[Crítica] Polícia Federal: a lei é para todos

Polícia Federal: a lei é para todos é um filme lançado em 2017 com direção de Marcelo Antunez e produção de Tomislav Brazic. O filme inspirado no livro homônimo de Carlos Graieb e Ana Maria Santos, estreou nos cinemas nacionais em 7 de setembro (pois é) de 2017 e trás no elenco nomes como Antônio Calloni, Flávia Alessandra e Ary Fontoura.

O longa se propõe a abordar os acontecimentos investigativos que desembocaram na Operação Lava Jato que denunciou um profundo e cabeludo esquema de corrupção envolvendo diferentes setores do Governo, a Petrobrás, o BNDS e empreiteiras como a  Odebrecht.

Quando eu fiquei sabendo da produção do filme num momento tão conturbado na história do Brasil, marcado por uma perigosa polarização dos debates e por uma postura por vezes parcial dos meios de comunicações, eu fiquei realmente preocupada com o tratamento que o filme poderia dar as diferentes camadas do nosso atual cenário político, econômico e social.

Mais preocupada ainda pelo filme se propor a falar de algo ainda sem uma definição. De algo real que ainda se desdobrava no presente. Como bem vimos atualmente, a Operação Lava Jato, que desbravou um dos maiores escândalos de corrupção desse país,  caminha a passos lentos e agoniza seriamente na UTI enquanto constrói um discurso pobre e maniqueísta que aponta para a existência de heróis e vilões. Recentemente até as investigações parecem polarizadas.

Desde então vivemos uma troca de presidente conturbada e controvérsia. Acusados de corrupção continuaram exercendo suas funções públicas, alguns foram encarcerados para aplacar a sede da opinião pública por justiça e ainda hoje os fatos continuam se desdobrando. Então minha principal pergunta quando eu soube desse filme tão prematuro e num momento tão crucial da História do Brasil foi a seguinte: o que pretendem e qual será o recorte utilizado pelo diretor entre tantos oferecidos desde que a Lava Jato veio a público e a sociedade se polarizou?

Apesar de tudo, o filme não me despertou interesse a ponto de me arrastar a uma sala de cinema, por maior que seja o meu apoio ao cinema nacional que enfrenta os mais variados tipos de desafios para se manter no nosso mercado nacional. Mas eis que o filme passou na televisão e eu finalmente pude olhar mais de perto do que realmente se trata Polícia Federal: a lei é para todos.

Logo no início, o filme vende uma ideia simplicista de que no Brasil a corrupção existe desde o período colonial. Isso na verdade é meio verdade. O problema estar em arrastar nossas percepções contemporâneas  de corrupção para as relações do passado.

A segunda coisa que me chamou atenção é que nos dias atuais segundo filme, a corrupção se consagra no Brasil pelo deslizar de uma caneta, não importa a marca . A caneta então tornar-se o grande símbolo corruptor do filme e os agentes por detrás delas simplesmente desaparecem.

Corrupção histórica e canetadas são conclusões preguiçosas para esmiuçar essa questão que é tão cara ao Brasil. São conotações genéricas e confortáveis. É mais fácil generalizar o debate e restringir todo o problema do Brasil a um discurso patrimonialista, que reduz todas as nossas questões a corrupção estatal, do que adentrar em questões que nos aproxima mais da verdadeira raiz do problema, como nossa desigualdade social que a cada ano que passa, torna-se cada vez maior.

A corrupção antes de tudo é social pois é do meio social por exemplo que saem os políticos. A desigualdade, os salários desiguais por vezes ( embora não unânime) favorecem o estabelecimento daquele gato de luz, a compra de produtos falsificados, aquela compra de votos em anos eleitorais etc.

A baixa escolaridade se constitui em outro problema grave. O Brasil foi o último país na América a ter uma universidade, apenas no século XIX, depois que a Corte portuguesa de se transfere para o Brasil em 1808. Até então, todo o monopólio do saber ficava nas mãos de Portugal e só tinha acesso às letras aqueles que possuíam recursos financeiros, ou seja, apenas uma parcela ínfima da população nacional.

O “jeitinho brasileiro” é algo que advém de nossas raízes portuguesa, de uma sociedade que por muito tempo foi uma sociedade de corte acostumada a dar e a receber favores. E isso não era algo errado para o período, mas sim um de seus muitos valores complexos, não exatamente uma relação de corrupção, pelo menos não no sentido contemporâneo que o termo assumiu.

