[Análise] Especial Distopias: Parte III – As distopias no cinema

Não é só no mundo literário que as distopias fazem sucesso. Muitas das ideias acabaram migrando para as grandes telas do cinema, também. Algumas são apenas adaptações de livros de sucesso – “1984” e “Admirável Mundo Novo”, por exemplo, tiveram duas adaptações cada, enquanto “Fahrenheit 451” teve somente uma, a qual se tornou um marco da ficção científica na década de 1960. Outras são ideias completamente novas e muito curiosas.

  • Brazil

“Sam Lowry (Jonathan Pryce) vive num Estado totalitário, controlado pelos computadores e pela burocracia. Neste Estado, que lida com o terrorismo, todos são governados por fichas e cartões de crédito e ainda precisam pagar por tudo, até mesmo a permanência na prisão. Neste mundo opressivo Sam acaba se apaixonando por Jill (Kim Greist), uma terrorista.”

O grande negócio sobre este filme genial de Terry Gilliam é que esta não é uma distopia comum. Pra começar, é meio que uma comédia, ao contrário do tom violento e sombrio das distopias. Mas não é por isso que “Brazil” deixa de ser uma sátira ácida. Usando muito humor negro e surrealismo, o filme consegue ser mais acessível para quem não está tão familiarizado com questões políticas, mas também não é o filme mais fácil de se entender do mundo. Exemplo disso é que este é considerado por algumas publicações como “o filme mais cult já feito”. E não posso discordar. O ritmo do filme não é pra todo mundo, não. Com duas horas e meia, o filme vai e volta com suas críticas e situações absurdas e surreais, por mais que nunca deixe de ser extremamente engraçado.

Porém, o filme em si é muito bom. Enquanto via, percebi o quão parecido ele era com “1984” – em fórmula, em história, em tudo. Só que, claro, com uma veia mais cômica, de forma que muitas vezes parecia uma sátira de “1984”. Sam e Jill não são nem de perto como Winston e Julia, e o governo de “Brazil”, apesar de ser tão repressivo quanto de “1984”, é bem mais escrachado e cheio de cacoetes de comédias – o que torna tudo ainda mais divertido. Mas o legal mesmo é a forma como a distopia é caracterizada: neste mundo, somos dominados pela tecnologia e burocracia. Temos os aparelhos mais avançados (o filme foi feito em 1985, e alguns desses aparelhos são bem parecidos com o que temos hoje em 2013, e com o que ainda sonhamos ter dentro de alguns poucos anos), mas simplesmente tudo o que fizermos é documentado, e precisa de assinaturas e autorizações. Nada é simplesmente espontâneo: tudo é burocrático, de tal forma que o sistema, a tecnologia e a própria burocracia são altamente intrusivos. Tudo isso é tratado de forma bastante irreverente e non-sense, mas com um grande cunho social.

Sam sonha, e seus sonhos são uma grande fantasia. Literalmente. A nós, telespectadores, é permitido adentrar nesse sonho, e é uma loucura. Rola espadas, anjos, ninfas, megazords-de-guerreiros-chineses-gigantes… E tudo isso nos mostra que Sam não só é mentalmente instável, como ele também quer mais do que aquela vidinha. Ele não quer ser promovido no trabalho daquele mundo, não sonha com o consumismo daquele mundo que nem todo mundo. Tudo que ele quer é contrário à maré daquele mundo. E por isso esse filme é tão profundo, e ao mesmo tempo tão engraçado.

Agora, quanto ao título (que é algo que intriga muita gente até hoje), há várias teorias do porquê do filme ser chamado “Brazil”. A que eu considero mais provável é a de que o filme é uma grande referência à ditadura militar brasileira, que ainda estava em vigor quando o filme foi lançado. Não é difícil de trazer várias situações do filme para a realidade brasileira da época: a ditadura foi marcada por consumismo em massa e uma quantidade enorme de burocracia; os rebeldes da ditadura também praticavam pequenos atentados, que o governo chamava de “terroristas”, entre outras coisas. Também, durante vários momentos do filme (particularmente os momentos de esperança, em que Sam está sonhando ou em que ele parece mais próximo de realizar seu sonho), toca a música “Aquarela do Brasil”, que pode ser mais um motivo do título.

