[Análise] Especial Distopias: Parte II – A Trilogia Distópica

Antes de “Jogos Vorazes” e “Divergente”, houve obras precursoras que foram consideradas verdadeiros divisores de águas, não só na ficção científica e na distopia, como na literatura em geral. Algumas delas foram tão longe ao ponto de serem consideradas as “melhores obras do século XX”, ou chegaram perto disso. Estamos falando da “trilogia distópica”, que, apesar de não ser uma trilogia propriamente dita e seus três livros terem sido escritos por autores diferentes sem nenhuma conexão, é considerada uma trilogia pela crítica devido ao fato de serem três obras distópicas que marcaram o mundo, e continuam a marcá-lo até hoje. Todos os três livros exercem grande influência no mundo moderno, e também acabaram se mostrando extremamente proféticos – tanto no lado bom quanto no lado ruim. Vamos conhecê-las:

  • 1984

“Winston, herói de 1984, último romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico. De fato, a ideologia do Partido dominante em Oceânia não visa nada de coisa alguma para ninguém, no presente ou no futuro. O’Brien, hierarca do Partido, é quem explica a Winston que ‘só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade – só o poder pelo poder, poder puro.’”

Esta é provavelmente a mais substancial e mais venerada distopia de todos os tempos. Talvez devido ao seu conteúdo político sufocante, ou às suas críticas sublimes que envolvem não só a questão política e social, mas a própria natureza humana, ou ao vastíssimo conteúdo literário, não sei. Quando li este livro pela primeira vez, soube que nunca mais leria qualquer história da mesma maneira. Eu sempre pensaria: “por que este livro não pode ser que nem 1984?”.

1984 carrega, consigo, uma dura crítica que por muitos foi interpretada como uma alegoria contra a ditadura socialista de Stálin na URSS; para outros, foi um golpe contra a alienação nacionalista e capitalista norte-americana, que demonizava a figura do comunista. Mas, acima de tudo, 1984 é uma crítica contra a maleabilidade humana. Contra nossa natureza contraditória, nossos impulsos egoístas que se sobrepõem ao amor, à amizade e todas as outras relações que poderíamos nutrir. Nós somos dominados por que somos mentalmente fracos. Somos dominados por que desistimos de nossos princípios para salvar a própria pele. Não existe identidade própria quando não existe moral e princípios, por isso o Estado nos unifica, e acabamos tendo personalidades iguais: lutamos pela pátria, trabalhamos pela pátria, amamos a pátria. Não há espaço para mais nada.

Tudo isso, combinado a uma linguagem emocional, que nos identifica a cada situação, nos sufoca e, no fim de tudo, nos destrói ao nos mostrar que não somos diferentes nem especiais – somos tão submissos quanto todos os outros – transforma 1984 numa obra atemporal, um prato cheio para análise literária e filosófica. Afinal, o livro nos mostra como a raça humana sempre será quebrável e corrupta; está em nossa natureza.

  • Admirável Mundo Novo

“Ano 634 df (depois de Ford). O Estado científico totalitário zela por todos. Nascidos de proveta, os seres humanos (precondicionados) têm comportamentos (preestabelecidos) e ocupam lugares (predeterminados) na sociedade: os alfa no topo da pirâmide, os ípsilons na base. A droga soma é universalmente distribuída em doses convenientes para os usuários. Família, monogamia, privacidade e pensamento criativo constituem crime.

Os conceitos de “pai” e “mãe” são meramente históricos. Relacionamentos emocionais intensos ou prolongados são proibidos e considerados anormais. A promiscuidade é moralmente obrigatória e a higiene, um valor supremo. Não existe paixão nem religião. Mas Bernard Marx tem uma infelicidade doentia: acalentando um desejo não natural por solidão, não vendo mais graça nos prazeres infinitos da promiscuidade compulsória, Bernard quer se libertar. Uma visita a um dos poucos remanescentes da Reserva Selvagem, onde a vida antiga, imperfeita, subsiste, pode ser um caminho para curá-lo. Extraordinariamente profético, “Admirável Mundo Novo” é um dos livros mais influentes do século 20.”

Publicado mais de uma década antes de 1984, Admirável Mundo Novo é, ao seu lado, considerado uma das maiores distopias de todos os tempos. Enquanto 1984 investe numa linguagem extremamente emocional, feita para envolver e encantar o leitor, Admirável Mundo Novo é uma clara sátira dos costumes da sociedade moderna. Publicado em 1932, o livro explora uma sociedade onde todos são, desde o momento da concepção, condicionados a pensarem de determinada maneira – afinal, se um fato é repetido muitas vezes, ele se torna uma verdade. Desse modo, a sociedade é dividida em castas – e os membros das mesmas amam isso. Mesmo a casta mais baixa está feliz com sua posição, pois, desde o berço, entende que é necessária para a manutenção da sociedade. Assim, todos estão felizes. Não deve se esquecer, também, que todos – até mesmo crianças – são criados para viverem vidas extremamente sexuais, mas sem firmar um relacionamento. Ou seja: o individuo pode dormir com quem quiser, mas não se apaixona. Pelo contrário: todos têm horror ao amor.

