[Resenha] O Rebu

Com chamadas intrigantes e uma proposta no mínimo interessante, o remake de “O Rebu”, assim como a trama original, parecia destinado a se tomar um marco na teledramaturgia brasileira. Mesmo aqueles que, como eu, não são muito adeptos ao modelo novelesco logo se viram hipnotizados pela produção magnífica, a direção estilística e o trabalho esplendoroso do primeiro capítulo. Ao longo do caminho, porém, um roteiro furado e diversos outros problemas fizeram “O Rebu” chegar ao final com um saldo misto e agridoce.

40 anos atrás, estreava a primeira versão de “O Rebu” – uma trama revolucionária para os folhetins globais. A ideia era, no longo percurso dos 112 capítulos de uma novela, tratar dos acontecimentos de um único dia sob as perspectivas de múltiplos personagens unidos por uma só ocasião: todos atendiam a uma festa quando um assassinato acontece. Os convidados, então, veem-se presos aos limites da propriedade enquanto a polícia revira suas vidas em busca de um culpado. Uma ideia genial, que certamente marcou época; entretanto, segundo telespectadores da época, a trama não era livre de seus problemas. A longa duração afetou o desenvolvimento da história, de forma que sobraram erros de continuidade e conveniências. Alguns dizem até mesmo que a novela se tornou chata.

A nova versão parecia pronta para se afastar de todos estes problemas: com novas tecnologias e um orçamento digno, além de contar com o reduzidíssimo número de 36 capítulos, o novo “Rebu” parecia, deste de sua própria concepção, destinado ao sucesso. Com o roteiro assinado por George Moura e a direção, por José Luiz Villamarim e Walter Carvalho (os três vem de uma sucessão de trabalhos de sucesso) e um elenco tão espetacular que chegava a ser inacreditável, não havia maneira de não se empolgar ao menos com a proposta da novela – e os primeiros capítulos levaram esta empolgação adiante, fazendo jus à mobilização. Entretanto, quanto mais “O Rebu” avançava, mais caía nas armadilhas de sua trama de origem.

Logo, os furos no roteiro e erros grotescos de continuidade jorravam aos montes. A própria ideia da temporalidade se tornou falha, e acreditar que todos os eventos se davam no espaço de apenas 24 horas se tornou impossível; quer dizer, como a polícia faria tantos exames diferentes e teria tantos resultados tão rápidos? Como várias pessoas, em vários momentos do dia, subiriam e desceriam a serra a seu bel prazer – em viagens de aproximadamente uma hora ou mais? “O Rebu”, assim como o morto, parecia afogado em seus próprios erros. Que dizer do delegado Pedroso, que, mesmo muito conceituado, explanava evidências para todos os suspeitos do crime?  E de seu romance com a dona da casa – uma paixão ardente desenvolvida, pasmem!, em questão de poucas horas? Além disso, se tratando de uma investigação policial com múltiplos suspeitos, como e por que era permitido que convidados (e também estranhos) entrassem e saíssem da casa continuamente? E o câncer de Braga, que não demonstrava nenhum sinal da doença até esta ser descoberta, lá pelo capítulo 30? Falando em Braga, o que deu nele para subornar o delegado Pedroso, mesmo sabendo que este é um policial linha dura com todo o tipo de corrupção e que certamente acabaria preso?

“O Rebu” foi, aos poucos, introduzindo várias tramas, uma mais interessante que a outra, mas não parecia saber lidar com elas. Pior: acabou se contradizendo e se atrapalhando com muitas delas. Forçou muitas barras, de modo que praticamente todos os personagens sofreram com pelo menos um erro épico de roteiro; todas as tramas acabaram contaminadas. Ainda assim, é impossível odiar esta novela: apenas pela produção técnica impecável, “O Rebu” já merecia figurar entre as melhores produções dos últimos anos. A novela contou simplesmente com a melhor direção dentre os produtos globais – sejam estes cinemáticos ou televisivos – em anos; o complexo trabalho de Villamarim, com longuíssimos planos-sequência e várias outras técnicas complicadas, foi estarrecedor. O que dizer então da fotografia? E das atuações, dignas de abocanharem todos os prêmios do ano? É impossível numerar a quantidade de performances épicas aqui; todos, simplesmente todos os atores merecem reconhecimento. Até mesmo aqueles em papéis mais secundários, extremamente coadjuvantes, como Camila Morgado, Vera Holtz e César Ferrario, em “O Rebu”, fizeram um trabalho que muitos não conseguem realizar em uma vida.

Além disso, mesmo completamente furado, o roteiro acabou acertando onde devia – isto é, o desenvolvimento de personagens. Admitamos: “O Rebu” derrapou feio em construir suas tramas e em manter certo nível de qualidade, mas montou seus vários personagens espetacularmente. O maior destaque, claro, vai para os protagonistas Ângela Mahler e Carlos Braga, que desafiam o conceito de mocinha e vilão. Braga, mesmo manipulativo e inescrupuloso, logo se demonstra um personagem frágil, desesperado e profundamente apaixonado pela sua esposa e sua família, enquanto Ângela, mesmo cheia de boas intenções, é assustadoramente fria. A construção em volta da personagem de Patricia Pillar foi simplesmente impecável em mostrar, sob as perspectivas de vários personagens, como Ângela consegue se manter distante, gélida, praticamente incapaz de amar. Ângela Mahler deveria entrar para o hall de personagens mais icônicas da TV brasileira, uma vez que é raro ver personagens tão complexos em novelas, de maneira geral.

Como, então, avaliar uma produção que encontra-se em ambos os extremos? Uma produção com um roteiro péssimo, cheio de erros grotescos e extremamente amadores, mas que conta com vários outros aspectos técnicos magníficos? A melhor ilustração desta dualidade está nos dois capítulos finais. Mesmo que, sem a menor dúvida, contem com algumas das melhores cenas, atuações e direção da novela inteira, é impossível negar o problema terrível de lógica que George Moura criou: como pode o delegado Pedroso decidir reatar com Rosa e ter um filho, descaracterizando o personagem? Como pode Ângela dispensar seus seguranças e decidir se trancar em casa, em frente a uma grande janela, sabendo que há um assassino à espreita para lhe matar – assassino este não muito eficaz, já que esteve à espreita o dia todo e desperdiçou várias chances fáceis e até óbvias de matar a madame? Como pode a polícia dar o caso como encerrado se não capturou este mesmíssimo assassino, que deveria ser a prioridade, já que oferece risco eminente e em tempo real?

“O Rebu” se engasga em suas ambições, passando metade de sua trama em contradições, e acaba criando uma das novelas mais furadas da televisão brasileira – tão furada quanto a infame “Salve Jorge”, o que é lá alguma coisa. Resta o sentimento de decepção com uma das histórias que poderia, de fato, revolucionar a televisão brasileira com sua trama extremamente sofisticada, e a sensação de que uma ótima produção e um elenco magnífico foram desperdiçados. Longe de ser boa, mas também sem decair ao ponto de ser espetacularmente ruim, “O Rebu” é uma oportunidade jogada no lixo. Vale apenas pelo quesito técnico e, talvez, pela boa evolução dos capítulos iniciais.

Nota: 5,5/10

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