[Projeto Oscar 2014] Resenha: Ela

Indicado nas categorias de

Melhor filme
Melhor roteiro original (Spike Jonze)
Melhor trilha sonora original
Melhor canção original (The Moon Song)
Melhor direção de arte

Todo ano, existe aquele filme indicado ao Oscar que torcemos muito para que seja reconhecido, mesmo com poucas chances de ganhar a tão almejada estatueta de Melhor Filme. Este ano, para alguns, este filme é “Gravidade”; para outros, é “Clube de Compras Dallas”, ou “Nebraska”. Eu, no entanto, vou ficar com “Ela”. O filme, que acabou de estrear nos cinemas brasileiros, é, juntamente com “12 Anos de Escravidão”, o meu favorito para as categorias principais. Já carregando o peso de um Globo de Ouro de Melhor Roteiro Original nas costas, “Ela” é um filme doce e destruidor, que causará inúmeros sorrisos e lágrimas ao longo de suas duas horas.

“Ela” conta a história de Theodore, um homem que trabalha escrevendo cartas de amor para namorados. Vivendo num futuro não muito distante, em que a tecnologia se tornou bastante avançada, Theodore é um homem antissocial e com poucos amigos, deprimido desde o fim de seu casamento. Um dia, ele decide comprar o OS1, um novo e avançadíssimo sistema operacional para seu computador. Ao iniciá-lo, conhece Samantha, uma voz de inteligência artificial capaz de pensar e ter sentimentos que o ajuda a organizar sua vida. À medida que se conhecem, iniciam uma densa amizade que logo evolui para o amor, e têm de enfrentar suas diferenças, em busca de ficarem juntos.

Em tempos de Nicholas Sparks e romances bregas, “Ela” vem muito bem a calhar por oferecer uma novidade para esse gênero tão saturado. Bem escrito, cheio de diálogos inteligentes, denso, emocionante, realista e melancólico, “Ela” é um dos filmes de romance mais doces e mais tristes dos últimos anos. E, para isso, o roteiro não precisa de clichês como um dos mocinhos morrer no final, ou um beijo debaixo de uma chuva, nem nenhuma dessas cenas bobas e superficiais que já estamos cansados de ver. “Ela” é destruidor simplesmente por mostrar as dificuldades de um relacionamento em que duas pessoas são tão diferentes – sendo que uma delas não é nem mesmo humana, sequer tem um corpo. Como o amor, o verdadeiro amor, pode nascer de algo que não é humano? Como alguém pode se apaixonar pela voz de uma máquina?

“Ela” é, acima de tudo, um filme sobre a solidão e o amor nos relacionamentos modernos. Vivemos num mundo em que o amor é excessivamente complicado. O amor já não é mais puro, o amor já não é mais um sentimento; é uma expectativa, é um desejo, é um plano para um futuro. É isto o que “Ela” mostra: as diferentes formas de se amar e as diferentes reações que as pessoas têm diante do amor. Nem todas elas são bonitas, nem todas elas são fáceis. O amor, ou a falta dele, pode ser doloroso, como, por exemplo, na cena em que uma mulher é contratada para ser uma substituta sexual na relação entre Samantha, a máquina, e Theodore, o humano. Essa mulher nada mais quer do que ser amada, e, no mundo em que ela vive, não consegue; a única maneira que ela têm de encontrar o amor, o verdadeiro e puro amor, é sendo usada como uma prostituta no meio de Samantha e Theodore, um computador e um humano – isto é, um amor que não é dela. E como isso pode passar impune em nossas vidas? Como o amor consegue ser tão almejado, e ao mesmo tempo tão frágil, tão difícil de se conseguir? Qual é a dificuldade que o ser humano tem de amar de verdade?

O amor já não é real. Theodore é contratado para escrever cartas românticas e pessoais para outras pessoas que provavelmente nem se importam com isso. Em “Ela”, o amor se tornou doente, superficial, fraco, moribundo. E não é difícil de imaginar o porquê de Theodore se apaixonar por um ser tão puro quanto Samantha – a única que consegue amar de verdade neste mundo. Uma máquina ama mais do que um ser humano. “Ela” se propõe a analisar isto: qual o papel do amor em nossas vidas? É ele importante? Ele é capaz de nos salvar? Ele nos torna alegres? Ou ele nos destrói?

O lindíssimo roteiro mais do que cumpre esta proposta, cheio de momentos inesquecíveis e honestos. Frases belíssimas embalam cada cena, cada minuto da vida de Theodore e Samantha, enquanto eles tentam superar as dificuldades de seu relacionamento e enfrentar quem realmente são. A trilha sonora de Arcade Fire, minimalista, emociona, juntamente com a direção simples e brilhante de Spike Jonze. Não são necessários grandes recursos ou cenas cheias de pieguisse para transformar “Ela” em um filme lindo: basta deixar a história se desenrolar com simplicidade e com um roteiro inegavelmente poderoso, e também com atuações impressionantes de Joaquim Phoenix como Theodore, Amy Adams como sua melhor amiga que passa pela dor do fim de um relacionamento, e Scarlett Johansson, que interpreta Samantha, e, mesmo usando apenas sua voz, consegue emocionar profundamente e, ouso dizer, merecia, sim uma indicação ao Oscar; mas, como o Oscar decidiu inventar a desculpa de que somente atrizes que aparecem em cena podem ser indicadas… Além disso, assim como em “O Mestre” (filme do ano passado em que Joaquim Phoenix e Amy Adams também contracenaram juntos), “Ela” deixa no ar uma ambiguidade sobre seus temas. É um filme sobre um amor impossível, ou sobre a necessidade que as pessoas tem de estarem conectadas a tecnologia e se desligarem do mundo real? É sobre amor, ou sobre solidão? E por que não os dois?

Com uma crítica bem lá no fundo e fugindo ao clichê do típico romance piegas e bobinho, “Ela” é uma análise profunda e dolorosa sobre um relacionamento desfuncional. Triste, lindo, melancólico e doce, este é um dos filme de romance mais originais e mais necessários dos últimos anos. Maduro, engraçado e emocionante, “Ela” vai te dar choramingando pela dor de seus protagonistas, e pela solidão que eles sentem. Na poderosíssima cena final, diante de um céu cinzento e do panorama da grande e solitária cidade de Los Angeles, vemos os últimos olhares de Phoenix e Adams, cheios de pesar, sozinhos contra a paisagem da cidade, e, mais uma vez, “Ela” nos destrói com sua sensibilidade e beleza únicas. É impossível não amar estes personagens. É impossível não sair da sessão conhecendo um novo sentido para a palavra “amor”.

Nota: 9,5/10

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