[RESENHA] Wicked (Wicked Years #1) – Gregory Maguire.

Você nunca mais vai enxergar Oz da mesma forma.
Quando Dorothy se vê diante do desafio de derrotar a Bruxa Má do Oeste, no clássico Mágico de Oz, vemos a história se desenrolando pelo lado da heroína. Mas e a história de sua arqui-inimiga, a misteriosa bruxa? De onde ela surgiu? Como se tornou tão perversa?
Em Wicked, Gregory Maguire revela tudo isso por meio de um mundo fantástico tão rico e intenso que você nunca mais vai olhar para Oz da mesma forma. Viajando por uma terra encantada, descobrimos todos os detalhes da história dessa garota de pele verde que cresce em meio a desafios e preconceitos, até se tornar uma bruxa infame – uma esperta, irritadiça e incompreendida criatura que desafia todas as noções sobre a natureza do bem e do mal.
Recriando com riqueza espantosa o mundo de Oz, este livro conduz o leitor à inesquecível estrada de tijolos amarelos, atravessando um mundo fantástico repleto de conflitos e transformando de maneira surpreendente a reputação de um dos mais sinistros personagens da história da literatura.
Público-alvo: Leitores de fantasia, fãs de O mágico de Oz, espectadores do musical de mesmo nome que está em cartaz em São Paulo até julho de 2016.

Desde o início eu sabia que essa seria uma leitura errada. A começar pelo fato de que, quando parei para realmente pensar sobre isso, percebi que tudo o que conhecia sobre o Mágico de Oz provinha de informações pingadas de diferentes meios. Afinal, todo mundo conhece as figuras clássicas do mundo de Oz, mas eu ainda não tinha, assumidamente, lido o livro, e, o que explodiu minha mente inclusive, pois não tinha me ligado, nunca havia sequer visto o filme clássico (SHAME!). Por conta disso, essa foi uma leitura realizada em ordem decrescente, mais por conta de prazos a cumprir com essa e outras leituras, e acredito que, produtivamente, absorvi cerca de 70% desse livro, mas vida que segue.

O que mais me surpreendeu durante a leitura foi como Gregory não teve um pingo de medo de inserir assuntos pesados, como: sexualidade, conflitos políticos, raciais e afins; remodelando uma história infantil num romance adulto denso e recheado de críticas atemporais à sociedade que vivemos, pois este é um livro escrito nos anos 1990 e seu conteúdo ainda reflete muito nos dias de hoje.

De grande de personalidade e convicção inabalável, disposta a contrariar qualquer um para seguir seus conceitos e seu modo de pensar, Elfaba é o tipo de personagem capaz de tomar atitudes que nem sempre serão compactuáveis, atitudes essas que a levam à sua fama de Bruxa Má do Oeste, mas ainda assim te faz torcer por ela. Desde muito nova sofrendo abusos e sendo diminuída por tudo e todos, a pequena Elfinha cresceu introspectiva por imposição: sempre por sua pele verde, mas também por seu jeito ranzinza e seu senso de justiça pelo que ela acredita. E toda essa carga imposta sobre ela a tornam uma pessoa excruciantemente real e relacionável.

Meu único desagrado com o livro como um todo vem por parte de um enorme receio que tive de me decepcionar com a direção seguida pela história. Durante grande parte de seu desenrolar, estive mais focado no que eu queria do livro ao invés de aceitar o que me era disposto. Eu esperava muito que Wicked tivesse uma abordavam bem próxima da Elfaba quando, na verdade, o foco muda em decorrência da narrativa, sempre em terceira pessoa, — quando criança a história é narrada com foco em seus pais, desenvolvendo o relacionamento deles (uma das minhas partes favoritas) e como isso influi em uma Elfaba mais velha; na adolescência o foco passa para Glinda, mostrando como elas passam de avessas a melhores amigas durante o período que passaram juntas na faculdade; na maioridade seu amante toma as rédeas do enredo, apresentando uma Elfaba mais audaciosa e misteriosa — até chegar nela, quando a história colide com os acontecimentos do Mágico de Oz de forma genial.

Como foi para mim, pode ser um livro difícil em certos momentos, teimando a fugir ocasionalmente de seu foco principal para exploração do universo em que convivemos com os personagens — ambientação incrível, mas achei conveniente demais Elfaba passar por todos os cantos, como uma desculpa para mostrar toda Oz —, porém mostra-se muito preocupado em apresentar diversas facetas de tudo o que é apresentado, o que, no fim das contas, faz todas as voltas dadas valerem a pena.

No fim, acaba por ser difícil me desprender dessa história. É costumeiro me ouvir reclamar quando demoro mais do que gosto, dois a três dias, pare ler um livro, mas esse caso, a semana inteira que levei para finalizar essa leitura serviu para me fixar mais profundamente nesse mundo. Sem perceber que estava cultivando um vicio por tudo que me envolvia a esses personagens, pegava-me ouvindo a trilha do musical da Broadway, que fiquei sabendo ter uma pegada bem diferente do livro, e toda essa aura interativa integrou tudo de forma que o livro se fecha como um ciclo redondinho.

Definitivamente garanto uma releitura desse livro daqui alguns anos. O foco agora é ler a história original, me embasar mais sobre o clássico, e futuramente voltar para esse universo e seguir com os próximos livros da série. Acredito que Wicked se encaixe perfeitamente na linha de livros feitos para serem lidos mais de uma vez, com olhares diferentes. Um para a história em si, e outro para o oculto, tudo o que está entre os dizeres e te desafia a captá-los.

Em uma entrevista feita em 2015, meados do lançamento do último livro da série, “Out of Oz”, o autor, Gregory Maguire, disse em uma entrevista que sua inspiração para Wicked veio da vontade de escrever um livro sobre o mal; apenas em seguida surgiu ligação com o universo do Mágico de Oz, e, essencialmente, não existe definição melhor para esse livro. Entremeado à sua história central, ocorre uma longa dissertação sobre a existência do mal: se uma pessoa nasce com ele ou é adquirido ao longo da vida, se ele é uma figura realística ou algum tipo de influência astral. E, deixando-me em uma mistura agridoce de sentimentos, depois de tantas possibilidades propostas, esse questionamento não é respondido de forma concreta. Porém, depois de uma pensada, chego à conclusão que essa é a tacada de mestre; pois tudo em Wicked, seja seus personagens, suas crenças, mas principalmente o mal, é só uma questão de ponto de vista.

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