[Análise] Top 10: Os melhores filmes de 2013 (parte II)

E continua nossa lista! Ontem, começamos a postar nossa lista de melhores filmes lançados em 2013, e, antes de continuar, você não pode deixar de conferir a primeira parte. Pois bem, continuando a seguir as regras de nosso top 10 – são elegíveis apenas filmes lançados em território nacional neste ano –, deixamos aqui os cinco primeiros colocados:

5 – Empate: Ferrugem e Osso (De Rouille et D’os, de Jacques Audiard, França, Drama romântico, 2012) / Elena (de Petra Costa, Nacional, Documentário, 2012)

“Ferrugem e Osso” conta a história de um pai abusivo que se muda para a casa de sua irmã e conhece Stéphanie, uma treinadora de orcas que leva uma vida nos limites. Pouco tempo depois, ela sofre um grave acidente que mudará sua vida para sempre. Este é, sem dúvidas, um dos filmes mais prazerosos que eu vi este ano. Não só por suas duas horas passarem voando, como também por ter uma história tão palpável, tão acessível, tão emocionante, feita de uma maneira tão simples, tão sem exageros… e, claro, pelo elenco de peso, incluindo a vencedora do Oscar Marion Cotillard (talvez, mais conhecida por sua participação em “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”), que mais uma vez atua maravilhosamente e transforma sua personagem, Stéphanie, numa das personalidades mais estonteantes e intrigantes do cinema deste ano.  Um daqueles filmes que conseguem ser doces e realistas ao mesmo tempo, e que emocionam sem nunca esquecer da complexidade de seus personagens em suas jornadas por transformação e autodescobrimento.

“Elena” foi o filme que partiu meu coração. Talvez você já tenha ouvido falar desse tímido documentário, que ganhou as redes sociais no início do ano. Se não, vai por mim: procure ouvir. Este é um dos filmes mais poéticos, bonitos, doces e terrivelmente tristes do ano. A diretora, Petra Costa, apresenta para nós a história de sua irmã, que foi para Nova York tentar a vida como atriz e acabou caindo numa profunda depressão. Com aura de poesia e cenas da vida e infância das duas irmãs, “Elena” toca por ser um filme tão pessoal, por conseguir mesclar com tanto sucesso a dolorosa história de Elena com a belíssima arte. Uma linda homenagem de irmã para irmã.

4 – Empate: Amor (Amour, de Michael Heneke, França, Drama, 2012) / O Lugar Onde Tudo Termina (The Place Beyond The Pines, de Derek Cianfrance, EUA, Drama policial, 2013)

Outro filme de partir o coração, “Amor” é devastador. A história de Anne e Georges, um casal de idosos que deve enfrentar a degeneração da primeira após um AVC, que ganhou o mundo, o Oscar e a Palma de Ouro, é destruidora. Para o espectador desavisado, são apenas duas horas de um filme lento e chato. Para aqueles que sabem identificar a emoção e a sensibilidade de um filme, “Amor” será uma montanha russa de emoções complexas e de muitas lágrimas. É torturante ver as dificuldades do casal, e o estado ao qual Anne se deteriora. Ao mesmo tempo belíssimo e sufocante, delicado e pesado, “Amor” tem tudo para emocionar até o mais duro dos corações. E, acima de tudo, para fazer refletir: até onde o sentimento, o amor, a cumplicidade, pode suportar diante de tanta dor? E, claro, é impossível não comentar a performance devastadora de todo o elenco, mas especialmente de Emmanuelle Riva. Todos sabem que sou um grande fã da Jennifer Lawrence e que fico muito feliz por seu trabalho ser reconhecido, mas é inegável que Riva merecia o Oscar de Melhor Atriz. São pouquíssimas atrizes que conseguem destruir e te reduzir a lágrimas com apenas um olhar, e Riva faz isso durante o filme inteiro.

Repetindo a parceria do destruidor “Namorados Para Sempre”, Ryan Gosling e o diretor Derek Cianfrance contam a história de Luke, um motociclista que descobre ter um filho e, para sustentá-lo, passa a realizar assaltos a bancos, até o momento em que seu caminho se cruza com o do policial novato Avery Cross. “O Lugar Onde Tudo Termina” não é filme para qualquer um. Seu ritmo deliberado pode espantar os espectadores à primeira vista, mas, para aqueles que permanecerem até o final, verão uma obra pesada e trágica, mas também muito emocionante e esperançosa. É um filme de ciclos – ao contrário do que a sinopse dá a acreditar, os 140 minutos do filme não se resumem à história do personagem de Ryan Gosling; contado a partir do ponto de vista de Luke, de seu filho e de Avery Cross (interpretado brilhantemente por Bradley Cooper), “O Lugar Onde Tudo Termina” é uma história sobre família, pobreza, violência, perdas, vingança e, acima de tudo, corrupção: até onde podemos continuar honestos diante das tentações da vida?

