[Análise] Top 10: Os piores filmes do ano (parte II)

Existem filmes que passam longe de qualquer chance de salvação. Esta semana, postamos a primeira e a segunda parte de nossa lista de melhores filmes do ano. Ontem, postamos a primeira parte de nossa lista de piores filmes do ano. Agora, daremos continuidade com os cinco piores filmes de 2013 – alguns bem tristes, para falar a verdade.

5 – Empate: A Hospedeira (The Host, de Andrew Niccol, EUA, Romance, 2013) / Finalmente 18 (21 and Over, de Jon Lucas e Scott Moore, EUA, Comédia, 2013)

É óbvio que se um livro é bom e se sua adaptação for fiel, o filme será bom também. Então, por que “A Hospedeira” é tão catastrófico? Baseado no ótimo livro de Stephanie Meyer (sim, a mesma autora de Crepúsculo; eu sugiro que qualquer um que ainda tenha algum tipo de preconceito deixe-o de lado e vá conferir o livro por si mesmo), o filme tinha tudo, absolutamente tudo para ser bom. É um conto para agradar fãs de romance, fãs de ficção científica e fãs de ação. E ainda cumpriu a tarefa de ser bastante fiel ao livro. Então, o que deu errado? Simples: Andrew Niccol. É difícil de acreditar que o mesmo cara por trás de filmes fantásticos como “Gattaca” tenha conseguido falhar tão absurdamente com “A Hospedeira”. Niccol parece que nunca dirigiu nem escreveu um filme na vida, mesmo com sua carreira de mais de 15 anos. Num show de amadorismo, ele explora ângulos errados, escreve cenas erradas e faz um filme vergonhoso de tão mal feito. Eu lembro de ter comentado sobre “A Hospedeira” com uma amiga minha que não tinha lido o livro, e ela começou a rir. O triste é que eu comecei a rir também – por que o resultado final é risível. Cenas que deveriam comover acabam sendo não-intencionalmente engraçadas. Os atores também não colaboram: a maioria é tão inexpressiva quanto madeira, só se salvando a ótima Saiorse Ronan, que tenta ao máximo carregar o filme inteiro nas costas. No final das contas, “A Hospedeira” parece mais uma paródia do que um filme de verdade. Parece até mesmo “Croosroads”, aquele filme da Britney Spears que passa constantemente na Sessão da Tarde, mas que ninguém gosta de se lembrar. Aliás, o que foi isso de fazer a Melanie e a Peg conversarem literalmente por pensamentos? A pior decisão cinematográfica do ano faz o filme inteiro parecer uma novela mexicana dos anos 1970.

Quem nasceu para ser “Finalmente 18” nunca será “Se Beber Não Case”. Depois que a história do bando de lobos estreou nos cinemas em 2009, vários comediantes começaram a desesperadamente tentar repetir o sucesso. Uma dessas mais recentes tentativas, “Finalmente 18”, apela para tudo: desde cópias descaradas da comédia de 2009 até os clichês mais profanos de comédias adolescentes, estilo “American Pie” – e não é a trilogia original, não. Previsível, bobo, entediante e terrivelmente clichê, as piadas vulgares e forçadas de “21 and Over” não convencem. Se alguém gosta de rir com um jovem correndo em cima de carros com um bicho de pelúcia preso à genitália, ou dois marmanjos sem roupa levando tapas na bunda como parte de um ritual feminista… quer dizer… sei lá, tem gosto pra tudo.

4 – Empate: Inatividade Paranormal (A Haunted House, de Michael Tiddes, EUA, Comédia, 2013) / O Concurso (de Pedro Vasconcelos, Nacional, Comédia, 2013)

Há um momento em que um personagem anuncia que “demônios não devem ser filmados”, e só temos esperança de que o filme acabe antes de se envergonhar ainda mais – o que, infelizmente, não acontece. Mais uma paródia, “Inatividade Paranormal” se propõe a fazer graça da franquia “Atividade Paranormal”… como milhares de outros filmes vem fazendo desde 2007. Atrasado por seis anos, “A Haunted House” faz somente o que várias outras paródias já fizeram, e ainda por cima de jeito ofensivo, mais até do que o comum. Com todos os estereótipos que se possa imaginar, Marlon Wayans acha que está repetindo o sucesso de “Todo Mundo Em Pânico”, mas na verdade seu novo filme é incrivelmente forçado e sem graça. Pode-se esperar piadas de todo um tipo: um padre gangster, um vidente afeminado (que constante e irritantemente é foco das atenções), uma orgia de gangsters, um estupro fantasmagórico, um cara esfregando sua genitália para tentar se livrar da herpes… Espere, o que eu estou dizendo? Este é o filme mais inteligente do ano!!!11! O incrível é que um segundo filme está a caminho… é realmente difícil entender a$ lei$ complexa$ e profunda$ que regem o cinema.