O problema em tornar nossas raízes coloniais como o início de todo mal, além se anacrônico, soa como uma justificava barata e conveniente. O próprio Alberto Youssef (Roberto Birindelli) do longa usa este jargão para iniciar sua fala em sua delação premiada para justificar sua participação no esquema de corrupção desmascarado pela Lava Jato. Embora seja interrompido, ele apenas ecoa a postura acrítica do filme logo em seus minutos iniciais, entregando que de imparcial, o longa não tem nada. Basta você pensar que logo nos seus segundos iniciais, ele reproduz um discurso patrimonialista muito usado por um determinado setor dentro da sociedade, para justificar nossas mazelas sociais.

Então no decorrer do longa, acompanhamos o papel dos delegados que descobriram o esquema da Lava Jato, ainda que o filme não se decida se sua função era relatar o trabalho dos agentes envolvidos com a Lava Jato ou suas relações pessoais.

Neste ponto cabe um destaque para atuação de Marcelo Serrado, que deu vida ao juiz Sérgio Moro e todo um esforço do filme em mostrar um Moro sereno, pai e marido amoroso, um homem sem defeitos ou conflitos e mesmo quando surge uma possibilidade de melhor explorar este personagem real em sua decisão controvérsia em revelar os telefonemas confidências da então presidenta Dilma Roussef, que garantiam foro privilegiado ao ex presidente Luís Inácio Lula da Silva, nada é muito aprofundado. Moro apenas decide que precisa revelar porque ele mais do que ninguém, é um cidadão exemplar preocupado com o bem estar do país.

Até mais ou menos sua metade, o filme até conseguiu seguir uma linha “imparcial” no que diz respeito aos envolvidos com o esquema da Lava Jato. Citou partidos e mostrou uma mídia fictícia e personagens reais também com nomes fictícios. Depois tudo desceu ladeira abaixo e abordagem estacionou mesmo no PT.

Inclusive uma das reportes que ganham destaques é retratada meio que como uma “opata” da vida. Histérica e claramente parcial em sua conduta política. Totalmente caricata. E entre tantas mídias fictícias, já pro final, surge uma repórter real da Globo durante uma reportagem real, ainda que cenas antes ouvimos a voz de Galvão Bueno e Casablanca durante uma partida de futebol da Copa do Mundo disputada no Brasil. De qualquer forma, a mistura entre o fictício e o real selecionado foi uma escolha no mínimo curiosa.

Por fim, o maquiavélico Lula de Ary Fontoura, outra retração superficial e caricata que das muitas camadas, escolheu aquela canção do Lula, o maior vilão do Brasil. Numa relação maniqueísta intencionalmente construída, Moro é o arauto da luta contra corrupção na medida que Lula é a própria corrupção em pessoa.

Então dos delegados, à imprensa, ao Moro e à Lula, as retratações dos personagens reais foram todas superficiais e caricatas. Uma sombra da vida real. Faltou humanidade nas representações, nas relações e na empatia para com o público geral. O filme foi selecionável porque foi feito para um púbico selecionado. E por isso careceu de uma visão mais amplas dos fatos. Optou pelo prisma lateral e massivamente mastigado pela grande mídia no plano real.

Do meu ponto de vista, faltou verdades e sobrou senso comum!O próprio título do longa tende a ser tendencioso e levanta uma série de questões. A lei é para todos mesmo?O que se quer dizer quando se insinua que no Brasil da polarização política, a lei é para todos?

Além do mais, faltou nomes e maiores menções a partidos envolvidos. Muitos deles foram relegados aos créditos do filme, convenhamos que num local que muitos não esperam no cinema para assistir ( a não ser que o filme seja da Marvel heheh).

O momento de maior problematização do longa ocorre já bem no finalzinho, quando Antônio Calloni que interpreta o delegado Ivan, desabafa com um sonhador funcionário que acredita que a ação da policia federal mudaria o Brasil. No entanto, Ivan se questiona de que forma isso mudaria o Brasil, segundo o interesse de quem e para quem, já que finalmente o personagem sai de seu papel mais investigativo e se questiona de que forma a Lava Jato poderia ser instrumentalizada dali para frente, já que ELES (os grandes) sempre vencem o jogo e as boas intenções, segundo o personagem.

O longa termina sugerindo uma espécie de continuação… algo que teremos que esperar para ver.

Confira o trailer:


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