3 – Empate: O Mestre (The Master, de Paul Thomas Anderson, EUA, Drama, 2012) / Indomável Sonhadora (Beasts Of The Southern Wild, de Behn Zeitlin, EUA, Drama, 2012) / Gravidade (Gravity, de Alfonso Cuáron, EUA, Suspense, 2013)

“O Mestre” conta a história de um homem, perturbado por suas memórias dos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial, que, na década de 1950, se junta a uma seita religiosa – até o momento em que começa a duvidar da veracidade da mesma. Com uma performance memorável de Joaquim Phoenix (outro grande injustiçado pelo Oscar), “O Mestre” é cheio de um clima pesado, simbolismos e cenas desconfortáveis. Apesar de não haver nada visualmente visceral, é um filme que vai mexer com a cabeça dos espectadores – tanto pela psicose sexual velada de seu protagonista, quanto pela ambiguidade da crença religiosa e a complexidade dos personagens, que nunca são o que parecem ser. A genialidade de “O Mestre” está justamente aí: na capacidade de se manter imprevisível pelo curso de suas mais de duas horas, com atuações primorosas do elenco principal e cenas que com certeza ficarão marcadas no psicológico dos espectadores. A ambiguidade da religião, que em determinados momentos parece visceralmente verdadeira e em outros inegavelmente falsa, é outro trunfo do filme, que acaba deixando o assunto em aberto para diversas interpretações, uma mais complexa do que a outra.

“Indomável Sonhadora” é o filme mais encantador e doce que vi este ano. Conta a história de Hushpuppy, uma garota que vive com seu pai na extrema pobreza de uma ilha apelidada de Banheira, à margem de uma grande cidade industrial. Após uma grande chuva, a Banheira corre risco de desaparecer, e, ao mesmo tempo que Hushpuppy tem que encontrar uma maneira de salvar a vida de seu pai, criaturas pré-históricas acordam no Ártico, ameaçando seu universo de harmonia, vida e cores. Doce, mágico, simples, inocente, esbanjando poesia, com uma aura de sonho e de conto de fadas, “Indomável Sonhadora” é uma fantasia moderna que emociona por trazer um olhar infantil tão delicado e bonito para a realidade de pobreza nos EUA. É impossível traduzir toda a beleza e doçura desse filme em palavras. É, acima de tudo, um conto sobre imaginação, nascimento, autodescobrimento e sobrevivência, com uma atuação marcante e comovente de Quvenzhané Wallis, que consegue te reduzir às lágrimas e te matar de rir com igual facilidade. Afinal, não é qualquer uma que é indicada ao Oscar com apenas 9 anos.

É impossível falar de “Gravidade” sem dizer o que todo mundo já disse. Este é, sim, um dos filmes mais tensos e angustiantes do ano. Mesmo com seu orçamento digno de blockbuster, “Gravidade” não se esforça em criar cenas exageradas e megalomaníacas para a diversão do grande público. Em vez disso, deixa-se conduzir pelo silêncio sufocante, capaz de causar náuseas, e a direção primorosa de Alfonso Cuáron, cheia de sequências longas e sem cortes, que intensificam ainda mais a atmosfera de tensão e de ansiedade. Paralelamente, a fotografia de Emmanuel Lubezki é estarrecedora de tão bonita e hipnotizante. O pôr-do-sol no espaço, a iluminação e a grandiosidade da Terra são impagáveis. E não podemos deixar de considerar as lindas metáforas para o nascimento, a vida e a morte, como, por exemplo, as inúmeras comparações entre a falta de gravidade no espaço e um feto no líquido amniótico, a cena em que a personagem Ryan Stone, diante do sol, se encolhe literalmente como um bebê na barriga de sua mãe, a figura paternal representada pelo personagem de George Clooney e os primeiros passos trôpegos de Stone, como uma criança aprendendo a andar. Metafórico, arrebatador e com uma atuação fortíssima de Sandra Bullock, grande candidata ao Globo de Ouro e ao Oscar, “Gravidade” é um suspense de roer as unhas, mas também um drama lindo, cheio de reflexões e momentos tão únicos que provavelmente nunca irão se repetir na história do cinema.

