[Analisando Distopias]”Hino Nacional”: sociopatia, psicopatia e sadismo na internet

“Hino Nacional”: sociopatia, psicopatia e sadismo na internet

Você já fez ou compartilhou vídeos que mostrassem a miséria alheia?

É muito comum, hoje em dia, receber e compartilhar fotos de pessoas vítimas de alguma violência, acidente etc. É muito comum, também, rirmos daqueles que ridicularizam alguém que fala uma variante “engraçada” da língua (tal como a da mulher do “notebruik”, a da gaga de Ilhéus ou a da Sweetbrown nos Estados Unidos). Até pessoas que têm problemas de comunicação não escapam, como a da mulher do “sanduíche-íche” (que, na verdade, não era gaga. Enfim, são inúmeros os casos, os quais também vão a extremos sórdidos e cruéis, como o da autópsia do cantor Cristiano Araújo (amplamente divulgado nas redes sociais). Mas, agora, imagine que você recebe um vídeo, em que a princesa da família real se declara sequestrada e que o seu sequestrador exige que o Primeiro Ministro Britânico transe com um porco até às 16h de hoje e que isso seja transmitido ao vivo para a população…

Sobre o primeiríssimo episódio de Black Mirror, “Hino Nacional: a neta da rainha é sequestrada e a exigência do sequestrador da princesa da família real britânica (considerada a princesa do facebook, por sua presença nas redes sociais) era ver o Primeiro Ministro fazendo sexo com um porco: uma piada para a espetacularização do ridículo ou do sórdido (do sofrimento).

O vídeo da princesa em cativeiro, declarando a exigência, já havia se espalhado pelo YouTube num curtíssimo espaço de tempo. Depois de 9 minutos, milhares de pessoas já haviam feito download e duplicado o vídeo. Até emissoras de tv haviam feito suas cópias. E a terrível exigência do seqüestrador já era trend no Twitter.

Contudo, o governo britânico impediu inicialmente que as emissoras falassem no assunto. Logo, não demorou muito, as pessoas começaram a se questionar o porquê do silêncio da TV.

“Por que não está no noticiário?”

É interessante perceber que só se sabe se é ou não fakenews se a TV transmitir. Então, a TV, cada vez mais obsoleta, ainda é uma fonte de legitimação das notícias. E grande parte das pessoas, portanto, só passa a acreditar depois que o noticiário inglês confirma o sequestro e o vídeo viralizado.

Um parênteses: é interessante notar também que, apesar da tentativa de impedir a transmissão dessa notícia dentro do Reino Unido, as emissoras internacionais amplamente divulgaram o sequestro, provando que não há limites para a divulgação de informações, e que as notícias não são mais locais, são globais (não adiantou de nada o governo proibir a notícia no Reino Unido).

Em pouco tempo, mais de 18 milhões de visualizações no vídeo da princesa sequestrada, 10 mil twittes etc. A opinião pública começou, então, a divergir e especular nas redes sociais.

Um homem na tv até pressupôs ser “uma nova forma de terrorismo”. Será? Os novos paradigmas de guerra também acabam entrando em questão na trama, tendo a internet como seu instrumento de terror.

Para piorar a situação, o sequestrador terminou descobrindo que o governo estava tramando colocar um ator pornô para fazer o vídeo, pois alguém havia compartilhado uma foto dele nos estúdios, o que acabou levando o sequestrador a inferir que eles fariam uma montagem com o PM. O sequestrador, então, arrancou e enviou o dedo da princesa para um canal de televisão (o dedo não era dela, mas ninguém sabia ou procurou saber a tempo, pois o furo jornalístico e a pressão popular impulsionados pelo terrorista cibernético eram mais importantes).

A opinião pública, portanto, mudou após o envio do dedo decepado. As pessoas ficaram contra o PM. A exigência deveria ser atendida de qualquer maneira segundo as pessoas. Desse modo, a opinião pública acabou provando, com isso, que ela era volúvel (antes a favor do PM, agora contra) e que direcionava totalmente o rumo dos eventos.

Caso o PM não cumprisse, o mundo veria uma princesa morrendo, fazendo com que a opinião pública se voltasse contra ele, destruindo sua carreira política e comprometendo, até mesmo, sua integridade física.

É então que o PM se viu em cheque entre o seu dever como político e sua vida pessoal como marido respeitável. Desse modo, ele seguiu aos estúdios para transar com a porca enquanto o público se reunia e comemorava a transmissão em rede nacional, como se fosse uma festa ou um grande evento. E é nesse momento em que a espetacularização do ridículo alcançou o seu auge.

O sexo começou e a cara das pessoas começou com expressões de riso misturadas a surpresa; somente com o tempo é que começou a mudar para expressões de agonia e ojeriza.

Muito antes de o vídeo começar, as cidades já estavam vazias para assistir ao ato. E, na verdade, antes de a transmissão se iniciar, a princesa já havia sido liberada pelo sequestrador. Mas ninguém havia notado. E ninguém havia notado exatamente porque estavam todos ocupados e preocupados com a transmissão.

Ou seja, tudo se baseava em chamar a atenção. Estavam todos cegos para ver o espetáculo, sem se preocuparem com o real problema: o sequestro da princesa (o prejuízo alheio).

Um ano depois do acontecimento, foi como se nada daquilo tivesse acontecido, e a taxa de aprovação do PM terminou subindo mais de três por cento. Contudo, seu casamento e sua vida pessoal estavam totalmente destruídos para sempre.

Por fim, o sequestrador não queria machucar ninguém fisicamente, mas sim moralmente. E ele encontrou a internet para isso (um prato cheio nos dias de hoje). Tanto é que a esposa do PM disse, numa determinada cena, que todos (a população) já estavam rindo deles dois (quanto casal) antes mesmo de o vídeo ser feito.

Conclui-se, portanto, que fazer, compartilhar ou rir de vídeos que mostre a miséria alheia (contendo ou não violência) faz de nós pequenos ou grandes psicopatas sociais cibernéticos. O que prova isso são os eventos que ocorrem todos os dias, cujos autores sabem que vão encontrar grande audiência e compartilhamento. Concorda?


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