[Resenha] O Festim dos Corvos – As Crônicas de Gelo e Fogo

Dando continuidade à saga mais ambiciosa e imaginativa desde O Senhor dos Anéis, As Crônicas de Gelo e Fogo prosseguem após o violento triunfo dos traidores. Enquanto os senhores de Norte lutam incessantemente uns contra os outros e os Homens de Ferro estão prestes a emergir como uma força implacável, a rainha regente Cersei tenta manter intacta a força dos leões em Porto Real. Os jovens lobos, sedentos por vingança, estão dispersos pela terra, cada um envolvido à sua maneira no perigoso jogo dos tronos. Arya abandonou Westeros rumo a Bravos, Bran desapareceu na vastidão enigmática para além da Mulralha, Sansa está nas mãos do ambicioso e maquiavélico Mindinho, Jon Snow foi proclamado comandante da Muralha, mas tem que enfrentar a vontade férrea do rei Stannis. No meio de toda a intriga, do outro lado do mar começam a surgir histórias sobre dragões e fogo… Quando Euron Greyjoy consegue ser escolhido como o rei das Ilhas de Ferro, não são apenas essas ilhas que tremem. Olho de Corvo tem como objetivo declarado conquistar Westeros. E seu povo parece acreditar nele. Mas conseguirá Olho de Corvo cumprir seu objetivo? Em Porto Real, Cersei enreda-se cada vez mais nas teias da corte. Desprovida de apoio da família e cercada por um conselho que ela mesma considera incapaz, precisa lidar ainda com a ameaçadora presença de uma nova corrente militante da Fé. Como se desvencilhará de tal enredo? A guerra está prestes a terminar, mas as terras fluviais continuam assoladas por bandos de salteadores. Apesar da morte do Jovem Lobo, Correrrio ainda resiste ao poderio dos Lannisters, e Jaime parte para conquistar o baluarte dos Tully. O mesmo Jaime que jurara solenemente a Catelyn Stark não voltar a pegar em armas contra os Tully ou os Stark. Mas todos sabem que o Regicida é um homem sem honra. Ou será que estão todos errados?

Ontem finalmente após muitos anos de leitura, pude enfim terminar  O Festim dos Corvos, quarto livro da série As crônicas de gelo e fogo escrita por George R.R. Martin. A demora em terminar o livro se deu em primeiro lugar pelos compromissos do dia a dia que me deixavam saturada até mesmo para pegar um livro pra ler (meu grande prazer) e pelo fato de que resolvi ler o Festim intercalando-o com o seu sucessor, A Dança dos Dragões. Essa proeza nos é permitida pois inicialmente O Festim dos Corvos e A Dança dos Dragões formavam um livro só, mas Martin percebeu que tinha capítulos demais a sua disposição e que um livro formado com eles ficaria longo demais (como se todos eles já não fossem o suficiente hehehe) e por isso ele decidiu publicar os capítulos com títulos diferenciados. Os acontecimentos narrados nos dois livros se desdobram ao mesmo tempo, tendo como fator de diferença apenas a geografia e a leitura simultânea embora longa e trabalhosa, permite um olhar muito mais amplo e um entendimento melhor e mais claro das infinitas peças que Martin move entre as duas obras. Os eventos narrados em O Festim dos Corvos se concentram sobretudo ao sul do Gargalo em Westeros,  mas precisamente em Porto Real, Dorne, Vale e Terras Fluviais, embora também temos passagens em Bravos, que todos sabemos que fica do outro lado do mar estreito.

Além de colocar novos personagens como protagonistas de sua própria trajetória, como é Caso de Brienne de Tarth, assim como núcleo das Ilhas de Ferro, inserido Victarion, Euron e Aeron Greyjoy a narrativa, sem dúvida uma das maiores contribuições desse livro (somado a Dança dos dragões) é a ampliação absurda do universo construído por Martin. Em O Festim dos Corvos entramos em maior contato com cantos da geografia de Westeros ainda não explorados como a Cidadela, Dorne, Monte Chifre e Árvore.