A história é contada, principalmente, por um dos chamados Selvagens – isto é, uma pessoa que vive numa reserva fora da sociedade, onde as pessoas ainda se amam, ainda constroem famílias, enfim, ainda vivem da maneira que vivemos hoje. O Selvagem é, na verdade, uma representação de nós mesmos: como nós, com a mentalidade que temos hoje, veríamos essa sociedade horrorosa, onde o sexo é algo banal e cada um é feliz em sua própria individualidade? Não pensem que estou tentando ser moralista, por favor. É preciso ler o livro do início ao fim para ter uma ideia do quão terrível e fria esse mundo é, em que tudo o que amamos e tudo que damos valor hoje perde o significado. Tudo se torna uma cópia feia e promíscua do que fazemos hoje. Mas, ao mesmo tempo, Admirável Mundo Novo é um reflexo do caminho que a sociedade atual vem trilhando: cada vez mais, esquecemos de conceitos como família, amigos, amor etc. Vivemos num mundo individualista. Se o próprio autor admitiu que este mundo distópico se tornou realidade em 1963, pouco mais de 30 anos depois de publicar a obra, onde nós fomos parar agora que estamos em 2013?

O livro nos coloca frente a situações absurdas e improváveis, desde provas de loucura coletiva até orgias que começam a acontecer sem nenhuma explicação logica. Admirável Mundo Novo é um livro assumidamente exagerado, para mostrar num nível extremo o que é que estamos nos tornando como seres humanos.

  • Fahrenheit 451

“O caminho da paz passa por dois elementos fundamentais: um, material, o outro, espiritual. Materialmente, trata-se de suprir as necessidades básicas dos cidadãos. Nessa sociedade afluente, moderna e organizada, todos vivem em casas confortáveis, vestem-se e se alimentam satisfatoriamente, têm empregos e contam, para se entreter, com úbiquas telas de TV, por onde participam interminavelmente de programas interativos (o livro foi escrito nos anos 40, o que o torna terrivelmente premonitório). Porém a satisfação material não garante a paz social se houver insatisfação espiritual. Isto é, se existirem a imaginação, a fantasia, os questionamentos, as alternativas, as dúvidas. Tudo aquilo de que os livros são depositários. A história, a literatura, a filosofia, a poesia, a religião, a política, as biografias, tornam-se uma ameaça à uniformidade passiva e satisfeita. Os livros são, portanto, todos proibidos.

Porém proibir os livros, por si só, não elimina os livros já publicados. Para isso há os bombeiros, agentes especializados em localizar livros escondidos e em queimá-los in loco (não há necessidade de agentes para combater incêndios, pois as casas, ao contrário das mentes, são então à prova de fogo). Felizmente, como demonstra o surpreendente final, bombeiros com lança-chamas não podem queimar a memória.”

Este livro é o maior terror dos leitores vorazes: conta a história de um mundo onde os livros são proibidos, acabando brutalmente queimados. Imagine! Um mundo sem livros! Um mundo em que a cultura é sufocada! Um mundo onde os assassinatos e a guerra são comuns!

Eu lembro de me encantar com essa história desde a primeira página. Fahrenheit 451 é um livro lírico, cheio de poesia e reflexões. Não só tem uma bela linguagem – apesar de difícil e até mesmo inacessível para aqueles que não estão acostumados com linguajar erudito – como tem mensagens fortíssimas sobre alienação e o papel da cultura em nossa sociedade. A alienação não vai mudar a verdade: não é por que você é rico e passa o dia inteiro assistindo novelas na televisão (sim, essa é a realidade no livro) que a pobreza vai deixar de existir, ou a guerra, ou a alta taxa de assassinatos. Fahrenheit 451 é apenas uma short novel – tem meros três capítulos que juntos mal chegam às 200 páginas de um pocket book – mas, com transcrições rápidas e grandes filosofias, nos deixa a maior questão: a memória não pode ser alterada; não podemos ignorar a verdade, pois isso trará apenas nossa destruição.

E aí? Estão gostando do especial? Comentem a vontade, e amanhã tem mais com “As distopias no cinema”. Até lá!

Continuação:

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

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2 pensamentos sobre “[Análise] Especial Distopias: Parte II – A Trilogia Distópica

  1. Pingback: [Análise] A Revolução dos Bichos | No Meu Mundo

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