  • Matrix

“Em um futuro próximo, Thomas Anderson, um jovem programador de computador que mora em um cubículo escuro, é atormentado por estranhos pesadelos nos quais encontra-se conectado por cabos e contra sua vontade, em um imenso sistema de computadores do futuro. Por meio do encontro com os misteriosos Morpheus e Trinity, Thomas descobre que é, assim como outras pessoas, vítima do Matrix, um sistema inteligente e artificial que manipula a mente das pessoas, criando a ilusão de um mundo real enquanto usa os cérebros e corpos dos indivíduos para produzir energia. Morpheus, entretanto, está convencido de que Thomas é Neo, o aguardado messias capaz de enfrentar o Matrix e conduzir as pessoas de volta à realidade e à liberdade.”

Uma das coisas mais interessantes sobre “Matrix” é que a distopia não é o grande às da história – tanto que muita gente que não viu os filmes até hoje fica surpresa ao descobrir que trata-se, sim, de uma distopia. A história é a seguinte: o mundo como nós conhecemos não existe. É uma simulação de computador, feita por máquinas dotadas de inteligência artificial. O motivo? Numa guerra com os seres humanos, as máquinas perderam a forma de produzir energia (isto é, o sol), então tiveram que arranjar outras maneiras: agora, os humanos são fonte de energia, e, para isso, ficam presos em gigantescos reservatórios, enquanto vivem conectados à simulação de computador que lhes garante a ilusão de uma vida normal.

O mais legal sobre Matrix é que a história subverte a noção de que uma distopia deve ser estritamente política, dando mais foco em questões filosóficas e, pasmem!, artísticas também. Filosoficamente falando, há várias citações ao cristianismo na trilogia (inclusive, o final do terceiro filme pode ser considerado bastante cristão), e também referências a teorias filosóficas milenares, como O Mito Da Caverna de Platão. Tudo isso sem se esquecer de abrir uma grande discussão sobre a natureza humana e a inevitabilidade de nossos atos.

Já no quesito artístico, “Matrix” é um espetáculo. Não só revolucionou a maneira de se fazer ficção científica e mostrou para as grandes produtoras que é possível fazer um filme inteligente e viajado para grande público, como também trouxe várias novidades técnicas para a cinematografia. Os irmãos Wachowski, produtores, roteiristas e diretores do filme, admitiram várias vezes serem gamers e fãs da cultura japonesa, e isso é mais que visível em “Matrix”, que traz uma direção bem parecida com a de um animê (com direito a inúmeros takes e ângulos de perfil e cenas de tensão lentas e longas com grandes diálogos, assim como a caracterização de personagens parecidíssima com o que vemos num mangá), e também traz cenas de ação muito japonesas, disso ninguém pode duvidar.

Alguns fãs dizem que a trilogia deveria ter parado no primeiro filme, onde as ideias filosóficas eram mais presentes e a inspiração japonesa era mais visível, enquanto no segundo e terceiro filmes houve uma overdose de ação que acabou se aproximando de um filme de aventura normal. Eu, no entanto, gosto muito do segundo filme, que na minha opinião é tão fantástico quanto o primeiro, pois, enquanto o primeiro focou em ideias e filosofia (tendo ação somente nos últimos quarenta minutos), o segundo foi um filme cheio de ação, que no entanto dava continuidade às ideias introduzidas no primeiro filme e chegava a até mesmo elevar essas ideias a um outro nível. O único filme da trilogia que é realmente ruim é o terceiro, por que este, ao longo de suas duas horas, traz ação sem parar. Não dá nem tempo para respirar, de modo que não há bem uma história nesse filme. A conclusão da saga, que deveria ter sido tão boa, sacrificou seu conteúdo filosófico e suas mensagens geniais para poder se vender como um filme de ação para adolescentes que só querem ver explosões e mais explosões. Apesar de que as últimas cenas, mostrando a conclusão da guerra entre máquinas e humanos, foram realmente emocionantes; mas mesmo estas belíssimas cenas não podem salvar o filme. Uma pena.

