los para acontecer dentro do campus de uma universidade, onde poderiam ocorrer  aulas sobre o assunto  – única aula que aparece em cena, inclusive – e cujo local também esconde sua própria lenda urbana: a lenda de Pendleton, um suposto massacre ocorrido décadas atrás, onde vários alunos teriam sido mortos por um professor, que logo depois se matara. A história do filme ocorre bem no momento em que as fraternidades da universidade se preparam para celebrar a data de aniversário de 25 anos do macabro massacre, que funciona como perfeito plano de fundo para as mortes que repentinamente começam a acontecer.

A primeira cena suspeita deste aqui é, segundo minha visão, uma das melhores elaboradas do gênero… Pois tudo começa quando uma jovem está dirigindo sozinha através de uma tempestade e, ao parar porque o carro está com pouca gasolina, é confrontada pelo atendente do posto (que posteriormente levará a culpa por sua morte). O interessante nesta cena é que a garota  de cara acha o frentista um cara realmente estranho – e de fato ele seria bem suspeito para uma mulher sozinha numa estrada chuvosa… Ela então pensa que ele está tentando atacá-la, o golpeia e foge, mas depois descobrimos que ele estava na verdade  tentando avisá-la de que havia alguém no   banco de trás de seu carro, alguém que em seguida corta sua cabeça. Seu nome era Michele Mancini (Natasha Gregson Wagner, que dois anos mais tarde seria a Mary, protagonista de Drácula 2000).

Na cena seguinte ficamos conhecendo alguns dos personagens, em um filme que de fato tem MUITOS realmente interessantes, com inclusive passagens de cena muito bem elaboradas. Engraçado é que a história se passa num campus de universidade, os personagens são todos universitários e em momento algum é mencionado quais cursos eles fazem… Contudo, alguns podemos deduzir – apesar disto ser informação talvez  pouco relevante –  como por exemplo, no início da cena vemos uma radialista em formação, Sasha Thomas (Tara Reid) uma garota super independente e mente aberta que terá posteriormente uma das mais ousadas mortes do filme.

Mas no momento Sasha está em seu programa de rádio sobre sexo, sendo ouvida por outros personagens universitários que estão bem acomodados nas poltronas do que parece ser uma espécie de sala comunal, e executam algo que eu já mencionei anteriormente neste especial e que particularmente adoro quando acontece nestes filmes: as temáticas  “conversas de mal agouro” que sempre dão todo o clima de uma trama como esta, logo após a primeira morte… Onde eles falam exatamente do famigerado Massacre de Pendleton, e a festa que uma das fraternidades de estudantes planeja fazer para celebrar o aniversário do massacre (e convenhamos que é bem a cara de um filme de terror sarcástico estadunidense “se fazer uma festa para comemorar um massacre”.

Então na conversa ficamos conhecendo figuras que terão papel importante na trama: Paul Gardner,  o relevante “garoto jornalista” (e o talentoso Jared Leto – Vocalista da banda 30 Seconds to Mars, venceu diversos prêmios musicais com sua banda por sua carreira como músico, deixando transparecer seu notório talento em outras áreas, atuou recentemente em Blade Runner 2049) que posteriormente será inclusive um dos suspeitos à “assassino”, Parker Riley (Michael Rosenbaum) um dos babacas do grupo – já que neste filme são pelo menos dois – que serve apenas para provocar os outros com ironias e como “casinho de Sasha” para a moça  “testar”  os conselhos sexuais que dá em seu programa, Natalie Simon  (Alicia Witt, a queridinha da crítica da época) a nossa protagonista um tanto quanto inexpressiva na maior parte do tempo ao meu ver e, por último e não menos importante, sua amiga Brenda Bates (Rebecca Gayheart, e esta sim atua com um talento notório, principalmente em suas últimas cenas no filme, quando a personagem apresenta “traços de loucura”) a quem descobriremos, além do sobrenome no mínimo interessante,   ser no tempo certo  (SPOILER GIGANTE) ninguém menos que a assassinA deste ótimo filme slasher! E exatamente por causa dela toda vez que eu escrever “assassinO” neste artigo o farei entre aspas.

