[RESENHA] O nome do vento

Ninguém sabe ao certo quem é o herói ou o vilão desse fascinante universo criado por Patrick Rothfuss. Na realidade, essas duas figuras se concentram em Kote, um homem enigmático que se esconde sob a identidade de proprietário da hospedaria Marco do Percurso.
Da infância numa trupe de artistas itinerantes, passando pelos anos vividos numa cidade hostil e pelo esforço para ingressar na escola de magia, O nome do vento acompanha a trajetória de Kote e as duas forças que movem sua vida: o desejo de aprender o mistério por trás da arte de nomear as coisas e a necessidade de reunir informações sobre o Chandriano – os lendários demônios que assassinaram sua família no passado.
Quando esses seres do mal reaparecem na cidade, um cronista suspeita de que o misterioso Kote seja o personagem principal de diversas histórias que rondam a região e decide aproximar-se dele para descobrir a verdade.
Pouco a pouco, a história de Kote vai sendo revelada, assim como sua multifacetada personalidade – notório mago, esmerado ladrão, amante viril, herói salvador, músico magistral, assassino infame.
Nesta provocante narrativa, o leitor é transportado para um mundo fantástico, repleto de mitos e seres fabulosos, heróis e vilões, ladrões e trovadores, amor e ódio, paixão e vingança.
Mais do que a trama bem construída e os personagens cativantes, o que torna O nome do vento uma obra tão especial – que levou Patrick Rothfuss ao topo da lista de mais vendidos do The New York Times – é sua capacidade de encantar leitores de todas as idades.

Uma amiga chegou me dizendo que esse livro é a bíblia da fantasia. Tem noção do que isso faz com a cabeça de uma pessoa angustiada e ansiosa? Concordo que esse livro tem muita coisa maravilhosa, mas as expectativas que eu costumo por em cima de tudo veio e atrapalhou um pouco minha leitura.

Partindo da premissa incrível do livro: Quando um homem conhecido como O Cronista chega à hospedaria Marco do Percurso ao mesmo tempo em que seres demoníacos começam a sondar a região, o mesmo, munido de fortes suspeitas de que o dono do lugar, que no momento se esconde pelo nome de Kote, seja na verdade Kvothe, o protagonista de grandes lendas que se espalham na boca do povo, ele decide que precisa ser aquele que documentará suas grandes aventuras e desvendará os segredos por trás dos mais variados nomes que o personagem principal dessa história já recebeu: Seis cordas; Kvothe, o Sem-Sangue; Kvothe, o Arcano; Kvothe, o Matador de Rei.

Desvendando o passado desse personagem portador das mais extensas facetas, O Nome do Vento é a primeira parte de um retorno épico ao passado de Kvothe, que passará desde sua infância na trupe dos Edena Ruh, onde ele conheceu seu primeiro mestre e perdeu seus pais para um sombrio grupo formado por criaturas poderosas: O Chandriano; até seu ingresso na Universidade, onde ele pretende aprender a dominar a arte de nomear as coisas ao seu redor e reunir o máximo possível de informações sobre os assassinos de seus pais.

Com um desenvolvimento maravilhérrimo ao decorrer do contar de seu passado, Kvothe se consagra como o fator determinante de todo o livro. O vemos passar por coisas que fariam um jovem qualquer sucumbir de imediato: de encontrar-se na mais desesperadora miséria tendo que se virar em lugares desconhecidos sem ninguém para seu amparo, até que ele chegue à Universidade (melhores partes do livro), quando conhece seus amigos (Simmon <3) e aproxima cada vez mais de seus objetivos – fazendo muitas burradas no caminho, é claro.

