[Literatura Nacional] Novo livro e outras novidades de Ana Maria Gonçalves

Do passado para o futuro… De “um defeito de cor” para um “defeito de chip”…Teremos  novas abordagens futuristas e distópicas sobre o racismo no  novo livro de Ana Maria Gonçalves, intitulado “Quem é Josenildo?”, que será lançado neste primeiro semestre de 2018 pela editora Record. Após o merecido sucesso de seu romance histórico “Um Defeito de Cor”, lançado em 2006 recebeu em 2007 o Prêmio Casa de Las Américas. A história misturava fatos reais da história com ficção para contar a trajetória de Kehinde, capturada na África e escravizada no Brasil colonial onde foi rebatizada como Luiza. Esta obra teve dois anos de pesquisa detalhada, levou um ano para ser escrita e mais dois sendo revisada e reescrita.

A própria autora afirma não pretender comparações entre os dois livros, mas associo ambos aqui em um jogo de palavras logo no início desta breve análise exatamente para ilustrar o fato de que, por mais que tenham pontos em comum na temática recorrente e necessária que nos leva a pensar nas diferentes noções de raça e no racismo estrutural presente em nossa sociedade, ao mesmo tempo possuem contextos e ambientação completamente diferentes quando se analisam as sinopses de ambas as obras. Sem mencionar que, segundo entrevista dada pela citada autora à revista Cult número 229, publicada em novembro passado, até os processos de criação de ambos os livros foram completamente diferentes.

Possui certa relevância citar aqui o fato de que meu universo literário costuma girar sempre em torno de temáticas com tramas que destacam o sobrenatural, misticismo, mistério, ou universos fantasiosos totalmente alheios à realidade, além de poesias, algumas distopias clássicas e estudos filosóficos e comportamentais que me permitem analisar e criticar a vida cotidiana. Contudo ao conhecer Ana Maria o trabalho dela certamente se tornou uma rara exceção para minhas inclinações e mereceu destaque suficiente para abrir uma brecha em minhas preferências habituais, as quais eu cito aqui como demonstração pessoal do que a qualidade do trabalho desta autora foi capaz: tirar alguém como eu de meus marcados refúgios ou ditas “zonas de conforto”.

Pessoalmente sobre o processo criativo de Um Defeito de Cor posso falar com base em uma palestra com Ana Maria que tive o privilégio de assistir em 2017, que estamos diante de um dos tipos de processos criativos que se torna cada vez mais raro seguindo o que acompanho no mercado editorial atual: onde além da pesquisa feita para desenvolvimento da história, temos também uma autora que de fato se envolveu à nível emocional com sua obra. Visto que no citado evento, Ana Maria afirmava estar tão inserida em sua história ao ponto de “adoecer quando a personagem adoecia” e ao andar pelas ruas “imaginar cenas e diálogos de personagens ao se deparar com prédios históricos”, envolvimento íntimo entre autora e obra que me toca e ao qual eu muito admiro e me orgulho ao saber ainda ser capaz de existir na literatura nacional contemporânea dentre os autores e autoras consagrados.

Acerca ainda do citado primeiro romance que levou anos para ser escrito, na entrevista concedida à Cult, a autora ainda detalha como foi difícil se desvencilhar dele para escrever algo totalmente novo após confeccionar suas 952 páginas, e cita as palavras de um amigo que lhe teria dito que “era como se um portal houvesse se aberto para que ela criasse Um Defeito de Cor e depois se fechado para não mais se abrir”. Contudo em “Quem é Josenildo?”  Ana Maria afirma “ter sido um processo mais pé no chão” após já ter passado pelo primeiro processo editorial e ter conhecido mais de perto as nuances de publicação de um livro, diz ter levado apenas meses para realizar toda a pesquisa e processo de criação.

Em “Quem é Josenildo?” a escritora elabora uma narrativa ocorrida em 2064, onde retrata um futuro que parece à primeira vista utópico, pois fala de uma sociedade onde São Paulo se separou do Brasil e conseguiu eliminar mazelas da sociedade tais como o racismo e o machismo, não há governo central e o país é governado por uma memória coletiva. Entretanto a parte distópica desta utopia aparece quando logo vemos que todas estas evoluções foram conseguidas à partir de um chip implantado na mente de todos os cidadãos, que faz com que uma memória antiga seja apagada a cada memória nova adquirida. Alguns chips implantados em pessoas negras começam a dar um bug e o de Josenildo, um garoto adolescente que é o único aluno negro em sua classe, é um destes chips defeituosos. O garoto então desaparece deixando um bilhete que pode ter três interpretações: como se ele tivesse sido sequestrado, fugido de casa ou se matado.

Na citada entrevista a autora ainda diz que os chips para apagamento de memória no livro estão ali para mostrar “como nós brasileiros nunca consideramos a importância do racismo como estrutural nesta sociedade, estruturante da vida da população negra em geral”, e posso afirmar que certamente Ana Maria fará um texto com uma análise avassaladora do quanto este trauma social nos afeta para muito além do que somos capazes de lidar com ele ou mesmo reconhece-lo no nosso cotidiano. A meu ver a capacidade dela em imaginar o que poderia existir num futuro fictício e entrelaçar esta trama com a real e grave questão do racismo, está perfeitamente em consonância com o que encontramos e precisamos lidar em nossa realidade distópica da vida real.

Enquanto aguardamos seu novo livro cito ainda que a autora disse estar preparando a sua primeira peça que trata sobre “o papel da mulher em uma posição profissional de poder numa sociedade paternalista”, intitulada “Tchau, querida!”, sobre a qual certamente terei prazer em escrever após a estreia. Ana Maria Gonçalves termina a citada entrevista com um trecho que muito me afetou e que faço questão de transcrever aqui para com ele encerrar também meu texto:

“Eu não quero me confundir com esta sociedade. Eu quero ajudar a criar um novo modelo de sociedade, que parta da fissura, do quebrado. Depois de ser restaurado com pó de ouro, o objeto é mais valioso. Nossas vozes e nossas ideias são pó de ouro.”

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