Um outro fato a ser considerado é o estado caótico em que Westeros se encontra após a guerra dos reis. O continente está em frangalhos, os mortos se espalham por todas as partes, banqueteando os corvos, num verdadeiro festim. Faltam provisões nos celeiros, dinheiro, os mais pobres sofrem, os órfãos aumentam, saltimbancos crescem nas estradas e os pardais, seguidores esfarrapados  da Fé,  se espalham pelas teias do trono de ferro. Enquanto isso, as Casas nobres de Westeros continuam disputando o seu jogo, massacrando os que estão embaixo, enquanto o verdadeiro perigo se aproxima pelo Norte, chegando ao Vale e as Terras Fluviais. O frio que traz com ele os mortos.

A maioria dos eventos narrados em Porto Real se passam pela perspectiva de Cersei Lannister e te digo uma coisa, a Cersei Lannister do livro é tão menos gostável quanto infinitamente mais complexa do que a Cersei pintada pela série inspirada na obra de Martin.

Cersei é paranoica, egocêntrica e sua necessidade incessante de se equiparar aos homens a torna uma personagem equivocada e insensata em suas ações. Cersei mais do que qualquer outra personagem feminina do enredo, se lamenta por ter nascido mulher e toda a sua vida é definida por isso. Ela é tão complexada por ser o que é, que chegou a desenvolver uma espécie de misoginia, já que não são poucas às vezes que ela expressa sua aversão pelas mulheres que a cercam, considerando-as fracas e incapazes, entregando-as para o abate ou tortura sem pensar duas vezes e sem qualquer vestígio de culpa. Uma das poucas coisas boas em Cersei é sua maternidade, mas por vezes a sua sanha pela Coroa pareceu ser muito mais atraente do que esse lado seu. Fora que de uma forma muito preocupante (ou não) os passos de Cersei lembram o de ninguém menos do que Aerys Targaryen, o rei louco.

Sua relação com Jaime é igualmente pintada por tonalidades diferentes por Martin. Nitidamente Cersei não ama mais seu irmão gêmeo. E o mantem perto de si (pelo menos até um certo ponto do enredo) como um instrumento, alguém que ela pode recorrer em tempos de apuro pois sabe que Jaime ainda continua apaixonado por ela. Jaime no entanto, apesar de ainda parecer amá-la, depois da revelação de que Tyrion lhe fez de que Cersei andava transando por aí com vários homens diferentes, vai se tornando cada vez mais distante da irmã com quem compartilhou o ventre.

Estar dentro da cabeça de Cersei, é entender o quanto a mente dela foi derretida pelo relacionamento abusivo que teve com Robert Baratheon (que a estuprava ocasionalmente) e sobretudo pela profecia de Maegi, a Rã, uma bruxa que Cersei vai de encontro na floresta em sua infância e pede que ela revele seu futuro. Na profecia, Maegi revela que Cersei casaria com um rei (Robert Baratheon) e não um príncipe (que era Rhaegar Targaryen a quem ela era prometida), teria 3 filhos enquanto seu rei 16. Que de ouro seria suas coroas e de ouro suas mortalhas. Revela que Cersei seria rainha até que uma rainha mais nova e mais bonita chegasse e tirasse dela tudo o que mais amava e que quando ela estive em desespero, o valonqar enrolaria as mãos em sua garganta e a mataria. Valonqar significa irmão mais novo em alto valiriano e esse fato explica porque Cersei odeia tanto Tyrion, já que ela acredita piamente de que ele é o seu valonqar, ignorando Jaime que veio ao mundo depois dela, sendo também seu irmão mais novo.

Sua mania de perseguição, paranoica e egoísmo a levam a tomar as atitudes mais insensatas, deixando o controle que os Lannisters têm do Trono de Ferro por um fim e enfraquecendo ainda mais os leões de Rochedo Castely.

Longe de Porto Real e em sua viagem em busca por Sansa Stark para cumprir a promessa que Jaime Lannister fez a Cat Stark, Brienne viaja pelo Tridente, pela Campina e Terras Fluviais. É através dela que entendemos o tamanho da desgraça e miséria que se abateu sobre uma Westeros cada vez mais fria e mais cruel. É através de Brienne que também que temos uma maior participação da enigmática Senhora Coração de Pedra, outrora conhecida como Catelyn Stark.