2 – Antes da Meia-Noite (Before Midnight, de Richard Linklater, EUA, Romance, 2013)

Em “Antes do Amanhecer” (1995), nos apaixonamos por Jesse e Celine, que se conheceram em uma viagem de trem e tinham pouco mais que algumas horas antes de seguirem suas vidas. Em “Antes do Por do Sol” (2004), tivemos nosso coração partido pelas circunstâncias que os separaram e o destino, que os levou a se reencontrarem. E agora, com “Antes da Meia Noite”, a história do casal se fecha numa nota melancólica e nostálgica, fazendo-nos lembrar de tudo que fez esta ser uma das melhores trilogias de todos os tempos, não só para o gênero romance, mas para toda a história do cinema. Simples e maravilhoso, “Antes da Meia Noite” fecha a trilogia de Richard Linklater num tom agridoce, mostrando um casal mais velho, com filhos, tendo de suportar o peso, as dúvidas e a problemática da meia-idade. Com tudo o que fez desses filmes algo tão marcante – os diálogos profundos, as reflexões sobre a vida cotidiana, a sensibilidade do roteiro simples e honesto e as diversas maneiras de nos emocionar, fazer rir, chorar e quebrar nosso coração com poucas palavras –, “Antes da Meia Noite” é uma ode àqueles que acompanharam Jesse e Celine ao longo de seus dezoito anos de busca, autodescobrimento e dúvidas. E, com olhos molhados de lágrimas e o coração saltitando pelo desfecho dessa doce, honesta e genial história, é impossível não torcer e esperar que, daqui a mais 9 anos, vejamos mais um capítulo desse romance. Sem dúvidas, um dos filmes do ano, que reafirma que esta é uma trilogia obrigatória tanto para os céticos quanto para os românticos e sonhadores.

1 – Upstream Color (de Shane Carruth, EUA, 2013)

Eu nem sei por onde começar. Como falar de um filme tão complexo quanto “Upstream Color”? A sinopse oficial diz, simplesmente, “Um homem e uma mulher se unem e lutam para reunir os fragmentos soltos de suas vidas destruídas”. Alguns críticos relatam que este era um dos filmes mais esperados no Festival de Sundance e, terminada a sessão, ninguém conseguia parar de falar sobre ele. Percebam que nem mesmo o gênero eu coloquei ao lado do título – isso por que simplesmente não há como classificar “Upstream Color” em um único gênero. Poderíamos passar horas discutindo sobre as inspirações sobre o filme: ficção científica, romance, drama, suspense… Percebam também que este também é o texto mais longo de todo o top 10. Sendo objetivo: “Upstream Color” é um dos filmes mais intrigantes que já vi em toda minha vida. Shane Carruth já havia criado um nome para si mesmo em 2004, com a complicadíssima ficção científica indie “Primer”. Agora, nove anos depois, ele volta com “Upstream Color” – um filme filosófico, transcendental, poético e inegavelmente complexo. É impossível sair do filme sem a cabeça cheia de reflexões e interpretações. Por seu estilo complicado e difícil de entender, “Upstream” só chegou no Brasil através de festivais, e provavelmente vai espantar noventa por cento de seus espectadores nos primeiros vinte minutos – mas, depois de uma brainstorm, é possível perceber que a história é, na verdade, muito simples. Adotando para si um estilo parecido com o de Terrence Malick em “Árvore da Vida” (mas, novamente, muitíssimo mais complicado) “Upstream Color” é um filme cheio de silêncio, olhares e momentos. É possível sentir a dor, a emoção e a busca de seus personagens em cada segundo como um coração pulsante. É um filme que parece criar vida e crescer em nós. É aquele tipo de filme que nos deixa extasiados por dias. É claro, poderia ser mais convencional, mais simples; poderia, por exemplo, se encaixar em um só gênero. Mas assim como Ishiguro em “Não Me Abandone Jamais”, o próprio Malick em “Árvore da Vida” e Kubrick e Bergman em praticamente suas filmografias inteiras, entre outros mestres, “Upstream Color” ousou aspirar a algo mais. E, no processo, definitivamente se tornou um dos meus favoritos.

E aí? Gostaram de nosso top 10? Sentiram falta de algum filme? Comentem abaixo! Nosso blog é movido por comentários. E amanhã, voltaremos com a primeira parte de nosso top 10 de piores filmes do ano.

Se não leu, confira a parte I!

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