  • Akira

“Kaneda é um líder da gangue de motoqueiros, que tem um amigo próximo envolvido em um projeto governamental secreto chamado Akira. Para salvar seu amigo, Kaneda pede ajuda para vários grupos como: ativistas anti-governo, políticos gananciosos, cientistas irresponsáveis e poderosas forças militares. Durante o confronto, Tetsuo recebe uma força sobrenatural que resulta em conseqüências para o resto de sua vida.”

O Japão é um país incrível, culturalmente falando. Temos as lendas, a religião, os costumes e, mais recentemente, a onda de mangás e animês. E, já que o país é precursor de diversas tecnologias do mundo moderno, é lógico que grande parte das maiores e melhores ideias em relação à ficção científica viria de lá. “Akira” é, provavelmente, um dos trabalhos mais importantes nesse âmbito. Não só foi responsável por criar uma história diferente e empolgante (e, como consequência, ter se tornado um baita filme), como também acabou por popularizar os mangás e animês no ocidente, muito antes de “Naruto”, “Pokemon”, “One Piece” e outras obras estourarem por aqui.

“Akira” começou como um mangá, que foi publicado desde meados da década de 1980 até o inicio da década de 1990. O projeto é até hoje considerado um dos mangás mais venerados e mais bem vendidos no mundo. Como tal, uma adaptação para o cinema começou a ser produzida antes mesmo do mangá ser finalizado. Quando o filme estava pronto, o mangá estava mais ou menos na metade, daí só metade foi adaptada. E, se só metade da história conseguiu se tornar um filme tão bom e tão influente, já dá pra imaginar o potencial de “Akira”.

A distopia é bastante básica: num futuro amplamente tecnológico e avançado, a população convive com crime e pobreza incontroláveis. Até aí, nada demais. O grande diferencial de “Akira” vem daquele charme costumeiro da cultura japonesa: existe um projeto secreto para o desenvolvimento da maior arma de todas, e o melhor amigo de Kaneda, Tetsuo, é sequestrado, visto como potencial para esse projeto. Acontece que as experiências acabam por dar poderes sobrenaturais aos envolvidos, e Tetsuo em especial se adapta muito bem a estes poderes, reacendendo um medo: Tetsuo pode ser tão poderoso quanto Akira, um jovem que há 31 anos usou seus poderes para destruir Tóquio. Enquanto Kaneda parte numa busca junto a rebeldes para resgatar seu amigo, Tetsuo está determinado a descobrir os mistérios por trás de Akira e dos experimentos, não importa o tamanho da discórdia que tenha que causar no caminho.

Imagine uma grande ideia, executada de forma quase perfeita. Imagine cenas de tirar o fôlego. Imagine as grandes batalhas, típicas de mangás, violentas e brutais durante grande parte do filme. “Akira” não é apenas uma ótima distopia, cheia de ideais fantásticas. É também um épico de ação, tão empolgante que mal dá para tirar os olhos da tela. É o melhor da animação japonesa, e, com certeza, um dos melhores filmes do gênero já feitos. Não é a toa que o filme criou um culto aos mangás pelo mundo todo. Assim como “Matrix”, é um filme em que a distopia é menos importante do que as ideias, a história e a ação. Inclusive, “Akira” é citado como uma das maiores influência para diversos filmes de ficção científica do ocidente, principalmente americanos, como o próprio “Matrix”. Sou fã incondicional de “Akira”, e este é definitivamente um de meus filmes favoritos.

Agora é com vocês: deixem seus comentários, e amanhã estamos de volta com a última parte do especial, “Os clássicos distópicos no cinema”.

Continuação:
Parte I
Parte II
Parte III
Parte IV

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