[Resenha] House Of Night: Marcada

“House of Night” é um guilty pleasure – isto é, aquela obra que sabemos que não presta, mas que gostamos mesmo assim. Como, por exemplo, True Blood, ou Glee, ou os filmes trash dos anos 70.

Pois bem, dito isso, quero afirmar novamente: a série não presta para absolutamente nada, mas é muito divertida. Provavelmente, daqui a cinco anos, os livros estarão na minha estante apenas acumulando poeira, por que não terei interesse nenhum em reler tudo. Mas, sem dúvidas, não vou esquecer das risadas que a saga me arrancou e dos momentos de empolgação. E é por isso que é difícil de acreditar que a saga comece de maneira tão ruim. “Marcada” é um livro tão ruim, mas tão ruim, que posso dizer que é o pior livro que eu já li na minha vida.

A história é a seguinte: Zoe é uma garota comum, a não ser pelo fato de que ela é Marcada para se tornar uma vampira. No mundo em que ela vive, os vampiros existem desde sempre, mas são um pouco diferentes do que estamos acostumados: em vez de criaturas sanguinárias, são seres místicos que vivem em equilíbrio com a natureza e a magia. Ainda assim, sofrem com o intenso preconceito e com um tipo de caça às bruxas, liderada por religiosos fervorosos. Para aprender a ser uma vampira, ela deve seguir para a Morada da Noite, uma escola feita estritamente para os seres noturnos. Mas há um problema: durante sua Transformação, que dura aproximadamente quatro anos, seu corpo pode rejeitá-la, o que significaria a morte. Além de ter que lidar com esses problemas físicos, Zoe tem que enfrentar também Aphrodite, uma patricinha popular determinada a destruir sua vida.

Para começar, a história é extremamente fútil. Exemplo disso é que uma das subtramas mais importantes do livro inteiro é sobre sexo oral. Já dá pra ter uma ideia do nível da coisa por aí. E podemos também falar da narração pobre de Zoe, que, como personagem, parece muito mais interessada em usar vocabulário pornográfico do que em contar a história propriamente dita. Ainda, há aquele típico embate entre a novata e a patricinha popular, como se não houvesse filmes de Sessão da Tarde suficientes para lidar com isso.

Claro que, nos livros seguintes, a relação entre as duas melhora consideravelmente, e existe essa surpresa de Zoe e Aphrodite se tornarem confidentes e amigas próximas, mas, em “Marcada”, somos obrigados a conviver com esse clichê chatinho.

Em relação ao desenvolvimento, além da futilidade já mencionada, “Marcada” sofre com o excesso de hormônio adolescente e com os clichês típicos desse gênero – inclusive, criando personagens que mais parecem saídos de “As Patricinhas de Beverly Hills”. Stevie Rae, a caipira que sempre tem uma tirada “do rancho” para quebrar o gelo. Shaune e Erin, as “gêmeas” barraqueiras e muito cheias de si (sim, é aquele tipo de pessoa que fala “amiga” para tudo). Heath, que é basicamente um recorte de todo garoto popular na história dos Estados Unidos: bonitão, atlético, jogador de futebol, burro e bêbado. Erik, o interesse amoroso de Zoe, que também cai no clichê de “o cara perfeito”. E Damien, que talvez seja o caso mais sério de todos: é um personagem gay. Até aí tudo bem, se não fosse pelo fato dele ser tratado o tempo todo como gay. O-Tempo-Todo. É quase como se as autoras não estivessem interessadas no fato de que ele é um personagem, de que ele tem uma vida, de que ele tem um intelecto ou mesmo de que ele é um ser humano. Nós, como leitores, não somos apresentados a esse lado dele. Ele é apenas gay. É estereotipado. É mais uma prova do quão fútil é esse livro.

A mitologia também comete pecados. Pode até parecer interessante à primeira vista, mas, à medida que o livro vai avançando, percebemos que nada mais é do que uma mistura de várias outras sagas. P. C. e Kristin Cast sugaram até o talo (e esta é a expressão certa para um livro em que sexo oral constitui um papel tão importante) de suas inspirações em As Brumas de Avalon, chegando ao ponto de parecer somente uma cópia mal feita. Tão mal feita que, se substituíssemos  os vampiros por feiticeiros, daria no mesmo. Todos os elementos que fizeram de Avalon um livro tão empolgante, criativo e emocionante estão aqui, só que de forma vulgar, pouco emotiva e tirando o fortíssimo conteúdo feminista da saga de Morgana e transformando-o em um mero produto adolescente com mentalidade pequena.

Para não dizer que absolutamente tudo é deprimente em “Marcada”, podemos elogiar pelo menos o senso de humor. Sim, é vulgar e sem sofisticação, mas pelo menos arranca algumas risadas. Se, talvez, o livro fosse uma comédia em vez de uma fantasia, poderia ser uma boa obra. Mas, como é um livro que tenta ser sério, acaba tropeçando nos próprios pés. Outro fator positivo é o comentário político quanto à rejeição dos vampiros pela sociedade em geral, que é um paralelo à perseguição aos homossexuais, às mulheres, às pessoas “estranhas” – isto é, que não seguem o padrão de beleza ou de comportamento imposto pela sociedade. Isto, por si só, é apenas mais uma inspiração em As Brumas de Avalon, mas pelo menos consegue se realizar de forma decente.

Em suma, “Marcada” é aquele livro que eu não recomendaria nem para meu pior inimigo. A série House of Night melhora nos próximos livros, mas, em relação a este aqui, o resultado final é pior que medíocre.


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4 pensamentos sobre “[Resenha] House Of Night: Marcada

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  3. Gostaria de começar dizendo, parabéns, você simplesmente é genial, falou exatamente o que senti quando comecei sobre essa saga esdrúxula e falou a simples e pura verdade, meus parabéns. Adorei a escrita, simples, clara e direta, parabéns pelo blog!

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