Os Capítulos de Jaime nas Terras Fluviais são um alerta para a comida que falta no celeiro, para as alianças que se enfraquecem enquanto o o frio alcança até mesmo Correrrio. Os lobos que assolam as Terras Fluviais, são quase como que uma espécie de castigo dos velhos deuses dos Starks pelas coisas que aconteceram ali ou um sinal de que algo muito grande está para ocorrer.

Sansa agora é Alayne enquanto Mindinho continua vigorosamente sendo o mesmo maquiavélico, estando sempre um passo a frente daqueles que o cercam. A única coisa que eu espero ansiosamente desse núcleo é o momento em que Sansa/Alayne vai puxar o tapete debaixo dos pés inteligentes e traiçoeiros de Lorde Belish.

O Festim dos Corvos também nos permite um conhecimento maior da distante Dorne e suas motivações  e o papel que desempenha na luta pelo Trono de Ferro. O núcleo de Dorne criado por D&D para o show de televisão, não chega nem perto do menor dos grãozinhos de areia do deserto de Dorne, muito mais complexa e envolvida com a trama geral. Eu poderia pontuar um pouco outras diferenças marcantes entre esse livro e a série, mas como na realidade ele e Dança dos Dragões completam algo maior, vou deixar pra falar mais assim que eu escrever sobre o quinto livro aqui.

Enquanto isso, Arya está enfim em Bravos, aprendendo a ser ninguém e Samwell Tarly embarca numa jornada da Muralha até Vilvelha, na companhia de meistre Aemon, Goiva (e um bebê trocado), em busca de informações na Cidadela que ajudaria a derrotar os Outros. A Cidadela que por sinal, envolta em bruma e mistério, promete boas passagens nos livros que ainda restam. Fica claro que ela é muito mais do que pretende ser, podendo estar por traz de eventos até então aparentemente circunstancias como a ruína da Casa Targaryen.

E conforme talvez já tenha dado pra perceber, o Festim dos Corvos não traz povs com personagens mais populares como Jon Snow, Daenerys e Tyrion, o que torna a leitura mais arrastada embora ajude muito ler o livro juntamente com A Dança dos Dragões que têm um ritmo mais acelerado. O status qo não muda, mas Martin plantou as sementes para que isso finalmente venha acontecer. Novos mistérios nos foram apresentados, novas reviravoltas plantadas com uma escrita vigorosa e recheada com uma riqueza de detalhes que apenas George Martin consegue transpor para suas páginas. Agora só nos resta agora orar para R’hllor e aguardar pelo lançamento de Ventos de Inverno.

Segue a ordem cronologica de como se ler O Festim dos Corvos e A Dança dos Dragões juntos:

ADDD = A Dança dos Dragões OFDC = O Festim dos Corvos ORDEM DOS CAPÍTULOS

Prólogo (Varamyr): 1 ADDD
Prólogo (Pate): 1 OFDC
O Profeta (Aeron I): OFDC 2
O Capitão dos Guardas (Areo I): OFDC 3
Cersei I: OFDC 4
Tyrion I: ADDD 2
Daenerys I: ADDD 3
Brienne I: OFDC 5
Jon I: ADDD 4
Bran I: ADDD 5
Tyrion II: ADDD 6
O homem do Mercador (Quentyn I): ADDD 7
Samwell I: OFDC 6
Jon II: ADDD 8
Arya I: OFDC 7
Cersei II: OFDC 8
Jaime I: OFDC 9
Brienne II: 10 OFDC
Sansa I: OFDC 11
A Filha da Lula Gigante (Asha I): OFDC 12
Tyrion III: ADDD 9
Davos I: ADDD 10
Jon III: ADDD 11
Daenerys II: 12 ADDD
Fedor I (Theon I): 13 ADDD
Cersei III: OFDC 13
O Cavaleiro Maculado (Arys): OFDC 14
Bran II: ADDD 14
Tyrion IV: ADDD 15
Davos II: ADDD 16
Brienne III: OFDC 15
Samwell II: OFDC 16
Daenerys III: ADDD 17
Jon IV: ADDD 18
Tyrion V: ADDD 19
Jaime II: OFDC 17
Cersei IV: OFDC 18
Davos III: ADDD 20
O Capitão de Ferro (Victarion I): OFDC 19
O Homem Afogado (Aeron II): OFDC 20
Brienne IV: OFDC 21
A Fazedora de Rainhas (Arianne I): 22 OFDC
Arya II: 23 OFDC
Alayne I (Sansa II): OFDC 24
Cersei V: OFDC 25
Fedor II (Theon II): 21 ADDD
Jon V: ADDD 22
Tyrion VI: 23 ADDD
Daenerys IV: ADDD 24
O Lorde Perdido (Jon Connington I): ADDD 25
O Soprado pelo Vento (Quentyn II): 26 ADDD
A noiva desobediente (Asha II): ADDD 27
Brienne V: OFDC 26
Samwell III: OFDC 27
Jaime III: OFDC 28
Tyrion VII: ADDD 28
Jon VI: 29 ADDD
Davos IV: ADDD 30
Cersei VI: 29 OFDC
O Pirata (Victarion II): OFDC 30
Daenerys V: ADDD 31
Melisandre I: ADDD 32
Jaime IV: OFDC 31
Brienne VI: OFDC 32
Fedor III (Theon III): ADDD 33
Tyrion VIII: ADDD 34
Cersei VII: OFDC 33
Jaime V: OFDC 34
A Gata dos canais (Arya III): OFDC 35
Samwell IV: OFDC 36
Cersei VIII: OFDC 37
Brienne VII: OFDC 38
Jaime VI: OFDC 39
Cersei IX: OFDC 40
A Princesa na Torre (Arianne II): OFDC 41
Bran III: ADDD 35
Jon VII: ADDD 36
Daenerys VI: 37 ADDD
O Príncipe de Winterfell (Theon IV): ADDD 38
A sentinela (Areo II): ADDD 39
Jon VIII: ADDD 40
Tyrion IX: ADDD 41
O traidor (Theon V): ADDD 42
O Prêmio do Rei (Asha III): ADDD 43
Daenerys VII: ADDD 44
Alayne II (Sansa III): OFDC 42
Jon IX: ADDD 45
Brienne VIII: OFDC 43
Cersei X: OFDC 44
Jaime VII: OFDC 45
Samwell V: OFDC 46
A menina cega (Arya IV): ADDD 46
Um fantasma em Winterfell (Theon VI): ADDD 47
Tyrion X: ADDD 48
Jaime VIII: ADDD 49
Jon X: ADDD 50
Daenerys VIII: ADDD 51
Theon VII: ADDD 52
Daenerys IX: ADDD 53
Jon XI: 54 ADDD
Cersei XI: 55 ADDD
Guarda da Rainha (Barristan I): 56 ADDD
O pretendente de Ferro (Victarion III): ADDD 57
Tyrion XI: 58 ADDD
Jon XII: ADDD 59
O Cavaleiro descartado (Barristan II): ADDD 60
O Pretendente Rejeitado (Quentyn III): ADDD 61
O Renascer do Grifo (Jon Connington II): ADDD 62
O Sacrifício (Asha IV): ADDD 63
Victarion IV: ADDD 64
A Garotinha Feia (Arya V): 65 ADDD
Cersei XII: ADDD 66
Tyrion XII: ADDD 67
O derrubador de reis (Barristan III): ADDD 68
O Domador de Dragões (Quentyn IV): 69 ADDD
Jon XIII: ADDD 70
Mão da Rainha (Barristan IV): ADDD 71
Daenerys X: ADDD 72
Epílogo (Kevan): ADDD 73

Você pode ainda baixar essa listinha aqui no celular, como eu fiz:

Outros livros da série resenhada pelo blog:

 

 

 

 

 

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