Já “O Concurso” marca um péssimo exemplo para o cinema nacional. Assim como “Finalmente 18”, tenta ser um tipo de “Se Beber Não Case” nacional, mas, no fundo, é apenas uma comédia sem graça, exagerada, estereotipada, caricata, profundamente preconceituosa e até ofensiva pela pseudo-lição de moral que tenta dar no final. As melhores coisas do filme são Rodrigo Pandolfo e Carol Castro, que, mesmo não sendo especialmente engraçados (principalmente o primeiro, cujo maior momento cômico é quando Sabrina Sato lhe repete incondicionalmente: “Me come ou eu te mato”), conseguem adicionar charme. Enquanto isso, a maioria dos outros atores, como Fabio Porchat e Pedro Paulo Rangel se perdem em atuações tão exageradas que chegam a dar preguiça, e Danton Mello interpreta aquele que é, provavelmente, o personagem mais irritante desde Jar Jar Binks em “A Ameaça Fantasma”.

3 – Giovanni Improtta (de José Wilker, Nacional, Comédia, 2013)

Outra bomba nacional, “Giovanni Improtta” tinha tudo para ser, no mínimo, um filme suportável: seu personagem era consideravelmente engraçado e já fazia parte da cultura popular por deixar uma marca tão grande em uma novela tão popular quanto “Senhora do Destino”, o que com certeza traria boa parte do público de volta para ver sua estreia solo. Mas nada impediu este filme de flopar desastrosamente, recuperando pouco mais de um quinto de seu orçamento, e ainda entrar para a lista de piores filmes do ano. Improtta não consegue ter carisma o suficiente em seu próprio filme, e tenta ser um action-comedy, mas peca por dois motivos: 1) não é engraçado, e 2) tem uma trama boba com poucos momentos sérios afogados numa tentativa de comédia (o que nos leva de volta ao primeiro motivo). Além disso, a direção de José Wilker é profundamente inconstante, deixando o resultado final feio. Wilker é como M. Night Shyamalan: 20% de suas cenas são montadas de uma maneira interessante; os outros 80% são mal feitos, mal dirigidos e extremamente duvidosos. O roteiro também erra feio: tenta investir num clima de sátira, mas acaba sendo só gratuito e vulgar. Chega a ser chocante que os roteiristas tenham achado que certos momentos, tão ofensivos quanto o exorcismo de um jovem homossexual numa igreja evangélica, pudessem ser engraçados.

2 – Para Maiores (Movie 43, de vários diretores, EUA, Comédia, 2013)

Devo confessar: este filme me deixou curioso. Desde seu lançamento, no início do ano, houve uma comoção gigantesca na mídia, beirando à histeria, convulsões e ataques epilépticos. Segundo crítica e público, o filme não era só o pior do ano (detalhe: estavam dizendo isso já em janeiro), como também um dos piores filmes já feitos. “O Cidadão Kane dos filmes ruins”. E eu, na minha curiosidade profissional, lá fui dar uma conferida, e posso dizer, do fundo do meu coração: a coisa é feia. “Para Maiores” é como uma bomba relógio. É provável que, daqui a alguns anos, comecem a correr lendas urbanas de que qualquer um que veja esse filme enlouqueça. E pode ser verdade. “Para Maiores” conta a história de um grupo de adolescentes procurando um filme proibido chamado “Movie 43”. Enquanto procuram, vão assistindo esquetes de “humor” cheias de atores famosos como Hugh Jackman, Kate Winslet e Chloe Grace Moretz. Essas esquetes contam histórias como a de um homem que nasceu com os testículos no pescoço, ou a de um casal que chegou a um momento na relação em que devem cagar um no outro. “Para Maiores” tinha a intenção de ser uma sátira à cultura ocidental, mas só conseguiu ser um dos filmes mais inadmissíveis, incompreensíveis e intoleráveis de todos os tempos. E se você ficou com medo de descobrir o que consegue ser pior do que isso e ganhar o primeiro lugar em nossa lista, acredite: você vai precisar desse medo…

1 – Empate: Casa da Mãe Joana 2 (de Hugo Carvana, Nacional, Comédia, 2013) / Se Puder… Dirija! (de Anita Barbosa e Paulo Fontenelle, Nacional, Comédia, 2013)

