[Resenha] O Canto da Sereia

Esqueça os detetives de outrora, que circulam por ruelas escuras e frias, envoltos em trajes soturnos e enigmáticos. O investigador baiano Agostinho Matoso, o insaciável Augustão, prefere calças brancas e camisas floridas, frequenta os ensaios do Olodum e nunca enfrentará questões de magnitude com a cara limpa – um cerveja gelada, por favor, uma rede, quem sabe um baseado, Miles Davis e Jorge Benjor, porque há que se matutar, e muito para decifrar o crime que paralisou a cidade.

Nunca se viu nada parecido na Bahia. O assassinato da musa do carnaval em plena terça-feira gorda, eletrizou Salvador – quem teria motivos para matar a linda Sereia, que aos 22 anos se tornara uma estrela exuberante do pop nacional? A princípio ninguém, mas a lei do suspense clássico também vigora neste noir baiano: incluindo o mordomo, são todos suspeitos.

Plugado no computador, seu bom e velho Macintosh, Augustão vai rastrear a vida dos principais envolvidos nesta trama insólita. Os criadores de Sereia, seus produtores artísticos, a fiel empresária, o chefe político local, a mãe-de-santo mais poderosa da Bahia – a vida de cada um será vasculhada pelo sagaz investigador, capaz de cometer deliciosas irresponsabilidades para atingir seus objetivos.

O Canto da Sereia é um livro de Nelson Motta, um romance maravilhoso com muitos mistérios, sexo e cannabis.

O livro conta a estória de Sereia, uma famosa cantora baiana que é assassinada com um tiro no auge de sua fama, durante uma apresentação num trio elétrico. O problema é que no meio da grande multidão de seguidores de Sereia, não há como identificar o responsável pelo atentado, dessa forma, amigos e empresários da estrela de axé music passam a ser os principais suspeitos do crime.

Embora a trama possa parecer um clichê comum, todo o seu desenrolar foge totalmente do esperado. Augustão, um jornalista e detetive particular,que trabalhava como chefe de segurança da estrela, é escalado para solucionar o crime. Augustão acaba se mostrando um detetive completamente diferente, que foge de métodos tradicionais de investigação e também se perde entre deduções e desejos sexuais. E embora ele acabe se sentindo culpado pela morte de Sereia e intrigando com a questão de seu assassinato, gostei de como Nelson Motta retratou a fragilidade desse personagem, com imperfeições e senso de humor que fazia com que Augustão se destacasse na estória.

Outro ponto interessante é o bom trabalho que o autor fez na construção do enredo do livro, mostrando a cultura baiana através dos cenários, dos costumes e dos personagens.

A capa do livro é linda, feita em pop art, com close bem dramático, além de algumas páginas negras que dão um toque ainda mais misterioso e requintado ao livro.

O livro é diferente da série feita em quatro capítulos feita pela Rede Globo em 2013 em pontos importantes, mas o enredo é o mesmo, o que faz a série tão boa quanto o livro.  Amei a abertura da série, sentia arrepios e aquele friozinho  na boca do estômago digno de todo mistério que se prese. Ela foi escrita por George Moura, Patrícia Andrade e Sérgio Goldenberg, com supervisão de texto de Glória Perez e direção geral de José Luiz Villamarim e direção de núcleo de Ricardo Waddington.  Uma super produção da nossa teledramaturgia.

Por isso podemos falar,  nós brasileiros somos muitos bons em adaptar, isso faz parte acredito do nosso famoso “jeitinho brasileiro”. Por isso que ficamos tão fulos e decepcionados quando nos topamos com livros mal adaptados. Faz parte da nossa natureza cricri.

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