[Resenha] Misery: Louca obsessão

Paul Sheldon descobriu três coisas quase simultaneamente, uns dez dias após emergir da nuvem escura. A primeira foi que Annie Wilkes tinha bastante analgésico. A segunda, que ela era viciada em analgésicos. A terceira foi que Annie Wilkes era perigosamente louca.Paul Sheldon é um famoso escritor reconhecido pela série de best-sellers protagonizados por Misery Chastain. No dia em que termina de escrever um novo manuscrito, decide sair para comemorar, apesar da forte nevasca. Após derrapar e sofrer um grave acidente de carro, Paul é resgatado pela enfermeira aposentada Annie Wilkes, que surge em seu caminho. A simpática senhora é também uma leitora voraz que se autointitula a fã número um do autor. No entanto, o desfecho do último livro com a personagem Misery desperta na enfermeira seu lado mais sádico e psicótico. Profundamente abalada, Annie o isola em um quarto e inicia uma série de torturas e ameaças, que só chegará ao fim quando ele reescrever a narrativa com o final que ela considera apropriado. Ferido e debilitado, em “Misery – Louca Obsessão”, Paul Sheldon terá que usar toda a criatividade para salvar a própria vida e, talvez, escapar deste pesadelo.

Quando o autor da série best-seller da personagem Misery Chastain, Paul Sheldon, sofre um terrível acidente de carro onde fratura o quadril e praticamente dilacera as duas pernas, a enfermeira Annie Wilkes, sua autodeclarada fã número um, o salva dos escombros, leva-o para sua casa e cuida de seus ferimentos. Porém ao terminar de ler o mais recente livro de Paul, o último volume da série de Misery, onde a heroína morre, Annie acaba se revelando uma mulher completamente desequilibrada e perigosa.  Recusando-se a aceitar a morte da personagem, a enfermeira obrigará Paul, por meio de formas de tortura compreensíveis apensas em sua cabeça mirabolante, a escrever o que ela considera vir a ser seu melhor livro: O retorno de Misery.

Paul acaba por desenvolver uma espécie de síndrome de Estocolmo, onde a pessoa mantida em cativeiro acaba criando afeição por seu carcereiro. Para ele, Annie passa a ser a representação de uma deusa. Quase como a relação de um bicho de estimação com seu dono. O dono é quem dá carinho, alimenta, faz companhia e assim o animal o vê como o deus daquele seu pequeno mundinho, mesmo que a definição de carinho de Annie Wilkes seja mais distorcida impossível.

Impactante de diversas maneiras, Misery é uma mistura perfeita de personagens extremamente bem construídos e uma trama que vai te deixar sem dormir de desespero para saber o final. Evoluindo de forma lenta, do típico jeitinho King, a narrativa te engana dando uma sensação rotineira até que os acontecimentos começam a pipocar em momentos inesperados, te deixando à mercê do efeito “deixeuver”, descrito pelo próprio Paul durante o livro como a pulga atrás da orelha do leitor que o deixa desesperado para saber que próxima bomba o aguarda.

Embora o livro inteiro se passe dentro da casa de Annie, o constante medo de Paul de cometer algum deslize e as atitudes controversas da enfermeira criam uma atmosfera tóxica que se torna quase palpável. Annie Wilkes é uma personagem tão tenebrosa e inconstante que se torna muito difícil entrar em um consenso com a realidade sobre o fato de que ela é apenas ficcional, e não uma figura em carne e osso que pode surgir de repente debaixo da sua cama à noite querendo arrancar a sua cara, de tão real. Com certeza alguém que só poderia surgir da mente de Stephen King.

Indo muito além da premissa básica de história de uma mulher desequilibrada, com muito sangue e uma tensão efervescente, Misery é, em suma, o retrato falado de um escritor. É, de certo modo, como revisitar Sob a escrita, o livro que mistura as memórias de King e uma aula sobre a arte da escrita. Não só as passagens sobre o ato de escrever se assemelham muito, mas também porque existe uma história real por trás de Paul Sheldon. Em 1999 o próprio King sofreu um acidente grave quando caminhava nos arredores de uma de suas casas no Maine, onde ele fraturou o quadril e a perna direita em múltiplos lugares e essa habilidade de pegar situações da sua vida pessoal, sejam de pequenas coisas até tragédias como essa, é um dos fatores que me faz me afeiçoar tanto por seus livros. Cada livro é como conhecer um pouco mais da história desse autor que já chegou em grande estilo e que vem tomando um espaço cada vez maior no meu coração.

Ler Stephen King é constantemente sair de um de seus livros dizendo: esse é meu favorito! E no livro seguinte, história se repetir. E no próximo e no próximo. E é o mesmo que acontece aqui. Posso não ter lido muitos livros dele, em comparação aos seus mais de sessenta livros os cinco que eu li são praticamente nada, mas já é uma base boa pra sentir um ar de familiaridade a cada novo começo e a cada novo fim, que, com cada vez mais frequência, se torna um parto terrível. Páreo duro com Doutor Sono pelo lugar de favorito absoluto, Misery chegou como quem queria muito e superou minhas expectativas a ponto de entrar tanto na minha cabeça que devo continuar pensando nele vez ou outra por um bom tempo.

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