Numa grande mistura de concisão, floreios poéticos e um domínio magistral sobre ritmo narrativo, a escrita de Patrick Rothfuss, que nos presenteiam diversos quotes lindíssimos, alterna constantemente a velocidade da narrativa de acordo com a parte da história que está sendo contada por Kvothe e o impacto que ela tem sobre ele. Cada vez que surge um interlúdio, quando a história volta para o presente, é como se mais um véu de complexidade se infiltrasse no personagem que, de início, era apenas um dono comum de estalagem. Os véus vão se empilhando por si mesmos até que no fim Kvothe é uma pessoa de amplitude tão diversificada que fica difícil imaginar o que pode vir pela frente, e esse é apenas o primeiro livro.

De início, fiquei um pouco reticente com o sistema de magia. O título do livro vem da magia de nomear as coisas. É possível controlar quatro elementos se você souber o nome deles – não o nome em si, como: água, terra, fogo ou ar; e sim algo mais grandioso, mais poderoso. Acho isso super genial e inovador, porém em decorrência do grande mistério por trás do nome do vento, fiquei muito agoniado de que seria uma coisa mais abstrata, algo que não seria revelado concretamente, mas se você for como eu, cheio de problemas e noias a ponto de uma coisa dessas atrapalhar a sua vida, pode ficar tranquilão que o vento tem um nome sim (E NÃO É ROBSON! [piada interna]).

Uma coisa que ficou na minha cabeça por um bom tempo durante a leitura é que Rothfuss não mede esforços ao fazer uma clara alusão ao relacionamento clássico de Sherlock Holmes e Irene Adler. Em um determinado momento, Kvothe conhece Denna: uma jovem que consegue ser se não tão, ainda mais enigmática que ele próprio. Considerada A Mulher (uma referencia direta a Irene), aquela que o faz perder a estribeiras, que tira o jovem poderoso e centrado de sua zona de conforto, a primeira despertar nele as sensações luxuriosas, Denna entra na história como a indomável, porém também aquela que nunca se vai realmente. A dinâmica entre os dois de que ao mesmo tempo em que ela aproveita da companhia de outros rapazes, muda de nome em cada lugar que passa, e vai e volta quando quer da vida de Kvothe, mas sem deixar de dar o devido reconhecimento que ele merece, como aquele que realmente ilumina seu sorriso, foi um ponto que me fez remeter muito ao conflito sexual da série Sherlock (que me deixava completamente louco) e demonstra o quanto uma pessoa pode afetar até mesmo o jovem mais promissor.

Se tem uma coisa que eu gosto de acreditar, mas que não é nem um pouco verdade, é que minha relação com os livros pode um dia ser menos complicada. Tenho sérios problemas com expectativa, sou daqueles que põe ela num nível alto demais e crio na minha cabeça um tipo de versão alternativa da história antes mesmo de começar a ler, uma versão que eu acho que seria parecida que às vezes alcança a verdadeira, noutras cria um conflito de imagens (também aconteceu com A Desconstrução de Mara Dyer). Em O Nome do Vento, por ser considerado um épico, projetei a história indo longe demais para apenas o primeiro livro de uma trilogia e isso meio que criou uma mancha ao se aproximar do final do livro, quando não acontecem coisas tão grandiosas assim. Acaba sendo uma briga de vozes em que uma delas entende que é o primeiro livro e aceita que é assim que funciona, como uma ambientação para o que vem depois (uma destruidora, aliás), porém a outra turva os acontecimentos dizendo que não foi tão majestoso quanto eu imaginava e isso prejudica a consideração do livro como um todo, tirando o foco de tanta coisa que eu adorei e evidenciando o que me pareceu insosso.

Sem deixar de ser grandiosíssimo (literalmente também), O Nome do Vento me prendeu durante mais de uma semana em sua leitura e apesar de isso algumas vezes ter me agoniado bastante por me demorar demais em um livro só, me fez também emergir profundamente nesse universo tão intrincado que, afora ter sentido um pequeno probleminha de localização – o mapa do início do livro não mostra com muita exatidão alguns lugares em que o livro se passa – no fim das contas foi muito difícil largar de mão e torturante não ter O Temor do sábio, sua sequência, em mãos.

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