Eu acho que não estou psicologicamente preparado para falar desses dois filmes separadamente, portanto, mesmo sendo filmes completamente diferentes, vou comentá-los em paragrafo único. Eu realmente não sei onde estavam com a cabeça para produzir filmes assim, muito menos como alguém achou que seria legal investir dinheiro suado nisso. Estes dois diferem, basicamente, em um único ponto: “Casa da Mãe Joana 2” é dolorosamente ofensivo, revoltante e preconceituoso. É revoltante como essas chanchadas atuais conseguem ofender tanta gente de uma vez só. É revoltante como os homossexuais, mais uma vez, são retratados como hienas no cio. É revoltante como estrangeiros são retratados por seus estereótipos. É revoltante como, em menos de 90 minutos, “Casa da Mãe Joana 2” consegue ofender, no mínimo, 3 continentes inteiros, de modo que é capaz que seja até pior que o já horroroso “Se Puder… Dirija!”. Fora isso, ambos são igualmente vergonhosos, parecendo episódios de “A Turma do Didi”, com atuações horrorosas de forçadas e histórias sem sentido. “Se Puder… Dirija!” consegue se destacar por forçar TANTO a barra que chega a dar vergonha de assistir, mesmo sozinho. Esses dois filmes são tipo “O Filho do Máscara” de nossa década. E vai ser necessária muita higiene para apagá-los da memória.

Por outro lado, tenho que deixar aqui meu desabafo: dá uma sensação horrível e triste colocar não um, mas QUATRO filmes nacionais nesta lista, e ainda por cima nas primeiras colocações. Este ano trouxe algumas das maiores bombas dessa nova leva de comédias nacionais, que já não é tão lucrativa, de modo que logo as grandes distribuidoras terão de encontrar outro gênero para lucrar em cima do público. É triste por que nosso cinema tem tanto, mas TANTO potencial que infelizmente é mal aproveitado pelos grandes estúdios que procuram apenas tirar um dinheirinho do consumidor, sem se preocupar com a qualidade. E o pior é que, quando alguém vai falar que “filme brasileiro é horrível”, ninguém nunca pensa em filmes como “Uma História de Amor e Fúria”, “O Som Ao Redor”, “Elena” (três dos filmes que entraram em nossa lista de melhores do ano), ou “Central do Brasil”, “O Cheiro do Ralo”, “Tropa de Elite” e “Cidade de Deus”, reconhecidos internacionalmente, ou ainda, voltando mais no tempo, de “Deus E O Diabo Na Terra Do Sol”, considerado um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Não. Sempre vão lembrar de filmes como “O Concurso”, “Giovanni Improtta”, “Casa da Mãe Joana 2”, “Se Puder… Dirija!” e até mesmo “Crô”, que eu não vi, mas já sofre com a reação da crítica e do público. E isso é muito triste, por que o nosso grande potencial continuará a ser desperdiçado. É muito triste mesmo.

E aí? Achou que algum filme ficou de fora? Comente, e não deixe de conferir a primeira parte da lista de piores filmes do ano, a primeira e segunda parte de nosso especial de melhores filmes do ano.

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4 pensamentos sobre “[Análise] Top 10: Os piores filmes do ano (parte II)

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  2. Não vi todos os filmes, mas se considerar A Hospedeira ruim, devemos incluir na lista também Instrumentos Mortais. A Hospedeira ao menos soube adaptar bem a obra, diferente de Instrumentos Mortais que foi produzido apenas para os fãs. O público comum considerou o filme ruim e confuso!

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    • Olá, Diego. Eu pensei em adicionar Cidade dos Ossos não entre os dez primeiros colocados, mas entre as menções desonrosas. Sim, CoB ficou confuso, atrapalhado e bagunçado, mas foi ao menos suportável a meu ver. Já “A Hospedeira” foi doloroso de assistir a cada momento. Foi uma adaptação fiel e fácil de entender pra quem não leu o livro? Sim, mas não é só isso que conta. “A Hospedeira” teve uma das direções mais horríveis que eu vi nos últimos anos. Sinceramente, até essas novelas que passam no Vale A Pena Ver De Novo têm uma direção melhor, para você ver como é seríssimo o caso. Não sei o que o público comum andou falando de CoB, mas já ouvi muita gente (incluindo fãs do livro) falando mal de “A Hospedeira”. Alguns consideraram pior do que Crepúsculo. Enfim, achei “A Hospedeira” um dos piores filmes do ano, e também uma das piores adaptações já feitas, por que é fiel, mas nem isso salva.

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