Análise de Pantera Negra: “Eldorado na África?”

Bom, finalmente consegui assistir Pantera Negra esta semana (Ps.: A postagem foi escrita dia 05/03, porém com nosso especial de Dia das Mulheres a mesma só foi agendada para hoje), após tanta ansiedade e inclusive escrever baseada em trailers e outras matérias, que eram na verdade um caminho preparado para estas minhas impressões que compartilho agora… E já aviso que esta TERÁ SPOILERS!

Então, ao finalmente poder dar meu ponto de vista, posso dizer que com todas as matérias Internet à fora afirmando que Pantera Negra é um manifesto racial ou o primeiro filme da Marvel Studios a dar destaque à Cultura Negra e ser composto por um elenco dignamente de descendência africana, na íntegra a história é tudo isto e muito mais…

Como o título deixa claro achei de fato interessante a ideia que um trecho do filme menciona quando Ulysses Klaue menciona que enquanto procuram pelo Eldorado na América do Sul, ele estaria na África:  Wakanda… Uma terra próspera e rica em pleno continente africano, e escondida do resto do mundo há séculos. A comparação entre o mito do Eldorado e o reino afro fictício da Marvel me fez pensar…

Mas antes disto, logo no início gostei muito da introdução do filme ser o próprio mito fundador daquela nação e de como o roteiro mescla a tal história o próprio surgimento do Vibranium, enquanto substância mais poderosa da Terra, e também das sementes da Erva Coração – a fonte dos poderes do Pantera Negra – sendo algo concedido pela Deusa Bast, para gerar o defensor de Wakanda… E juntamente me agradou a representação de tal mito associado à Deusa Bast – Deusa felina do Egito, que também fica na África.

Gostei da tentativa de representação de uma diversidade cultural dentro de Wakanda, com a  questão das cinco tribos da nação, onde uma delas não aceita ser governada pelo Pantera Negra e mudar seu modo de vida tribalista, como fizeram as outras tribos baseadas nas possibilidades que o Vibranium passa a oferecer, preferindo conservar intactas suas tradições: a vila Jibari, último reduto do Culto do Gorila Branco em Wakanda, governada pelo poderoso M´Baku.

Mas o interessante desta tribo em especial, além de seu líder aparecer como um desafiante pelo trono à altura do príncipe, é que o roteiro não a menospreza por preferir não se modernizar. Pelo contrário, a coloca como tão poderosa quanto povos Wakandianos que se abriram à modernidade. Tanto que num momento de crise, quando T´challa quase morre vencido por Killmonger, são os antigos rituais preservados em Jibari que salvam sua vida. Colocando assim M´Baku em posição tanto de rival quanto de aliado do herói.

Aliás, a “dimensão cinza” tanto nos heróis quanto nos vilões da história me chamaram bastante a atenção, uma vez que o roteiro me pareceu tentar fugir um pouco do maniqueísmo calcado unicamente numa dinâmica muito clara entre bem e mal…
Tanto T’challa quanto Killmonger – que toma de fato a posição mais clara de um inimigo – me pareceram possuir motivações dignas para defender suas causas em seus próprios pontos de vista.

Ambos poderiam merecer apoio justificado, sem que quem escolhesse um ou outro tivesse de ser julgado em demasia por sua escolha.

O que os diferencia e nos dá possibilidade de separa-los em pontos antagônicos, ao meu ver, seria mais seu modo de agir do que suas justificativas. Pois temos de um lado T’challa com o temor ensinado por seus ancestrais de que Wakanda perca tudo o que conquistou se mostrar sua existência ao mundo para tentar ajudar outros afrodescendentes que sofrem ao redor do mundo, ou seja, um rei fiel à sua nação e à sua família temendo perder e tirar de todos que ama o seu “Eldorado”.

Ao mesmo tempo vemos uma candidata à rainha, Nakia, que questiona tal decisão e se recusa a se tornar monarca exatamente por preferir percorrer o mundo defendendo quem precisa. Aliás, a cena que representa isto toca nos problemas reais da África do mundo real e exemplifica de forma primorosa tanto a força e determinação da futura rainha quanto de quem vai a seu auxilia: Okoye, a líder das Dora Milage – a poderosa guarda real, composta apenas por mulheres.

Contudo em dado momento o rei herói descobre segredos sombrios de seu falecido pai, que o fará começar a questionar se realmente seguir unicamente à lógica de seus ancestrais é o melhor a se fazer.

Ao mesmo tempo tal reflexão aparece vindo de encontro a Erick Killmonger sendo um vilão imponente, articulado e com excelentes motivações abastecendo seus atos vis.

Por mais que muito da conduta de Erick possa de fato chocar, ele se mostra verdadeiramente preocupado com a opressão aos de sua raça mundo à fora. Mas sua amargura e frustração o fazem passar de “oprimido à opressor”, querendo armar seus iguais e querendo combater  “fogo contra fogo” , pensando em se igualar aos próprios opressores que fizeram seu povo sofrer escravizado além dos séculos… Suas ideias e reflexões acerca dos conflitos raciais não são de todo erradas, porém seu ódio o cega, tornando-o letal e cruel ao invés do revolucionário que poderia ter potencial para ser.

Vale aqui comentar que o ator Michael B. Jordan se destaca primorosamente em uma representação única e competente de Kilmonger, para a qual ele chegou a admitir em uma entrevista a um famoso jornal nacional que teria inspirado em Cidade de Deus, do cinema Brasileiro, para acertar no tom do personagem e as atitudes que o levaram a trilhar um caminho tortuoso.

Por fim, após a morte de Killmonger, que aliás como últimas palavras diz uma frase que ao meu ver pode (ou DEVE) se tornar uma das mais icônicas do cinema – “Só me joga no oceano, com meus ancestrais, que pularam dos navios, já que a escravidão era pior que a morte…”

O rei T´challa então finalmente decide ir ao bairro onde Erick cresceu e utilizar a riqueza da Wakanda para fazer intervenções, além de apresentar as intensões de expansão dos recursos de sua nação nas nações unidas… Ou seja, talvez cumprir de modo mais ameno e prudente os ideais de Killmonger? Creio ser este final algo para refletirmos que ao menos Erick não morreu em vão.
Eu teria ainda muito mais a dizer aqui, inclusive sobre personagens que não consegui mencionar devidamente ao longo do texto, como Nakia, Okoye, e também a soberana Ramonda, interpretada pela magnífica Angela Bassett, tal como a inteligentíssima, simpática e descolada princesa Shuri… Mas talvez eu precise de um artigo inteiro para falar somente delas.

Então, para não me alongar ainda mais neste aqui, como costumo fazer para finalizar deixo aqui algumas das frases que mais me impactaram, e que consegui anotar ainda na sala de cinema:

“Só me joga no oceano, com meus ancestrais, que pularam dos navios, já que a escravidão era pior que a morte…”

(Erick Killmonger)

“Há mais nos conectando do que  dividindo (…) em épocas de crise o tolo constrói muros, enquanto o sábio constrói pontes”

(Rei T’Chaka, o pai de T’Challa.)

“Um homem que não preparou os filhos para sua ausência, falhou como pai…”

(Rei T’Chaka, o pai de T’Challa)

“Se ele tocar-lo de novo eu vou deixá-lo empalado naquela mesa…”

(Okoe – Lider das Dora Milaje)

“A vida não começou aqui neste continente? Não são todos os povos do mundo, seu povo?”

(Erick Killmonger)


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2 pensamentos sobre “Análise de Pantera Negra: “Eldorado na África?”

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