[Resenha] Mommy


Eu poderia começar esta resenha de muitas maneiras. Poderia elogiar mais uma vez o trabalho do diretor Xavier Dolan; poderia ressaltar os prêmios que o longa ganhou ao redor do mundo (inclusive em Cannes!); poderia listar os motivos que fazem “Mommy” ser um dos mais encantadores filmes do ano. Farei tudo isto ao longo deste texto. Neste momento, porém, quero apenas que você, leitor, se dedique a esta resenha da maneira como se dedicaria a ouvir um amigo de sua mais alta estima. Quero que leia estas palavras e dê alguma credibilidade a elas, e, ao final, julgue se este filme é suficientemente merecedor ou não de sua atenção para que valha a pena comprar um ingresso. Espero ser conciso o bastante para convencê-lo de que, sim, “Mommy” é absolutamente necessário e extensamente esmagador.

Falei de Dolan há algumas semanas aqui no blog, em retrospectiva a seu filme “Amores Imaginários”, de 2010, e acabei comentando brevemente também seu longa de estreia, “Eu Matei Minha Mãe”. Tinha elogios e críticas a tecer a ambos. Estava, porém, já encantado com a estética de Dolan, o desenvolvimento de suas histórias, a beleza sufocante que imprimia em cada take. Faltava maturidade para fazer um filme que verdadeiramente nos deixasse uma marca a fogo na pele? Um pouco. Não deixavam, porém, de serem, no caso de “Eu Matei Minha Mãe”, uma boa experiência e, no caso de “Amores Imaginários”, um bom filme, que estimularam meu imaginário a constatar que Xavier Dolan poderia vir a ser um dos maiores nomes do cinema dentro de alguns anos.

A “Mommy”, não tenho uma crítica a fazer. Ou melhor, tenho algumas, mas nenhuma delas é digna de tirar um décimo que seja da nota final. Dolan já é o grande nome que previ que seria? Não sei. Não sei nem se tenho moral para afirmar uma coisa dessas. Posso dizer, porém, que, com “Mommy”, Dolan entra para minha lista de cineastas favoritos e também para a brevíssima lista dos poucos realizadores que compuseram um filme suficientemente forte para entranhar em cada célula minha e fazê-las parecer pesarem um quilo. “Mommy” é um filme que me lembra a sensação que é ter um filme entrando à força por todos os lados do meu coração; me lembra o porquê de eu amar cinema.

Retornando à temática de “Eu Matei Minha Mãe”, isto é, a relação conturbada entre mãe e filho, Dolan não se repete. Pelo contrário: “Mommy” é muito original. Nas palavras do próprio diretor, “Eu Matei Minha Mãe” foi um filme sobre duas pessoas incompatíveis, já “Mommy” é um filme sobre duas pessoas que se amam tanto que não conseguem mais conviver juntos. E isto demonstra-se presente desde o primeiro momento. Num futuro muito próximo, em 2015, uma nova lei foi aprovada num Canadá fictício: qualquer família pode abandonar um filho problemático aos cuidados do governo. Neste contexto, passa-se a história de Diane “Die” Duprés (interpretada brilhantemente por Anne Dorval, em sua terceira colaboração com Dolan), uma mulher que é obrigada a tirar seu violento e explosivo filho Steve (Antoine-Olivier Pilon) de um internato. Enquanto tentam sobreviver, a nova vizinha, Kyla (Suzanne Clément), que sofre de um problema de fala, oferece ajuda para educá-lo, e os três caminham juntos em direção à esperança e à liberdade.

“Mommy” é uma história de descobrimento e libertação, mas, acima de tudo, é uma história sobre o incondicional e doloroso amor de mãe. Os três personagens encontram-se, de alguma forma, presos, estagnados pela vida. Nenhum dos três é realmente livre; juntos, porém, eles experimentam brevemente o que é viver com alegria. E se amam.

E não é possível assistir a um segundo sequer deste filme sem estar emocionalmente imerso nele. Não existe um take sem beleza, um momento que não encante. A fotografia de André Turpin é lindíssima, imprimindo a cada cena as cores fortes típicas de Dolan, porém, trazendo também um clima sujo, realista. É o mesmo mundo colorido e brilhante visto anteriormente na filmografia do cineasta, mas, desta vez, absolutamente soturno. Não apenas isto: a direção de Dolan, como sempre, é muito experimental, sempre quebrando paradigmas, mas sem jamais esquecer a emoção que quer arrancar de seu público. Dolan deseja uma ruptura visual, uma certa imprevisibilidade; brinca com ângulos e formatos, e, desta vez, opta pelo raro 1:1, que, não nego, é incômodo a princípio, mas, ao longo do filme, ganha um significado especial e criativo, ressaltando a ideia de que os personagens encontram-se, de certa forma, presos, sem saída.

O roteiro afasta-se das aspirações poéticas, amplamente criticadas pelos céticos e chamadas de “pedantes”. A real poesia está na imagem. Dolan novamente utiliza-se de técnicas que já viraram marcas sua: o slow-motion e a obsessão por música pop estão novamente presentes. Desta vez, porém, estão mais comedidos, utilizados apenas em momentos-chave, e garantindo cenas memoráveis e tocantes – em especial o devaneio de Die, próximo ao final do filme, que não é nada menos que aterrador e desesperador. Digam o que quiser da estética de Dolan, mas o cineasta sabe criar cenas etéreas e transcendentes, despertando todos os sentidos e aflorando as emoções mais cruas e impactantes.

E o que dizer das performances impressionantes do elenco principal? Anne Dorval – sem dúvidas, a estrela deste filme – está devastadora. É impossível não se emocionar com suas dúvidas, suas indagações, seu amor que garante esperança acima de todas as tragédias. Suzanne Clément, outra colaboradora frequente de Dolan, tem papel reduzido, mas sublime; a falta de liberdade de Kyla, se mais desenvolvida, não teria sido tão impactante, e Clément atua maravilhosamente como uma mulher tão desesperada que sequer consegue se comunicar com os outros. Por fim, temos o quase-estreante Antoine-Olivier Pilon, e nós não podemos deixar de pensar por onde Pilon esteve por tanto tempo sem ser descoberto. Sua interpretação no papel do violento Steve é extremamente surpreendente, densa e meticulosamente construída, tanto para mostrar seu ódio explosivo quanto seu amor extremo pela mãe. Dolan seria estúpido se não adicionasse Pilon a seu hall de colaboradores frequentes.

Não tenho certeza se consegui processar “Mommy” por completo. Sei que terei que vê-lo novamente. Chocante e encantador, o quinto filme de Xavier Dolan é a melhor obra do cineasta, um dos melhores longas do ano, e, certamente, um dos mais intensos também. É difícil não se deixar levar pela beleza entristecedora desta história, ou não se comover quando há tanto amor em cena que chega a sufocar. Em “Mommy” vemos as mais honestas, violentas, imprudentes e devastadoras provas de amor, e não podemos deixar de nos perguntar como alguém sobrevive a tanto afeto, a tanta estima altruísta, a sentimento tão doloroso. Saímos do cinema um pouco mais pesados, mas também com um sorriso no rosto.

Nota: 10/10

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