Em seguida, andando pelo campus, e numa brincadeira bem estranha de “evocar os mortos” em frente ao prédio abandonado do pavilhão onde o tal massacre ocorrera – mais especificamente  usando a famosa evocação à “Bloody Mary” (talvez a lenda urbana estadunidense mais famosa mundialmente, junto com “o roubo do rim”) – Natalie Simon  e Brenda encontram Damon Brooks (Joshua Jackson) – o segundo babaca do grupo e talvez mais relevante dos dois, porém o típico marmanjo imbecilizado que foi para a faculdade mas mentalmente ainda não saiu do ensino médio. Penso que esta cena da Bloody Mary talvez tenha inspirado Lenda Urbana 3, o “patinho feio” da franquia, por tentar incorporar de maneira meio mal feita um elemento sobrenatural que esta trama nunca teve.

Então, seguindo para a próxima cena, em seu retorno ao  dormitório, já sem Brenda e ainda na mesma noite, Natalie   encontra sua companheira de quarto Tosh Guaneri  (Danielle Harris) um tanto quanto OCUPADA, e nota-se logo que elas não possuem uma relação de amizade quando a mocinha surpreende a outra simplesmente DURANTE uma relação sexual. Sobre Tosh tenho algumas particularidades a tratar aqui, como primeiramente o fato de ela ser gótica, totalmente antissocial, maníaco-depressiva, e que é posta no filme como uma pessoa estranha que apenas  faz procurar sexo com outros góticos  (interessante analisar que ela de fato tinha um critério seletivo para parceiros). Bom, devo mencionar que nem todos góticos se encaixam neste perfil – se é que podemos afirmar que ainda existe góticos cotidianamente na atualidade – mas nos anos noventa esta era a fama que possuíam, devido a fatores disseminados na cultura pop estadunidense aos quais talvez não me caiba mencionar aqui, ao menos que alguém quisesse saber.

O irônico é que, num filme onde temos também Sasha como uma descolada “praticante dedicada do Kama-Sutra”, e conselheira sexual num programa de rádio para todo o campus, já vi sites julgando Tosh  nem por causa de suas tendências autodestrutivas ou pelo modo antissocial de tratar as pessoas, mas exclusivamente por seu comportamento sexual. E o modo como ela morre está diretamente ligado a isto… Tal qual a maneira que outros alunos se comportam ante sua morte, fazendo piadas como “checa o pulso dela, ela já tem esta cara faz tempo”, ou ainda a preferência absurda de o reitor da universidade que mesmo com um corpo de uma aluna e uma mensagem na parede escrita com sangue – que pela lógica seria impossível ser escrita por alguém SANGRANDO gravemente – insiste em defender que Tosh havia se suicidado apenas levando seu estilo de vida em consideração e sem prosseguir sequer uma investigação decente no caso, e mesmo com Natalie Simon afirmando ter certeza de que havia mais alguém no quarto. Sei que estamos falando de um filme de morte, mas aqui o modo como a coisa toda ocorre sempre me fez pensar no quanto de moralismo hipócrita velado a morte de Tosh representa.

Posso dizer que há vários outros slashers que tratarão desta questão de que “merece morrer quem não tenha moralidade, ou seja, considerado pária ou desajustado para sociedade de alguma forma”… Costuma haver inclusive também um recorte racial nesta questão de “quem morre primeiro”, envolvendo filmes mais antigos, mesmo aqui ano sendo o caso… Se não hoje, pretendo tratar destes assuntos ainda em algum de meus artigos.

Bom, mas voltando à cronologia do filme, em uma aula alguns alunos discutem precisamente sobre lendas urbanas, e na classe estão as protagonistas Natalie e Brenda, então Robert Englund – ele mesmo, o merecidamente aclamado Freddy Krueger, de “A Hora do Pesadelo” – aparece no elenco como Professor Wexler, que ministra  uma disciplina que debate exatamente os nefastos mitos urbanos, tal como ele mesmo chama “folclore contemporâneo”, e assim eis o nosso título do artigo…e permitam-me dizer que se na realidade estas disciplinas existissem mesmo, eu ia amar estudar em Pendleton se ela existisse, com ou sem o Englund como professor.

Bom, pessoalmente eu acho que após interpretar o Senhor dos Pesadelos do Wes Craven, podemos dizer que o homem possui um PHD para lecionar tal temática! Sem mencionar que na minha opinião foi perdida uma oportunidade de piada referencial absolutamente válida – num filme que as utiliza lindamente todo o tempo – na cena em que Natalie e Paul invadem o escritório do citado professor e encontram lá vários artefatos suspeitos  que ele alega serem  utilizados aparentemente nas aulas de cunho sinistro que ministra.

Pensei quando apareceu um cabide de chapéus que seria uma tacada de mestre se ali estivesse simplesmente um que lembrasse o inconfundível chapéu do Freddy, ou algum instrumento que lembrasse suas garras. Mas, para além do que minha mente excêntrica pode articular, a questão é que a mencionada cena da invasão torna o Professor Wexler um suspeito, uma vez que vemos entre as coisas dele o agasalho com capuz usado pelo “assassino” e um machado que poderia muito bem ser o que  matou Michelle Mancini.

E neste trecho preciso comentar que aqui temos um “assassino” que não tem as famosas máscaras que costumam ser a marca registrada dos  slashers e sim um agasalho com capuz,  aliás semelhante ao que era também a capa de pesca do Ben Willes, nosso assassino-pescador em “Eu sei que vocês fizeram no verão passado”. E há outras similaridades entre os dois filmes as quais ainda comentarei antes do fim deste. Penso agora se talvez pela falta da tal máscara tanto Ben quanto Brenda quase nunca costumam ser lembrados nas “listas de slashers famosos”, apesar de seus filmes o serem… Embora no caso dela o simples fato do gênero feminino também seria infelizmente um elemento para que  não estar ao lado de caras como Michel Myers, Jason ou até Freddy na infeliz lógica do imaginário geral, onde somente um homem pode assumir o papel ativo  de alguém que possa ser capaz de matar.violentamente

Há inclusive uma rápida menção a esta questão do gênero da assassina (que acho sutil, mas brilhante) quando no finalzinho Natalie Simon  e Paul Gardner conversam sobre os assassinatos após terem sobrevivido aos mesmos, e Natalie  faz uma fala que considero uma das melhores: “Isto vai mudar um pouco de pessoa para pessoa, você vai se tornar um tira e Brenda um cara…”

Agora um comentário que considero relevante, pois me remeti em outra matéria deste especial a uma cena de um filme que abordava lendas urbanas americanas quando falei das conversas ocorridas entre os personagens de “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado” feito dois anos antes, que falavam de uma destas histórias antes mesmo das mortes de lá começarem… A lenda do “namorado enforcado numa árvore enquanto a namorada o escuta arranhar o capô do carro quando este sai ocasionalmente do mesmo”, que aparece acontecendo aqui com a morte de Damon testemunhada por Natalie, embora eles não namoraram.  E cheguei a supor se um filme não poderia ter inspirado o outro ou ao menos bebido das mesmas fontes.

Então, senhoras e senhores, as similaridades continuam provando que minha teoria em ligar indiretamente os dois filmes não é de todo  infundada, pois além de Brenda e Ben terem motivações de vingança semelhantes  causadas por um trágico atropelamento que em ambos os casos poderiam ter sido evitados, acho no mínimo coincidência que o nome do noivo da assassina morto por Natalie Simon  e Michelle Mancini  numa estúpida brincadeira de trânsito que imitava uma das lendas urbanas, seja DAVID EVANS, considerando que a primeira vítima de Ben Willes por ser culpado no acidente de carro que matara sua filha era o noivo dela, DAVID EGAN…

Teria mais a dizer sobre exatamente como neste filme não existe personagens bons e maus de modo muito claro, pois todos sempre possuem algum desvio de conduta, de moral, de ética ou uma “ficha criminal” escondida por uma carinha “inocente”. Queria falar mais também sobre como  as suspeitas passam pelo  “garoto jornalista”, como Reese Wilson (Loretta Devine) atua lindamente como única agente de segurança num campus tão grande e acaba sendo de fato uma heroína no contexto da história quando mais é preciso (o que é algo raro para uma mulher negra neste estilo de filme, principalmente antes dos anos 2000).

Ou dizer também sobre como a morte do reitor foi cômica e merecida, e a da nossa sexy radialista Sasha uma das melhores cenas de perseguição, onde você fica ali torcendo por ela mesmo sabendo que ela não vai ter chance… E principalmente a ousadia da assassina em matá-la com o microfone da rádio ligado para o campus inteiro ouvir, tal qual o descaso irritante dos alunos que ouvem e escolhem estupidamente interpretar os explícitos pedidos de ajuda como uma encenação.

Mas encerrarei este recomendando que vejam tais cenas por si mesmos, assistindo a este ótimo clássico e comentarei que o final é bem criativo e se vale muito bem dos ditos clichês…Pois caímos naquela regrinha clássica dos slashers que mencionei na matéria passada: “o assassino – no caso  ASSASSINA – vive para sempre”.


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